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segunda-feira, 29 de abril de 2019

DON CURZIO NITOGLIA: O EQUÍVOCO GUENONIANO


Don Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa

“Tradição” espúria guenoniana

René Guénon († 1951) evidenciou, criticando, a crise do mundo moderno e reabilitou a Tradição. Mas qual é a Tradição a que ele se refere e qual é o aspecto da Modernidade que criticou nas suas obras?

A Tradição guenoniana não é a Tradição apostólica, mas a “Tradição primordial”, ou seja, um conhecimento (gnosis) iniciático/esotérico, auto-salvífico e até mesmo auto-divinizante mediante apenas o conhecimento (gnosis) do iniciado na escola de um mestre (guru) ou um sábio (eleito).

A iniciação guenoniana é ativada e se adquire naturalmente por parte do iniciado mediante a gnose ou conhecimento esotérico; essa é profundamente diferente da Mística cristã, que é passiva mas a qual é preciso então corresponder, é sobrenatural e infundida pelo Espírito Santo na alma do justo.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

O PRINCÍPIO DAS DORES: A HERMENÊUTICA DA DIVINO AFFLANTE SPIRITU




Mons. Francesco Spadafora

EXTRATO
O TRIUNFO DO MODERNISMO
NA
EXEGESE CATÓLICA

Ed. Permanência
O Manifesto do Instituto Bíblico Pontifical

Ficando assim restabelecido o equilíbrio entre os personagens, passemos aos fatos.

Por volta de 1950, os alunos do Instituto Bíblico começaram a trazer para Mons. Romeo as «novidades» que lhes eram ensinadas por alguns jesuítas do antes glorioso Instituto, sobre a natureza da inspiração divina dos Livros Sagrados, não mais pessoal mas coletiva (?), com a inerrância limitada às únicas passagens concernentes ao dogma. Novidades estreitamente ligadas à aceitação dos últimos sistemas racionalistas (Bultmann-Dibelius) da Formengeschichte e da Redaktiongeschichte, fundadas sobre a negação da autenticidade e da historicidade dos Evangelhos.

Alguns nomes: Leone Algisi (1948-1950) e Luigi Moraldi (1945-1948), que em seguida abandonaram a batina e o sacerdócio, gabavam-se destas novidades, que – diziam eles – eram inculcadas pelo próprio Pio XII na encíclica Divino Afflante Spiritu (1943). Exatamente o que dizem atualmente Romano Penna e Gianfranco Ravasi, além de outros antigos alunos do Instituto Bíblico Pontifical. Nesses anos, Mons. Romeo era redator de Sagrada Escritura para a Enciclopedia Cattolica. Confiando a Mons. Spadafora, professor em Latrão, o verbete Pecado Original, ele lhe diz: «Os alunos do Instituto Bíblico me dizem que o padre Lyonnet tem sua exegese original para Romanos, V,12. Vá então verificar um pouco». Spadafora foi ao padre Lyonnet, seu companheiro de curso (1936-39), que lhe deu para ler seu texto sobre Rm V, 12, o texto fundamental de São Paulo sobre a doutrina do pecado original.

Os anos passaram e a 3 de setembro de 1960, Alonso Schökel S.J., em La Civilta Cattolica (págs. 449-460), em onze páginas de afirmações gratuitas, pretende justificar as «novidades» já ensinadas há muitos anos no Instituto Bíblico Pontifical, dando Pio XII como seu autor, na encíclica Divino Afflante Spiritu, posta em oposição a Providentissimus Deus, de Leão XIII.

O Instituto Bíblico revelava assim seu «programa». Uma mudança radical contra todas as diretivas dadas pelo Magistério sobre a exegese católica (Leão XIII, São Pio X, Bento XV) e confirmadas por Pio XII na Divino Afflante Spiritu e em seguida com Humani Generis, em 1950. Os jesuítas do antes glorioso Instituto abraçavam os dois últimos métodos racionalistas em voga e pretendiam atribuir esta mudança a Pio XII, interpretando a seu modo a Divino Afflante Spiritu e ignorando completamente Humani Generis. A ciência bíblica tornava-se puramente filológica e histórica; pondo-se de lado todo princípio dogmático, o muro que separava os católicos dos protestantes racionalistas foi derrubado, e toda diferença eliminada.

A Reação Católica

A reação dos exegetas romanos se concretizou no estudo critico e erudito de Mons. Romeo, L’Enciclica Divino Aftlante Spiritu et les Opiniones Novae, em Divinitas 4 (1966) págs.378- 456. «Hoje – escrevia Mons. Romeo – a dezessete anos de distância [da encíclica Divino Afflante Spiritu], depois da morte do grande Pio XII, o padre Alonso nos dá a notícia de uma mudança. de uma transformação, de uma novidade introduzida pela Divino Afflante Spiritu, “capaz de abrir um largo caminho novo” … Não se acha nada – perguntava Mons.Romeo – nos sucessivos documentos de Pio XII e de João XXIII…. nada que evoque, nem de longe, uma mudança, uma novidade. uma abertura de portas, novas liberdades concedidas pelo Magistério supremo em 1943?»

Este era o tema central, direto, do artigo de Mons. Romeo: a demonstração da continuidade harmônica do Magistério Supremo sobre a questão, através do exame dos documentos, a começar por Humani Generis (1950) do próprio Pio XII. E ele produziu então o testemunho autorizado, de primeira mão, que se poderia qualificar de «oficial»: o preciso comentário do cardeal Agostino Bea, que era então Reitor do Instituto Bíblico Pontifical, à encíclica Divino Afflante Spiritu, que apareceu na La Civilta Cattolica 94 (1943-IV) 212-224. Comentário completamente ignorado pelo padre Alonso.

Em conclusão Mons.Romeo escrevia: «Não há então nada, nem mesmo um indício no Encíclica … nem mesmo no comentário autorizado [ao que tudo indica realmente «autorizado»: o padre Bea era consultor do Santo Oficio e confessor de Pio XII] do Cardeal Bea, que possa justificar a opinião, ativamente posta em circulação … de que a admirável Encíclica rompia com as diretivas precedentes do Magistério Supremo, para imprimir uma nova orientação à exegese católica.

De qualquer modo, é certo para quem lê a encíclica Divino Afflante Spiritu, e se toma ainda mais claro para quem acrescenta o estudo da encíclica Humani Generis, que a encíclica bíblica do grande Pio XII se adapta perfeitamente à Providentissimus, que ele confirma, alarga e explica em diversos pontos; e através da Providentissimus estabelecemos um elo com os princípios e as normas da tradição constante sobre o culto da palavra de Deus através do trabalho exegético árduo e austero».

Até aqui Spadafora não interviera. O próprio Instituto Bíblico Pontifical o jogou na polêmica pela reação desordenada ao artigo documentado de Mons. Romeo. O motivo? Neste mesmo ano, no segundo número de Divinitas (1960) págs. 289-298, Spadafora havia publicado o artigo Rm. V, 12: Exegese e reflexões dogmáticas. O artigo havia sido pedido por sua Excelência Mons.Parente, assessor do Santo Oficio, como resposta ao artigo do Pe. Stanislas Lyonnet S.J.: Le péché originel et l’exégèse de Rm. V, 12, em Recherches de Science Religieuse 44 (1956) págs. 63-84. Como já foi dito, Spadafora havia examinado este texto alguns anos antes e, devolvendo-o ao padre Lyonnet, havia feito notar que a exegese proposta não era sustentável por ser inconciliável com a doutrina católica. Tendo recebido como resposta um simples sinal de cabeça, como um «está bem», ele pensou que seu colega não o publicaria mais. Isso se deu em 1951; entretanto, o artigo foi publicado em 1956.

Em resposta ao pedido do cardeal Parente, monsenhor Spadafora refutou ponto por ponto os argumentos do jesuíta Lyonnet, para sustentar que Rm. V, 12: «A morte passou para todos os homens, porque todos pecaram», não deve ser entendido como uma sustentação do pecado original, mas que «todos pecaram» imitando o «pecado de Adão»; trata-se portanto de pecados pessoais, ai onde o contexto (V,12-20) atesta claramente: «pelo erro de somente um … todos foram feitos pecadores»… Mas havia alguma coisa de ainda mais grave nas novidades de Lyonnet: o significado da Rm. V, 12 foi definido solenemente pelo concílio de Trento, em dois cânones sobre o pecado original.

Por causa desta refutação, porque Spadafora havia defendido a doutrina católica, o reitor do Instituto Bíblico Pontifical associou Romeo e Spadafora na sua condenação, e mostrava o dedo a eles como inimigos do estudo científico e caluniadores do Instituto Bíblico. Mas tanto Mons.Romeo como Mons. Spadafora eram conhecidos na Itália e no estrangeiro por seus estudos científicos. Não é difícil compreender, assim, que a reação dos jesuítas do Instituto Bíblico ultrapassasse os limites.

O Santo Oficio interveio e impôs silêncio às partes, que foram convidadas a apresentar seus argumentos, para que pudesse dar seu julgamento sobre a questão. Depois de obter as informações necessárias, escutar as partes, em particular os próprios jesuítas Lyonnet e Zerwick acerca das novidades que ensinavam a seus alunos, sobre a inspiração, a inerrância, a autenticidade e a historicidade dos Evangelhos, o Santo Oficio suspendeu suas aulas e os afastou de Roma.

Depois, em 20 de junho de 1961, a Congregação Suprema do Santo Oficio publicou para a defesa particular da historicidade dos Evangelhos canônicos, o Monitum seguinte:

«Uma vez que o estudo das disciplinas bíblicas se desenvolve ativamente, julgamentos e opiniões circulam em diversas regiões e põem em perigo a verdade histórica e objetiva da Sagrada Escritura, não somente do Antigo Testamento (como o Soberano Pontífice Pio XII já deplorou na encíclica Humani Generis, conf A.A.S.) mas ainda no Novo Testamento e até no que concerne às palavras e aos atos de Cristo Jesus. Como tais julgamentos e opiniões preocupam vivamente (anxios faciant) tanto aos pastores como aos fiéis, os eminentíssimos Padres nomeados para a defesa da doutrino da fé e da moral sentiram dever advertir a todos aqueles que tratam da Sagrada Escritura. tanto por escrito como oralmente. que tratem uma questão tão grave com o respeito que lhe é devido e que tenham sempre presente diante dos olhos a doutrina dos Padres, o sentimento da Igreja, assim como o do Magistério, afim de que a consciência dos fiéis não seja perturbada e que as verdades da fé não sejam ofendidas.

N .B.: Esta advertência é publicada com a aprovação dos eminentíssimos Padres da Comissão Bíblica Pontifical.

Triste, mas Verdadeiro

A medida contra os jesuítas Lyonnet e Zerwick e a «Advertência» do Santo Oficio deveriam ter varrido toda interpretação modernista da encíclica Divino Afflante Spiritu e dado um golpe mortal nas aberturas em curso para a volta das protestantes «história das formas» e «história da redação», que partem justamente da negação da «verdade histórica e objetiva» das palavras e dos atos de Jesus Cristo. Mas, pelo contrário, o concílio, o pontificado de Paulo VI e o pós-concílio, imprimiram uma mudança total de rumo dando-lhe um sentido modernista. As «opiniones novae» combatidas por Mons. Romeo e Mons. Spadafora hoje ocupam o terreno, como o demonstra o artigo de Ravasi. É triste, mas verdadeiro: a exegese católica foi enterrada por este mesmo Instituto Bíblico Pontifical, que os Pontífices romanos haviam organizado para combater o modernismo no domínio bíblico.

É o triunfo da traição e do erro, tendo como conseqüência uma grande perturbação para as consciências e uma grande ofensa às verdades da fé, como havia advertido o Santo Oficio, de pleno acordo com a Comissão Pontifical Bíblica. A Igreja é divina e «as portas do inferno não prevalecerão». A cada um dos filhos da Igreja cabe, pelo menos, o dever de denunciar infatigavelmente a traição e dar testemunho da Verdade. É o que nos propomos fazer, na medida do possível, numa série de artigos sobre este assunto.

Paulus
(Revista Sim Sim Não Não n°23, dezembro de 1994)

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