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quarta-feira, 17 de julho de 2013

A graça de estado

Unavox/Agosto 2012

A graça de estado

De Padre… um sacerdote da Fraternidade

[Tradução: Gederson Falcometa]

A maior parte daqueles que acreditam ter, o dever de defender a política de Menzingen, ultimamente tem utilizado o argumento da obediência ao Superior, em razão da sua graça de estado. De que se trata? Quanto vale verdadeiramente este argumento?

Se pode não amar a expressão «graça de estado», mas não se pode desconsiderar a verdade que essa exprime, porque é uma convicção cristã que tem sempre graças concedidas para o homem viver de forma sobrenatural segundo as necessidades da sua função. Mas segundo o dicionário Littré, sobre o significado de «graça de estado», a linguagem familiar conservou apenas aquilo de «ilusões associadas a uma condição e que a torna suportável»: Deus concede a sua ajuda para permitir ao homem arranjar-se bem nas dificuldades inerentes a sua profissão ou a sua missão.

O Dictionnaire de Spiritualité, que dedica um artigo interessante a este tema, observa a propósito: «se o sentido lhe vem caricaturado, a caricatura não é feita sem motivo».

A recente crise da Fraternidade Sacerdotal São Pio X esta a ilustra-la.

A Graça de Estado tem por fundamento uma dúplice origem; uma escritural: os “carismas” de São Paulo, a outra escolástica: a gratia gratis data [a graça gratuitamente dada].

Em efeito, a Escritura nos revela a existência dos “carismas”: discursos de sabedoria, poder de cura, poder de operar milagres, profecia, discernimento dos espíritos, dom de línguas, vocação hospitalar, apóstolo, evangelista, doutor, pastores e assim segue. O termo é empregado para também designar um estado de vida permanente ou uma vocação particular no Espírito (matrimônio, celibato).

O carisma pode definir-se como um dom gratuito, sobrenatural, conferido em vista da edificação do Corpo de Cristo. Esse sustenta a fé da Igreja, aperfeiçoando o conhecimento da mensagem evangélica ou incitando a uma mais firme adesão a esta mensagem. Os carismas são então destinados a ajudar os batizados «afim de que, cheguem todos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus » (Ef. 4, 13) e assim cresçamos na caridade (Cf. Ef. 4, 16).

Os carismas de São Paulo são tratados na teologia escolástica sob a etiqueta de “gratiae gratis datae” [graça gratuitamente dada]. São Boaventura estende a noção a cada ação divina, chamado ou palavra, que estimulam a alma de um homem em dadas circunstâncias. Santo Tomás de Aquino define a “gratia gratis datae” como uma graça para cooperar na salvação dos outros. Mas por vezes, um pouco da atenção nos manuais de teologia se coloca no individuo, para o qual o dom é feito e, em relação ao bem dos outros, não mais se mencionará explicitamente a Igreja.

É neste contexto que faz o seu desaparecimento a graça de estado.

Fazem-lhe uso alguns autores místicos, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa D’Avila, Bourdalue. Na pregação, a graça de estado se torna então, a graça que Deus doa a qualquer um para cumprir cristãmente o seu dever de estado.

O que não é falso, mas esta longe de carisma. Então, a graça de estado é toda graça atual doada por Deus – luz para a inteligência e força para a vontade – para ajudar o cristão a assumir em termos sobrenaturais as funções e as circunstâncias na qual se encontra.

Depois deste incremento, o dicionário Dictionnaire de Spiritualité faz as seguintes observações, para evitar o uso abusivo desta noção:

«É necessário guardar-se de conceber a graça de estado, como revelações ou de iluminações miraculosas, que viriam a ensinar ao homem aquilo que não sabe, ou como de forças que se substituiriam pura e simplesmente, a fraqueza humana, a carência e as renúncias. Em geral, a graça chega ao homem seguindo apenas as vias naturais. (…) não se contesta que Deus possa, se o quiser, criar em um sujeito predisposições novas para uma dada tarefa. Todavia, como regra ordinária, nós não devemos contar com este milagre. (…)

«É igualmente errôneo conceber as graças de estado, como socorros que viriam a suprir automaticamente as insuficiências do temperamento, das atitudes, das preparações, como se bastasse ser encarregado de alguma tarefa para ser feito capaz de cumpri-la, devendo Deus nos conceder as compensadoras graças de estado.  A graça de estado, não é garantia de infalibilidade para os superiores, não é a aquisição da ciência para o ignorante feito professor, e assim sucessivamente; essa não é uma panaceia. (…)

«É necessário dispor-se para as graças de estado, como para cada graça, merecê-la tanto quanto possível, através de uma completa e continua docilidade aos convites do Espírito Santo. Em efeito, seria uma ilusão imaginar que Deus conceda as graças de estado, por assim dizer, mecanicamente. Se Deus oferece sempre as suas graças, essas são recebidas apenas na medida das disposições do sujeito».  (Dictionnaire de Spiritualité)

Vamos agora aplicar estas considerações no caso que agora ocupa a nossa atenção: o da FSSPX.

O Superior geral da FSSPX havia, sim ou não, as graças de estado para conduzir a sua política de diálogo com a Roma conciliar, assim como foi conduzida (busca de um acordo puramente prático)?

1) Antes de tudo, é evidente que, graça de estado ou não, o Superior geral, não goza de infalibilidade. E, se graça de estado há: «essa não é uma panaceia. (…) seria uma ilusão imaginar que Deus conceda as graças de estado por assim dizer, mecanicamente».

2) Além das prementes tomadas de posição do Superior geral, de uma estupefata superficialidade, como:

«Para o bem comum da Fraternidade, nós preferíamos muito mais a solução atual de status quo intermediário, mas claramente Roma não tolera mais isso». (Resposta aos três bispos, 14 de abril de 2012);

«Permanece verdadeiro – segundo o direito da Igreja – que para abrir uma nova capela ou fundar uma obra, será necessário ter a permissão do ordinário do lugar. Evidentemente, nós representamos em Roma o quanto seja difícil a nossa atual situação nas dioceses, e Roma esta ainda trabalhando. Aqui ou lá, esta dificuldade será real, mas quando jamais a vida é sem dificuldade? (Entrevista a DICI de 8 de junho de 2012);

manifestam que o Superior geral não goza do carisma do Fundador da FSSPX:

«Não é surpreendente que não cheguemos a um entendimento com Roma. Isto não será possível, até que Roma não retorne a fé no reino de Nosso Senhor Jesus Cristo, desde que dão a impressão que todas as religiões são boas. Deparamo-nos com um ponto da fé católica, como se enfrentaram o Cardeal Bea e o Cardeal Ottavianni, e como todos os Papas enfrentaram o liberalismo» (Conferência em Sierre, Suiça, 27 de novembro de 1988, sobre Fideliter n.89, setembro de 1992, pg 12).

3) Além disso: «a graça em geral, chega ao homem seguindo apenas as vias naturais». Isto equivale dizer que em geral a luz chega ao superior através do conselho. Os três bispos, dos superiores, dos priores, das comunidades amigas, dos fiéis, escreveram e falaram a Menzingen para coloca-la em guarda e prevenir sobre os efeitos desastrosos da política em curso.

Em 2011 Mons. De Galarreta escrevia:

«Ir na direção de um acordo prático, significaria renegar a nossa palavra e o nosso compromisso com os nossos sacerdotes, nossos fiéis, Roma e com o mundo inteiro. Isto teria consequências enormes ad intra e ad extra.

Do Ponto de vista doutrinal, por parte de Roma, não existe alguma mudança tal, a ponto de justificar a nossa. Ao contrário, os colóquios demonstraram que esses não aceitam em nada as nossas criticas.

«Seria absurdo da nossa parte, ir em direção a um acordo prático, depois do resultado e das constatações dos colóquios. (…) Um tal comportamento manifestaria uma grave fraqueza diplomática da parte da Fraternidade. Para dizer a verdade: mais que diplomática. Seria uma falta de coerência, de retidão e de firmeza que teria como efeito a perda de credibilidade e de autoridade moral da qual gozamos.

«O simples fato de empenhar-se sobre esta estrada, geraria entre nós a dúvida, disputas, desconfianças, partidos e, sobretudo divisões. Muitos dos Superiores e dos sacerdotes teriam legítimos problemas de consciência e se oporiam. A autoridade e próprio princípio de autoridade seriam colocados em questão, minados. (…) Consequentemente, não é o momento de mudar a decisão do Capítulo geral de 2006 (nenhum acordo prático sem a solução da questão doutrinal), não é correto, nem prudente lançar-se a preparar os espíritos em sentido contrário, antes que entre nós exista a convicção, o consenso e a decisão de mudar. (…) O contrário provocaria apenas a divisão e por reação as disputas e a anarquia. «Para o bem da Fraternidade e da Tradição, é preciso fechar o mais rápido a “caixa de Pandora”, para evitar o descrédito e a demolição da autoridade, para evitar as contestações, as discórdias e as divisões, talvez sem retorno». (Intervenção na reunião dos Superiores em Albano, 14 de setembro de 2011).

A reação de Menzingen foi emotiva, irracional e dialética: «vos falta fé, realismo, vós sois revolucionários, obediência, graça do superior, o Papa nos quer, os nossos novos amigos de Roma… »

Em março de 2012, em Cor unum, Mons. Fellay motivava a decisão de ir adiante com Roma, até a um acordo prático, apesar do fato de não ser de acordo sobre nada. Ele destruía com um sofisma a vontade do Capítulo de 2006.                                                               

O resultado foi imediato. No espaço de algumas semanas, tudo aquilo que Mons. De Galarreta havia escrito, se tornou realidade. Ele realmente tinha um carisma para defender a fé dos batizados, enquanto o outro não era capaz de sair das suas “ilusões associadas a uma condição e que a tornam suportável”. Tudo foi dito e repetido muitas vezes, mas o superior não quis ouvir nada. Porque ouvir não é escutar e depois desprezar, mas compreender, argumentar e se for o caso refutar com um pensamento objetivo e não com afirmações gratuitas encharcadas de voluntarismo e de idealismo.

4) Enfim e sobretudo, o Superior geral deve “dispor-se a graça de estado”. Raul Naz, no seu Traité de droit canonique,: «O capítulo é (…) uma pessoa moral representante de todo o Instituto (capítulo geral) ou uma província ou uma comunidade. Exceto que em algumas ordens muito antigas, o capítulo geral tenha  mais poderes que o superior geral que esse elege. Esse pode emanar leis ou pelo menos tomar provimentos que devem permanecer em vigor até ao capítulo sucessivo. O capítulo geral, se reúne, segundo as constituições, a morte do superior geral ou ao vencer os seus poderes, por exemplo, depois de seis anos, ou ainda, em certos casos, em uma data extraordinária». (T 1, n° 816 § 1)

Ora a vontade do Capítulo geral de 2006, a propósito das relações com Roma, era dúplice: «No caso em que um acordo com a Santa Sé, estivesse seriamente em vista, seria convocado um Capítulo extraordinário para tratar a questão» (Cor Unum outubro de 2006). «Na verdade, os contatos que ela [FSSPX] mantém esporadicamente com as autoridades romanas tem por único escopo de ajuda-la a reapropriar-se da Tradição que a Igreja não pode perder sem renegar a própria identidade, e não a busca de uma vantagem para si mesma, ou de chegar a um impossível “acordo” puramente pratico». (Declaração do Capítulo geral, 16 de julho de 2006).

Ora, sobre estes dois pontos, o Superior geral contradisse publicamente a vontade do Capítulo. Ele buscou a realização de um acordo puramente pratico e não convocou para isto um Capítulo geral extraordinário, nem disse que o Capítulo administrativo há muito planejado, teria ocorrido.

Um Superior geral que contradiz abertamente a vontade do Capítulo da sua Congregação pode ainda invocar a graça de estado?

Faltar gravemente com os deveres de que foi encarregado,  é este o melhor modo de “dispor-se a graça de estado” e de merecê-la “através de uma completa e continua docilidade aos convites do Espírito Santo.”? Como ter confiança em um Superior geral que despreza a vontade do Capítulo da sua Congregação? Se o Capítulo de 2012 não renega aquele de 2006, esse não poderá fazer menos que desaprovar um tal Superior, e poderia até destituí-lo muito legitima e canonicamente.

De qualquer modo, estas observações demonstram o suficiente a inanidade do argumento da graça de estado, para justificar a política de Menzigen.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X estava em paz, agora esta em ebulição. Por que? Porque o seu Superior foi vitima de “ilusões” que lhe fizeram acreditar que conduzisse uma política “sustentável” quando ao invés, essa era inaceitável.

A posição da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, é clara: o “acordo” puramente prático, é impossível.

 Overe Beatanox


agosto 2012

 

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