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quinta-feira, 31 de março de 2016

P. CURZIO NITOGLIA: INTRODUÇÃO A VERDADEIRA NOÇÃO DE MAGISTÉRIO

 

INTRODUÇÃO A
VERDADEIRA NOÇÃO DE MAGISTÉRIO

Padre Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa

“Ó Senhor, do qual os Santos inocentes confessaram o louvor, não falando, mas morrendo, mortifica em nós todos os males e vícios; afim de que a Fé em Ti, que é professada pela nossa língua, seja colocada em prática também pela nossa boa conduta”

(Missal Romano, Coleta da Missa dos Santos Inocentes, 28 de dezembro).

Advertência

Introdução para tornar acessível a todos quanto verão escrito na Revista quinzenal “Sim Sim Não Não”, de 15 de janeiro de 2012, e publicado antecipadamente, em 28 de dezembro de 2011, por gentil concessão, em vários blogs sobre o tema da Tradição e do Magistério, o blog “Chiesa e post-concilio” também já o publicou, mas “não em seu formato final”. A questão é de máxima importância, especialmente nestes dias em que, também em ambiente antimodernista, apareceram publicações inexatas (por excesso ou por defeito) sobre estes dois temas. Espero que este breve resumo seja capaz de esclarecer e iluminar as almas.

*

Tradição/Magistério

  • Recentemente apareceram artigos e livros, que, para defender a Tradição e a Igreja, ou exageraram o alcance do Magistério, fazendo dele um “Absoluto” ou o minimizaram e quase o aniquilaram, negando lhe a função de “interpretar a Tradição e a S. Escritura”. Onde para evitar o erro por excesso (que absolutiza o Magistério) e por defeito (que minimiza a sua realidade) sobre este argumento, resumo aquilo que escreveu no passado [1] e recentemente mons. Brunero Gherardini (cfr. Disputationes Theologicae) e aquilo que se encontra nos melhores manuais de eclesiologia, que serão citados nas notas.

A Demolição da Exegese Católica

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Francesco Spadafora

Separação da exegese do dogma

O pesquisador católico, examinando um dos numerosos sistemas ou métodos postos pelos racionalistas para tirar todo traço de sobrenatural dos Evangelhos, não deveria ter dúvidas.

Ainda mais que o castelo imaginado por Bultmann e seus companheiros foi apresentado e refutado com igual precisão por críticos e exegetas competentes, não somente católicos mas também protestantes [1]. Nenhum compromisso era e é possível. Os jesuítas do Instituto Bíblico Pontifício, por outro lado, agiram de modo surpreendente, ao contrário. Para adotar na exegese dos Evangelhos o método dito «histórico-crítico», na realidade falsa crítica ou criticismo inconciliável com o dogma (inspiração divina, inerrância absoluta, historicidade, submissão ao Magistério), os jesuítas então renegaram a fé católica e «sic et simpliciter» jogaram fora as verdade de fé acima citadas.

Eles entraram – e é o cúmulo – em luta flagrante com o que era então a suprema Congregação do Santo Oficio. Instauraram no centro do próprio catolicismo uma diarquia oposta ao Magistério da Igreja, para os problemas bíblicos, o «magistério» dos jesuítas do Instituto Bíblico!

Esta diarquia significava praticamente a separação da exegese do dogma e, logo, da teologia dogmática. O padre Alonso Schökel disse claramente em seu artigo «manifesto». Monsenhor Romeo o estigmatizou claramente na sua resposta: «Com uma incrível desenvoltura, o padre Alonso nos declara que a inspiração e a hermenêutica, “a inerrância, a relação entre a autoridade da Escritura e do Magistério” não lhe concernem, porque os erros sobre este assunto “são mais teológicos do que exegéticos”, isto é, não se referem tanto à interpretação de textos concretos quanto aos princípios teológicos.

E ele repete: “O modo concreto da inspiração e da inerrância são problemas dos quais deve se

ocupar a teologia dogmática”. Então (…), como se trata de questões de teologia, a exegese católica nova, modernanão deveria ocupar-se de inspiração e de inerrância, mas somente de “interpretação de textos concretos” Esta opinião de considerar como estranha (a inspiração, a inerrância… ) aparece, a partir do texto considerado em si, tão grave em um eclesiástico que ensina a Sagrada Escritura em Roma, que preferimos supor que o padre Alonso não soube se expressar» [3]. E monsenhor Romeo acrescenta em nota: «a encíclica Humani Generis inclui a exegese bíblica entre “as partes da teologia” (Civ. Catt., 101 – 1950 III – pág. 465 no. 25). o que sempre foi considerado evidente tanto entre os católicos como entre os cristãos dissidentes de qualquer denominação» [4]. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Santa Missa com Dom Tomás de Aquino, em Contagem/MG

O Santo Sacrifício da Missa - Locais de Santa Missa pelo Brasil.
SANTA MISSA TRIDENTINA EM CONTAGEM/MG
02 e 03 de abril
Sábado às 19:00
Domingo às 10:00
Haverá confissão antes das Missas.
Capela Nossa Senhora das Graças,
 Rua Teodoro Fernandes dos Santos, n°. 391,
bairro Riacho em Contagem/MG.

terça-feira, 15 de março de 2016

P. SISTO CARTECHINI: DA OPINIÃO AO DOGMA - PREFÁCIO E QUADRO DE NOTAS TEOLÓGICAS

DA OPINIÃO AO DOGMA
PREFÁCIO

Padre Sisto Cartechini, S.J.
[Tradução: Gederson Falcometa]

Se em toda ciência, mais que a quantidade e a qualidade das noções esparsas, é útil bem conhecer o grau de certeza dos seus pressupostos e dos seus princípios, e a ordem das suas deduções, isto vale especialmente no campo da fé e na ciência teológica. Daqui a necessidade do estudo ordenado dos dados revelados, o qual, se em qualquer medida é requerido a todos os crentes para oferecer a Deus um ato de culto racional (Rm 12, 1), e também aos crentes para se explicar aos não crentes a racionalidade do quanto crEem, maior razão se adiciona a quantos buscam o pleno possesso dos dados revelados para se render conta que a nossa fé exclui toda dúvida, e é luminosa e certa não menos que os axiomas e as categorias matemáticas.

RADIO SPADA: O AMOR EM GIOVANNINO GUARESCHI

 

Quando o homem X encontra a mulher Y eis que se esposam»: o amor em Giovannino Guareschi

Guareschi

Radio Spada
[Tradução: Gederson Falcometa]

«Se uma mulher te ama, tu falas e ao invés cantas.
As palavras são a música do coração»
(Observações de um alguém, “La bohème)

Tempos feios para o amor, muitas vezes reduzido a borboletas que voam no estômago (a psicologia moderna sugere que existam colônias de lagartas prontas a abrirem-se em nosso estômago não, logo que nos apaixonarmos) ou a brutal posse do outro. Se se quer compreender que coisa seja realmente o amor é bom ter em mãos um dos tantos “contos de vida familiar” de Giovannino Guareschi.
O elemento fundamental no namoro é – como escreve Guareschi – o destino: «quem tem a parte mais importante é o destino: Deus lhe faz e depois lhe acompanha. Um homem X nasceu para esposar uma mulher Y. E vice-versa. Quando o homem X encontra a mulher Y eles se esposam», ou: «toda mulher esposa o seu marido e todo homem esposa a sua mulher». Explicado assim, o namoro parece uma espécie de equação e, em parte, o é. Um homem é criado para enamorar-se de uma só mulher, que deverá amar com todas as suas forças todos os dias da sua vida e pela qual deverá estar disposto a sacrificar também a própria vida. O amor de dois namorados é esculpido na eternidade do céu, como escreve – com maior delicadeza – T.S. Eliot: «te amei desde o começo do mundo, porque antes que eu e ti nascêssemos, o amor que nos uniu já existia».

segunda-feira, 14 de março de 2016

GUARESCHI E A REPÚBLICA: REFLEXÕES SOBRE O 2 DE JUNHO

 

Untitled

Radio Spada
[Tradução: Gederson Falcometa]

 “Por que sou monarquista? Por razões históricas, por razões sentimentais, por razões práticas. Para mim, um presidente da República é sempre uma pessoa expressa por um partido e não poderei jamais considera-lo acima das partes. Não poderei jamais escutar a sua voz como a da Pátria” (Giovannino Guareschi).

Tinha conseguido superar sem danos o dia 25 de abril, uma festa que a cada ano me recorda que «para um italiano combater contra adversário políticos italianos é sempre uma coisa mais simpática”, mas eis que, também este ano – pontual como a influência no inverno – desponta o 2 de junho, festa da República.

A lógica destas duas festas laicas é sempre a mesma: dividir o povo italiano. E deixai-me dizer: quem pensou festejar estas recorrências deveria ser um bobo. O povo de uma nação, se quer combinar alguma coisa, deve se unir para mirar algum objetivo comum. Compartilhado por todos.

É o 2 de junho e, como todo ano, não festejarei, porque a minha bandeira é outra. É aquela de Giovannino Guareschi e de mestra Cristina: aquela verde, branca e vermelha, mas com os quatro quadradinhos vermelhos no meio, que formam uma cruz.

A república é uma ilusão. Não é verdadeiro que a República é coisa de todos. República, hoje, é coisa para poucos [Ndt.: É coisa para “partidos”]. Pode valer para os parlamentares, nutridos e engordados por ela. Pode valer para o inquilino do Quirinal, que nos últimos anos se comportou como monarca absoluto, mas que não tem nem mesmo tido a coerência de definir-se tal. Mas não pode valer para mim. E para tantos – velhos e jovens – que a pensam como eu.

Tinha razão os bigodes de Guareschi quando comentaram a “vitória” republicana: «um brasão de armas caiu: espaço disponível. O branco da nova bandeira italiana permaneceu imaculado e cada um buscará impor a sua marca naquela candura. No fim concordarão em bordar um R e um I que poderão significar simplesmente República Italiana, ou República Ilusória, ou Reconstrução Itálica ou Renovação Integral porque o futuro está nas mãos de Deus».

Vivemos a República Ilusória: aquela que vive de Disposições transitivas que não passam mais. Aquela que – diferente da Monárquia – quer comandar o seu corpo e, sobretudo, a sua mente. Aquela que te explica como deve pensar mas, sobretudo, como não deve pensar.

Deus – que, como escreveu Guareschi, não tem necessidade da maioria para continuar a governar o mundo – nos doou uma bela rajada de vento. E é belo pensar que este vento quente que me envolve, leve consigo o espírito de Giovannino, da mestra Cristina e dos soldados italianos mortos gritando “Savóia!”. É o 2 de junho, festa da República. Viva o Rei!

Texto de anônimo, recolhido aos cuidados da redação de Rádio Spada.

sábado, 12 de março de 2016

LA CIVILTÀ CATTOLICA: COMENTÁRIO A CARTA ENCÍCLICA PASCENDI DOMINICI GREGIS DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X - TEXTO II

O MODERNISMO REFORMISTA
La Civiltà Cattolica*
Roma 1908
Comentário a Carta Encíclica 
Pascendi Dominici Gregis
Tradução: Gederson Falcometa

O herético – que é anárquico na ordem religiosa e moral – insurge voluntariamente, como anárquico politico e social, em nome de qualquer ideia, ou melhor, de qualquer palavra sublime, particularmente ao som grandioso de renovação, de progresso e de reforma. Somente, quando da altura da especulação desce para a enormidade da aplicação, a prática, ele se descobre como é de fato: sob o manto do reformador audacioso um abjeto e orgulhoso pervertedor.  Toda a história dos séculos cristãos é plena deste fato: e o fato, de resto, tem a sua raiz no instinto, já frequentemente denunciado, do erro e do vicio, que é de transfigurar-se no semblante de verdade e de virtude. É então sumamente benemérito quem lhe arrebatando a máscara a tempo, coloca-lhe o nu da feia figura, antes que a simulação adquira crédito e potência em dano da religião e da moral, da Igreja e da sociedade. Ora, isto ocorreu ao modernismo, graças, sobretudo a vigorosa encíclica Pascendi: isto aparece na sua vergonhosa nudez, não sábio reformador, qual ostenta, mas destruidor insipiente e pervertedor. E tal devemos também mostra-lo agora brevemente, sobre os traços da encíclica, para concluir, com esta rápida olhada, o nosso já muito longo tratamento do modernismo.

 

sexta-feira, 11 de março de 2016

P. LE FLOCH: O CARDEAL BILLOT SOBRE O LIBERALISMO

 Padre Henri Le Floch
Tradução: Gederson Falcometa

Resumo da doutrina do cardeal Billot sobre o erro do liberalismo e as suas diversas formas, segundo a exposição do tratado sobre a Igreja.

O liberalismo em matéria de fé e de religião é uma doutrina que pretende emancipar o homem, mais ou menos, de Deus, da sua lei, e da sua revelação, e de emancipar também a sociedade civil de qualquer dependência religiosa, da Igreja, tutora, intérprete e mestra da lei revelada por Deus.

A emancipação de Deus, fim ultimo do homem e da sociedade, é o quanto antes de tudo persegue. E, para alcançar-lhe, fixa como primeiro princípio a liberdade o bem fundamental do homem, bem sacro e intangível, que não é absolutamente permitido violar com qualquer tipo de coação; por isso, está liberdade sem limites deve ser a pedra imóvel sobre a qual se organizarão todos os elementos das relações entre os homens, a norma imutável segundo a qual serão julgadas todas as coisas do ponto de vista do direito; então, será equânime, justo e bom, o quanto em uma sociedade, tiver como base o princípio da liberdade individual inviolada; iníquo e perverso todo o restante. Este é o pensamento da revolução de 1789, revolução de que o mundo inteiro ainda colhe os frutos amargos. Este é o objeto completo da Declaração dos direitos do homem, da primeira à última linha. Este, para os ideólogos, o ponto de partida necessário para a reedificação completa da sociedade no campo político, no campo econômico, e sobretudo no campo moral e religioso.

O tratado crítica, antes de qualquer coisa, o princípio geral do liberalismo, considerado em si mesmo e nas suas múltiplas aplicações. Depois trata do liberalismo religioso e das suas diversas formas  (pp. 19-20).

Em um magnífico preâmbulo, em que se eleva a altura de Santo Agostinho no De Civitate Dei e de Bossuet no Discours sur l’Histoire universelle, e que se concentra na explicação e na aplicação da profecia de Daniel a Nabucodonosor, Padre Billot anúncia que seguirá, tratando do liberalismo, os poderosos espíritos do Século XIX que lutaram contra a perversidade dos princípios da Revolução, J. de Maistre, de Bonald, Ketteler, Veuillot, Le Play, o Cardeal Pie, Liberatore, etc. E lhe cita no curso da sua exposição. E com eles cita Charles Maurras, de quem apreciava a refutação do liberalismo em campo filosófico, político e econômico.

Os limites que estabelecemos nos permitem, nesta sede, apresentar apenas o esqueleto do raciocínio deste estudo, deixando a parte todo o esplendor do desenvolvimento, que poderia ser entrevisto apenas com uma tradução completa.

ARTIGO I
Enunciação e crítica do princípio fundamental do liberalismo (pg 21-43)

O princípio fundamental do liberalismo é a liberdade de toda e qualquer coação, não apenas daquela exercitada com a violência, e que diz respeito apenas aos atos externos, mas também da coação que provém do temor da lei e das penas, das dependências e das necessidades sociais, em uma palavra, dos ligames de qualquer gênero que impedem ao homem agir segundo a sua inclinação natural. Para os liberais, esta liberdade individual é o bem por excelência, o bem fundamental, inviolável, ao qual tudo deve ceder, a exceção, talvez, do quanto é requerido da ordem puramente material da cidade; a liberdade é o bem ao qual todo o resto é subordinado; é o fundamento necessário de toda construção social conforme a equidade e ao bem.

PARÁGRAFO I.
Crítica deste princípio em si mesmo

Este princípio fundamental do liberalismo é absurdo, contra a natureza e quimérico (pg 22-30).
1. Absurdo (Incipit ab absurdo), enquanto pretende que o bem principal do homem esteja na ausência de qualquer ligame capaz de entravar ou limitar a sua liberdade. O bem do homem, de fato, deve ser considerado ou como um fim ou como um meio para alcançar este fim. Ora, a liberdade não pode ser um fim em si e o sumo fim, porque não é outro que um poder ou potência operativa, porque todo poder ou potência é em vista da operação, e porque toda operação, nesta vida, consiste completamente na persecução de um bem real ou aparente. Então, a liberdade não pode ser para o homem o seu bem considerado como um fim. De outra parte, essa não é nem sequer um bem considerado como um meio para alcançar a um bom fim, se não com a condição de ser contida por certos freios, e esta é a ruína pura e simples do princípio do liberalismo… ao menos em admitir ou que a liberdade, na vida presente, é infalível, ou que precisa sempre deixa-la fazer, qualquer que sejam os seus defeitos. 
2. Contra a natureza (in ea progreditur quae evidentiori naturae intentioni contraria sunt), enquanto pretende que tudo deva ceder o passo ao bem da liberdade individual, que as necessidades sociais multiplicaram os obstáculos a esta liberdade, e que o regime ideal para o homem é aquele em que reine a lei do absoluto e perfeito individualismo; porque este individualismo é absolutamente contrário a natureza humana. De fato, se existe uma coisa evidente e manifesta, é que a condição social é a lei da vida humana, como o provam a necessidade da sua própria existência corporal. «Aos outros animais, a natureza preparou alimento, vestimento de pelo, meios de defesa, como os dentes, os chifres, as unhas, ou ao menos a rapidez na fuga.  O homem, invés disso, se encontrou criado sem que da natureza lhe tenha sido fornecido nada de similar; mas, em troca, foi provido de razão que o coloca em condição de preparar todas estas coisas com as suas mãos; e já que um homem sozinho não é capaz de preparar tudo, e se fosse sozinho não saberia assegurar nem sequer a si mesmo os bens que lhe permitem manter-se em vida, lhe segue que, por natureza, o homem deve viver em sociedade. Além disso, em todos os outros animais é imita uma natural capacidade em discernir quanto é a eles útil ou nocivo. Assim, o cordeiro sente instintivamente no lobo um inimigo. Por uma capacidade análoga certos animais sabem distinguir naturalmente as plantas curativas e também o quanto é necessário a eles para viver.
«O homem, invés disso, conhece aquilo de que precisa para viver, mas apenas em geral. Assim, com a sua razão pode alcançar, através dos princípios universais, o conhecimento das coisas particulares necessárias a sua vida. Mas não é possível a um homem, sozinho, atingir com a sua própria razão todas as coisas desta ordem. E então, necessário que os homens vivam juntos, para ajudarem uns aos outros, para dedicarem-se a pesquisas diversas em relação com a diversidade dos seus talentos: um, por exemplo, a medicina, um outro a isto e um outro aquilo.  S . Tommaso, De regimine principum, libro I, cap. I).
    O insensati sophistae, escreve Padre Billot, uis vos ita dementavit, ut ad naturam continuo appellantes, contra naturam talia et tam enormia peccetis?», «Ó sofistas insanos, quem vos fez sair da razão, que, embora chamando-lhes continuamente a natureza, pecais tanto e assim grandemente contra a natureza?».
3. Quimérico
1º Porque não combina em nenhum modo com a realidade:
Supõe, na origem da sociedade um pacto social. Onde o viu?
Supõe o livre ingresso de qualquer um na sociedade. E ainda mais rigoroso.
Supõe que todos os homens são feitos exatamente sobre o mesmo modelo – absolutamente iguais -, o homem abstrato reproduzido milhões de vezes sem notas individuantes. Onde está? «Aplicais o contrato social, se  vos parece bom, mas aplicai-lo somente aos homens para os quais ele foi fabricado. São homens abstratos que não pertencem a nenhum tempo e a nenhum país, embora entidades florescidas da batuta metafísica» (Taine, La Révolution, tomo I, libro II, cap. II).
2º porque tende a destruir diretamente aquilo que quer proteger: a liberdade individual. 
Se a coisa é evidente no caso das minorias, tiranizadas pelo número, não é menos certa para a maioria, que se deixam conduzir, não pelo «juízo autônomo de qualquer um dos seus membros, mas pelos agitadores, pelos violentos, das oligarquias nascidas do individualismo, que  as subjugam e que se lhe servem como de um instrumento de domínio com o fim de seus interesses privados e da sua ambição» (pg. 29-30).

quinta-feira, 10 de março de 2016

O CULTO DA DIFAMAÇÃO, POR GUSTAVO CORÇÃO

 

DOIS AMORES, DUAS CIDADES

GUSTAVO CORÇÃO

Uma cultura que exalta a glória, e a fama, como os mais altos valores, necessariamente produzirá o valor da difamação, da sátira e da ironia. Se há muitos que se pavoneiam, muitos haverá que se riam. Se abundam os que buscam louvores, abundarão também os vitupérios e as maledicências; e onde a fama é procurada, a difamação é vendida. Surgem na Renascença os profissionais da lisonja ou da difamação conforme a encomenda e o preço. Pietro Aretino pode bem ser o patrono da imprensa marrom, ou dos chantagistas de todos os tempos.

BURCKHARDT: “Aretino apresenta o primeiro caso em que a publicidade é utilizada de maneira abusiva e em grandes proporções para servir fins tão indignos. Não menos infames, por sua intenção, e pelo tom em que estão reduzidos, são os escritos polêmicos que cem anos antes haviam trocado entre si Poggio e seus adversários, mas a diferença reside no fato de não serem esses escritos destinados a imprensa, e sim, apenas, uma publicidade clandestina ou semiclandestina. Aretino, ao contrário, faz negócios com a publicidade mais completa e absoluta. De certo modo pode ser considerado um dos precursores do jornalismo moderno”. La Cultura del Renascimento em Itália, Ed. Escelicer, Madri, 1941, pg 106)

Mais adiante o mesmo autor acrescenta que toda Itália se convertera numa escola de maledicência como jamais se vira igual, ou mesmo se verá na França de Voltaire.

quarta-feira, 9 de março de 2016

P. CURZIO NITOGLIA: PERIGOS PARA A VIDA SACERDOTAL EM NOSSO TEMPO

 

Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Gederson Falcometa]

 

● Em 1945 Padre REGINALDO GARRIGOU-LAGRANGE escreveu um livreto, traduzido para o italiano em 1949, e intitulado Santificação sacerdotal no nosso tempo (Torino, Marietti). Nesse o célebre teólogo afrontava os erros neomodernistas, que já minavam a espiritualidade católica e alertava sobre esses especialmente os jovens sacerdotes. Passaram-se mais de setenta anos e os perigos latentes se tornaram erros explícitos, que infelizmente não são mais censurados, mas até mesmo promovido pelos Pastores que deveriam condená-los. No presente artigo faço um resumo de tais erros, dos remédios propostos pelo Padre dominicano e acrescento aquilo que de errôneo maturou em campo teológico ascético e místico desde 1949 para dar aos sacerdotes e analogamente aos cristãos os meios para se preservarem desses.

● Um dos erros sobre a vida espiritual que se tinha infiltrado no ambiente católico, graças a nouvelle théologie foi o Sentimentalismo. Este erro esquece que a verdadeira Caridade sobrenatural é efetiva mais que afetiva, além disso é um ato da vontade e do intelecto movidos pela Graça atual. Ao invés disso, o Sentimento religioso coloca em primeiro lugar a sensibilidade e afetividade que prevalecem sobre a inteligência e vontade movidas pela Graça. A espiritualidade se torna sentimentalismo e é similar a um “fogo de palha” ao qual sucederá o relaxamento, a acídia e o abandono de toda vida ascética ao surgir as primeiras dificuldades e aridezes espirituais.

P. CURZIO NITOGLIA: DAS INJUSTIÇAS QUE SE CUMPREM COM AS PALAVRAS

 

A calúnia é uma brisa sutil, mas ribomba como tiro de canhão

PADRE CURZIO NITOGLIA
Tradução: Gederson Falcometa

Publicado originalmente
em
Estudos Tomistas

[Nota prévia. Como se verá, permitimo-nos fazer uma nota de esclarecimento ao artigo do Padre Nitoglia.]

“O homem faz o mal totalmente, perfeitamente
e felizmente apenas quando o faz por motivos
‘místico-religiosos’ ou messiânicos.”
Blaise Pascal

A doutrina tomista

Santo Tomás de Aquino trata na Suma Teológica (II-II, q. 72-75) as injustiças que se cumprem com palavras, depois de ter examinado as que se cumprem com ações (q. 64). Aquelas são as injúrias verbais, a detração, a murmuração e a derrisão. Infelizmente estes vícios são muito difusos, pouco levados a sério e quase nunca combatidos mesmo em ambientes católicos ligados à Tradição, enquanto constituem em si pecado mortal. Busquemos ver sua natureza, sua gravidade, e quais são os remédios para derrotá-los.

As injúrias verbais

Na questão 72 o Aquinate trata da “contumélia”, ou seja, a injúria verbal não feita pelas costas ou “traiçoeiramente”, mas abertamente. “Contumélia” deriva do verbo latino contemmere, isto é, desprezar ou insultar clamorosamente e em face. É distinta da injúria, que é uma ação que afeta o direito dos outros (in-jus) com ações: espancamento, etc. Ora, o Angélico nota que, embora as palavra não façam fisicamente mal (a. 1, ad 1), enquanto todavia as palavras significam coisas, podem causar muitos danos. A contumélia ou injúria verbal afeta a honra; a difamação ou detração afeta a boa fama; e a derrisão ou escárnio suprime o respeito.

Dois amores, duas cidades: Via modernorum I

Dois amores, duas cidades: Via modernorum I

Gustavo Corção

A infiltração nominalista na Civilização Ocidental Moderna.

Antes de iniciarmos o exame dos diversos aspectos da Civilização Ocidental Moderna, convém determo-nos na consideração mais acurada e mais abstraia dos principais fatores desse importante período da história. Atrás dissemos que o triunfo do Nominalismo pesou mais na história moderna do que a invenção da imprensa, a descoberta da pólvora e a Reforma. Receamos que o leitor se apresse a julgar esque­mática demais nossa tese, e depois se apegue a esse juízo. E não ignoramos que a variedade dos acontecimentos, e até os contrastes das sistematizações fisolóficas, parecem contrariar a ideia de uma influência pertinaz e de certo modo constante.

Na verdade, observam-se muitas oscilações nesses quatro séculos que nos propomos examinar. Sob o ponto de vista das doutrinas económicas praticadas, começa mercantilista, e portan­to fortemente intervencionista, para terminar com o laissez-faire do liberalismo; sob o ponto de vista da relação homem-mundo começou violentamente naturista para terminar violentamente artificialista, oscilando da utopia do Eldorado para a utopia do Brave New World; sob o ponto de vista da relação do homem consigo mesmo, começou por um otimismo exultante e por um sentimento de descoberta, para após quatro séculos terminar num pessimismo acabrunhante, e num sentimento de extravio, desamparo, esquecimento do próprio nome, que chamaríamos com­plexo de Parsifal, para aumentar a coleção das paralisias psíquicas já catalogadas.

Poderíamos prolongar a lista de oscilações, todas elas, en­tretanto, inscritas dentro de certa tonalidade, ou presas aos mes­mos eixos. Para entender bem esse problema precisamos lem­brar o que já dissemos (Vol. I, II) sobre o valor civilizacional das ideias, e será bom reforçarmos a confiança nessa direção do pensamento.

terça-feira, 8 de março de 2016

P. CURZIO NITOGLIA: CUIDADO COM AS “MEIAS VERDADES”

CUIDADO COM AS MEIAS VERDADES 
Padre Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa
Monsignor Henri Delassus  dizia: «Hoje mais que nunca é preciso dizer a verdade, sem subterfúgios e sem hábeis estratégias. […] A moral é que as verdades diminuídas não são a Verdade e apenas a Verdade leva consigo a vida; e apenas ela pode dar nos a ressurreição a partir do estado  de coma que nos encontramos […] Jesus confessou a Verdade e com isto venceu o mundo, mesmo que isto lhe tenha custado a morte de Cruz» [1]. E continuava:«Aquele que, hoje, proclama a verdade pela metade, faz mais danos do que quem a nega resolutamente; temos necessidade da Verdade integral. Ou a Fé ou o Eu. Ou o cristianismo nas almas e na sociedade; ou o orgulho, a inveja e todas as paixões desordenadas, que o egoísmo esconde em si, e que a revolução desencadeia […] tudo aquilo que não é a plena, franca e inteira Verdade religiosa, não pode nada sobre o coração do homem, nem pode remeter a Sociedade civil sobre a estrada”. [2]

segunda-feira, 7 de março de 2016

P. GUIDO MATIUSSI, S.J: DOGMAS MUTÁVEIS*.

Padre Guido Matiussi 
Tradução: Gederson Falcometa

  “Virá o dia que um Concílio adaptará a religião aos novos tempos, expondo-a segundo as idéias agora aceitadas, como o Concílio de Trento por sua vez a expôs segundo as idéias escolásticas. Assim muitos dizem, e mais despudoradamente que outros, Loisy“.

D. CURZIO NITOGLIA: A PAZ DA ALMA - 2ª PARTE: A ACEITAÇÃO DE SI

 



A PAZ DA ALMA
SEGUNDA PARTE
*
A ACEITAÇÃO DE SI
D. Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa

 

·         Muitas vezes temos dificuldade de aceitar a vontade de Deus, queremos fazer aquilo que gostamos, mas algumas circunstâncias que não nos agradam se apresentam a nossa porta, e então, precisamos fazer as contas com elas. O ideal é renunciar aos nossos gostos e inclinações que são desviados pelo pecado original, para uniformizar a nossa vontade à vontade divina que é perfeitíssima em si, mesmo que nos possa aparecer incompreensível e até mesmo desagradável. Nem sempre somos bem sucedidos e algumas vezes buscamos uma escapatória. Ma isto longe de nos satisfazer nos deixa insatisfeitos, porque ficamos realmente confusos, ainda que nos pareça termos obtido aquilo que desejávamos. No curso desta segunda parte buscaremos ver todos acontecimentos com os olhos da fé e poder abraçar com amor aquilo que temos desejado evitar. Apenas assim encontraremos a verdadeira paz interior.

domingo, 6 de março de 2016

SIM SIM NÃO NÃO: DA NOUVELLE THÉOLOGIE A MORAL DE SITUAÇÃO



Sì Sì No No
Tradução: Gederson Falcometa 
 
O modernismo, para poder permanecer dentro da Igreja e muda-la subterraneamente, não quis se apresentar explicitamente como um sistema teológico bem definido [1], dado o seu caráter secreto (“foedus clandestinum/seita secreta”, S. Pio X, Sacrorum Antistitum, 1910) e o seu horror pelas definições, pela lógica e pela especulação racional, a filosofia e a teologia escolástica.
 Padre Fabro [2] ensina que a periculosidade do modernismo consiste na sua difícil definição, que quer escravizar qualquer qualificação determinada e precisa, seja em filosofia ou em teologia, onde se mantém sobre o vago, sobre o “mítico” ou poético e chega a conclusões praticas totalmente disformes da ética objetiva, natural e divina.
 O modernismo de fato não é e nem quer ser uma doutrina sistemática, mas é sim uma forma de sentimentalismo religioso[3], que difunde o erro do agnosticismo e do ceticismo relativista em toda parte, em maneira confusa, indefinida, para melhor evitar ser descoberto e condenado, e para enganar os simples fiéis, que estarreceriam dianto do erro explícito e claramente evidente. Apesar disto, o erro modernista foi bem individuado por São Pio X (Lamentabili e Pascendi, 1907; Sacrorum antistitum, 1910).
 O neomodernismo especulativo
 O erro modernista vem em seguida re-condenado por Pio XII como neo-modernismo ou “nova teologia” na Encíclica Humani Generis (12 de agosto de 1950). Estes Documentos magisteriais colocam luz, sobretudo, nos erros inicialmente teóricos (filosóficos e dogmáticos) do modernismo e neomodernismo, dos quais derivavam conclusões praticas e éticas (“agere sequitur esse”) gravissimamente errôneos (“parvus erro in principio, fit magnus in fine”). De fato, não houve campo (também pratico e não somente teórico) das ciências religiosas que não tenha sido envenenado pelos modernistas a partir da metafísica e da dogmática.

sábado, 5 de março de 2016

LA CIVILTÀ CATTOLICA: LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA

 

 

 

    P. Francesco Salis Seewis S.J.
 Tradução: Gederson Falcometa
I.

Verdadeira noção de liberdade de consciência.

L’Opinione escrevia sob o título Liberdade de Consciência (n. 220) o que segue: «Lemos no L’Osservatore Romano: – L’Opinione estigmatizando as rigorosas medidas que se dizem adotadas pela Rússia contra os judeus, mesmo com o Times querendo que de toda parte surgissem protestos contra essas perseguições moscovitas. E L’Opinione o queria porque de todas as liberdades, a mais divina e a mais humana a um só tempo é aquela de consciência.

« – Nos permitimos demandar (segue o L’Osservatore Romano): esta liberdade de consciência é a mais divina e a mais humana apenas para os judeus, ou tem um pouquinho também para os católicos? Se sim, porque então aqui em Itália tanta guerra se faz aos católicos e ao catolicismo, e porque por todo o mundo se oprime a liberdade de consciência de trezentos milhões de católicos ao negar ao Papa a sua liberdade efetiva e a sua real independência?» L’Opinione lida com estas palavras assim: «a guerra em Itália contra os católicos é uma invenção do partidarismo político reacionário.» Este breve trato de L’Opinione fornece gravíssimas considerações.

 Antes de tratar do assunto, nós ainda repetimos que de todas as liberdades a liberdade mais divina e a mais humana a um só tempo, é aquela de consciência. Mas sabe L’Opinione e a seita a qual pertence, que coisa seja a liberdade de consciência? Não o acreditamos absolutamente, porque esta seita não sabe que coisa seja consciência. Aprenda em primeiro lugar a significação desta palavra. Consciência é o ultimo ditame ou juízo prático em torno a dever ou poder fazer, ou não fazer uma ação. Então esta consciência intima uma obrigação, ou anuncia uma liberdade de operar. Por exemplo: Tu deves socorrer o teu filho de tal ou tal outra maneira: tú não deve traí-lo: tu podes deixa-lo impune ou não deixa-lo: tu não deve entrega-lo a este mestre, o qual lhe envenenaria a mente e corromperia o coração. De tal forma exprimem aquele ditame que se diz consciência. Em toda ação que se faz com conselho e que é verdadeiramente humana, deve preceder a consciência, tanto nas relações individuais quando nas civis e politicas.

Exceto que o conceito de obrigação não pode ter lugar sem aquele dos dois termos realmente distintos, os quais são o obrigante e o obrigado, e o obrigante em quanto tal, é essencialmente superior ao obrigado. Aonde ninguém pode obrigar a si mesmo, nem quem é a si superior: e porque todo homem considerado na sua dignidade natural é igual a outro homem, de nenhum homem pode derivar frontalmente aquele imperativo, com o qual se intime a outro homem tu deves fazer ou deves não fazer esta coisa ou você é livre a fazê-la ou não fazê-la. Quem é por natureza superior ao homem é Deus, e apenas a razão de Deus é regra da razão do homem, e a vontade de Deus é regra daquela do homem. Para qual coisa Deus dando a razão humana à luz, onde conhece o verdadeiro e julga retamente, amestra suas vontades e por meio da própria razão humana o obriga a fazer aquilo que quer. Quando, porém entra o homem, se diz devo fazer isto, outra coisa não faz que repetir o império interno de Deus com o qual ele diz tu deves fazer isto.

Se Deus imediatamente revelasse aos homens os seus mandamentos, bastaria conhecer com certeza o fato desta revelação, para que a consciência não fosse errônea. Enquanto Deus não podendo errar nem enganar, seria certa a obrigação de fazer aquilo que Deus manda. Mas o homem com o uso da própria razão deve chegar ao conhecimento da verdade e da vontade de Deus, às vezes pode cometer erros e fazer que este ultimo juízo prática que é a consciência, seja errôneo. O qual erro às vezes pode ser involuntário e invencível nas circunstâncias na qual se encontra a pessoa errante, e em tal caso ele pode sem culpa segui-lo; e deve mesmo: mas pode às vezes ser um erro culpável; e é tal, quando a pessoa temerariamente, julga sem nenhum sólido fundamento de verdade, e diz dever fazer aquilo que em realidade com a mente vê não dever fazer, mas vê antes o dever de fazer o contrário. Em tal caso essa deve depor o erro e não segui-lo. Sempre então quando aquele juízo ultimo é falso, não é verdadeira mas falsa consciência; e porque tal, não é propriamente consciência, como o ouro falso não é ouro.

 

II.

A consciência dos liberais.

No sentido sectário, agora comum, tomamos esta palavra liberal. Eles são os únicos, que admitem a assim dita liberdade de pensamento junto com a liberdade consciência. Senise Prefeito de Bari, o qual foi encomendado por Crispi no Parlamento do dia 28 do passado agosto, em um Congresso de professores elementares, entre outras estultícias disse ainda esta: que «o Governo invoca, aclama a ciência como aliada no renovamento civil, destruindo a superstição, e alçando o monumento a Giordano Bruno em Campo dei fiore na Capital, onde foi destruído o Papado temporal e a tirania da consciência, obtendo o triunfo do livre pensamento, e o triunfo da ciência.» Isso vem referido pela Reforma.

Mas sabeis vós que aqueles que professassem na prática esta teoria, não seriam certamente dignos dos presídios e dos manicômios da pátria? A fortuna é que muitíssimos deles que professam tal liberalismo, falam como papagaios, sem entender aquilo que dizem.

Cuide-se bem das vossas palavras e aquela iníqua e estulta significação que se da a essas nas escolas liberais de professores imbecis, a liberdade de pensamento é excluir aquela que vós chamastes superstição, isto é excluir da razão humana o conceito de Deus e do vínculo de uma obrigação divina, e a firmeza de imutáveis princípios no filosofar; de tal modo que qualquer um se dê a filosofar como os mais talentosos. Mas senhores, o excluir da mente Deus e a divina obrigação é destruir a consciência, e então, a coisa é toda outra que reconhecer a liberdade. A razão humana não cria a obrigação de operar, mas a descobre; não cria a verdade, mas a aprende e a ela se conforma. O filósofo não é poeta que inventa; mas é pintor que fielmente copia a natureza. A vossa liberdade é um sonho, é um delírio. Mas não nos delonguemos com o discurso fora da consciência.

A consciência, como dizíamos, é um último juízo prático em torno da obrigação de fazer ou de não fazer uma coisa. Prescindindo-se de Deus obrigante, porque superior e porque dono de todo o homem, a obrigação é impossível, e si deverá cair ou na tirania que o homem possa por si mesmo obrigar outro homem seu igual, ou na loucura que o homem obrigue a si mesmo. Então, o liberalismo que exclui Deus, exclui o conceito verdadeiro de consciência, e é um absurdo dizer comL’Opinione que a liberdade de consciência é a mais divina e mais humana entre as liberdades.

Mas se nos dirá, vós andais em filosóficas sutilezas. Por consciência nós entendemos uma interna persuasão de dever operar ou não operar ou de ser livre para operar, sem algum respeito a Deus. Egregiamente! Então, vós direis que a liberdade de operar segundo tal persuasão é a mais divina e humana das liberdades? Encarnamos a vossa doutrina em fatos evangélicos e em fatos históricos dos nossos tempos.

Herodiades adúltera concubina de Herodes tendia a insidiar São João Batista, porque este dizia a Herodes não lhe ser lícito ter por mulher a mulher do seu irmão. Recorramos a passagem do Evangelho (Marcos 6) «Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galileia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu te darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista.
Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe.» Ó tirano orgulhoso! Embora Herodes em sua mente se persuadisse a dever fazer aquilo que fez, ansiando o juramento e o respeito aos convidados. Esta persuasão estava na consciência dele? Se discorrermos segundo a teoria do liberalismo que prescinde de Deus e admite a liberdade de pensamento, devemos dizer que foi, e Herodes gozava nisto da liberdade mais divina e humana. Mas esta sua persuasão era um juízo prático derivado de um juízo verdadeiro da existência de uma obrigação ou ao menos licença de fazer aquilo que fez? O seu erro era invencível? Poderia ele estar de boa fé? Na teoria dos nossos adversários, Herodes tinha o direito de fazer aquele ato e devia gozar de pleníssima liberdade de fazê-lo.

Da mesma maneira um que entende assassinar um imperador ou um rei ou golpear com uma pedra um ministro de Estado, porque esta persuadido de fazer algo para si e para os outros gratos sectários, e jurou, ele de acordo com a teoria da liberdade de pensamento e aquela de consciência, querer ser respeitado nem fará coisa culpável diante da sociedade, já que a liberdade de consciência é a primeira liberdade de todas as outras e a mais divina e a mais humana.

Portanto, a doutrina que deriva dos princípios da seita liberal é uma doutrina que dá impunidade a todos os delitos e é a doutrina que justifica o regicídio, e da qual consegue até mesmo que não mereçam punição os delitos políticos quaisquer que sejam. E os ladrões, os assassinos, os adúlteros, toda flor de vilões na liberdade de pensamento e de consciência terão justificação para os seus crimes.

III.

No sentido liberalesco não existe lei, mas apenas legalidade.

Portanto se este último juízo prático que é a consciência, com a qual o homem se determina a operar, não é deduzido de uma lei ou imperativo ou proibitivo ou permissivo, não tem o caráter de consciência nem merece por si respeito e não tem direito a liberdade. Isto é verdadeiro para cada um dos homens em particular, para os Governos, para os parlamentos e para o rei.  Enquanto nenhuma ordenação parlamentar ou real tem virtude obrigatória, nem deve ser reconhecida como norma das operações humanas, se não tem por base a autoridade divina. Por isso, ao mesmo tempo é blasfemo e tirânico aquilo que é dito e que as vezes ressoa na aula parlamentar; toda norma de obrigação vem apenas desta aula: afirmando-se queapenas a vontade dos legisladores constituí a norma da justiça e do dever. Uma lei que seja certamente contrária a lei de Deus, poderá revestir-se de todas as formas extrínsecas da legalidade, mas na realidade não será lei, nem será norma de obrigação da consciência, nem produzirá nos súditos dever ou liberdade. Quando não se tem como inabalável esta doutrina, será preciso conceder que todas as ordenações dos tiranos de Roma, do Diretório e da Convenção de França, foram verdadeiramente leis, coisa absurda e nefanda. Assim foram, são e serão iníquas ordenações e não verdadeiras leis, aquelas com as quais se interditava aos cristãos de professar o verdadeiro culto de Deus e de seguir os divinos preceitos. E em verdade, em direito é nula a autoridade dos homens, ainda que sejam reis ou imperadores, quando se opõe a divina autoridade.

Aquela sentença “omnis potestas a Deo est”, é filosoficamente, diante da razão, evidente e é, em fé, certíssima: não pode vir de Deus aquilo que a razão divina e a sua vontade se opõe.

Por essa razão os Governos constitucionais modernos que se declaram ateus, por isso mesmo, se declaram não ter nenhuma autoridade para fazer leis. Tais Governos são plantas que tem a raiz envenenada, e considerados em si mesmos são tirânicos e merecem não subsistir. Querendo ter em si mesmos o gérmen da corruptibilidade, ainda que brevemente, por conta das paixões populares, duradouras e antes de tudo aos insipientes pareça ter vida estável, logo se decompõem e não deixam depois de si que execração e uma história vituperiosa.

 

IV.

Liberdade de consciência com relação a religião.

Seja então firme que a liberdade de consciência é o direito que tem o homem de não ser impedido por nenhum outro no fazer aquilo que lhe é prescrito pela lei divina e no não fazer aquilo que lhe é vetado. Quando dizemos lei divina, não entendemos excluir a lei humana, seja religiosa, seja civil, porque a lei humana da divina recebe toda a sua força, e Deus prescreve obediência aos superiores que tem o poder de fazer leis e dar preceitos na ordem religiosa ou na ordem civil. Por isso o homem é obrigado por Deus e em consciência a fazer aquilo que prescreve e a não fazer aquilo que veta a razão humana, se não é contrária a lei divina. Esta limitação é certíssima, já que não nos pode ser lei humana se é contrária a lei de Deus, embora tenha as formalidades extrínsecas da lei. Colocado isto, entramos a discorrer a respeito da liberdade de consciência na religião no campo social.

É evidente que existe apenas um Deus, como a própria razão demonstra com provas invencíveis. E esta demonstra também com evidentes certezas que Deus pode revelar as suas criaturas racionais verdades e preceitos, ou seja, pode revelar uma religião e o modo com o qual nessa quer ser honrado; e finalmente, a razão demonstra com aqueles que são chamados motivos de credibilidade, o fato da existência desta religião revelada. Além disso, é também certo que da unidade de Deus segue a unidade da verdadeira religião e que religiões contrárias não podem ser verdadeiras. A religião verdadeira não pode ser outra que aquela querida por Deus; e esta é a cristã: por isso não será verdadeira nem a judaica, nem a maometana, nem a idolátrica, as quais também ante a razão humana apresentam o caráter da sua falsidade. Em seguida consta na história que a religião cismática e as protestantes não são outra coisa que ramos desenraizados da grande árvore da Igreja Romana, a qual tem a sua base incrolável em São Pedro, enquanto estas outras religiões são consignadas as recentes origens, formadas com evidentes rebeliões ilegítimas a Romana.

Ora, a liberdade de consciência na realidade, não se pode ter naquilo que é contra a lei divina: portanto nenhuma falsa religião pode reivindicar verdadeiro direito de liberdade de consciência.

Por isso o princípio liberalesco da igualdade de todas as religiões é absurdo, nem em virtude deste princípio pode existir por si liberdade de consciência para as falsas religiões. Dizemos por si, já que a consciência de quem quer operar segundo os ditames de uma falsa religião se fundaria no erro, e a consciência é juízo prático verdadeiro que deriva da lei divina conhecida. Todavia quem esta em uma falsa religião pode ter ignorância invencível e não culpável, e de fato muitos podem encontrar-se em tal condição. Isto pode verificar-se naquelas religiões que não manifestam em si mesmas evidentemente o caráter de absurdidade ou de imoralidade, como o apresentam, a título de exemplo, a maometana e as idolátricas. Em tal caso quer-se ter respeito aos indivíduos que estão nestas religiões falsas, e não usar a violência para lhes constringir a abraçar a verdadeira religião, já que não é licito constringir a nenhum a fazer aquilo que ele acredita ímpio, quando esta crença derive de uma ignorância invencível.

Jesus Cristo quis que a sua religião divina se difundisse com a pregação selada pelos milagres e não com a espada. E assim foi difundida e continua a difundir-se por toda a terra. Os Apóstolos e os seus sucessores tem seguido o preceito de Jesus Cristo pregando o Evangelho e os deveres do cristão, inumando a sanção da vida ou da morte eterna; nem requerendo o crer com a ameaça do cárcere ou da morte presente. Este modo violento utilizaram os inimigos do Cristianismo, que arrastavam os cristãos ante as estátuas de Júpiter e Vênus e, se não queimassem o incenso as imundas e insensatas divindades, lhes cortava a cabeça ou de outra forma os martirizavam. E os heróis cristãos, para obedecer a Deus e cumprir o dever da sua consciência, se deixavam matar com plena liberdade; e lhe temos exemplos, não as centenas ou aos milhares, mas aos milhões. Mas quando se trata de ímpios, que renegando a fé se empregavam a arrastar outros para a ruína e cometiam delitos sociais, é bem diversa a questão.; e porém a potestade eclesiástica teve o direito não só de fazer  pesar sobre eles as penas espirituais, mas também de entregar-lhes ao braço secular e deixar que a potestade civil lhes punisse com aquelas penas que dessa tinha o direito de infligir aos perturbadores da ordem pública. Então da história aprendemos que às vezes o imperador e o rei puniram com penas gravíssimas os apóstatas e heréticos quando eram juridicamente pela autoridade eclesiástica, reconhecidos como tais. Isto foi por eles considerado como um meio útil e necessário para impedir sumos males na sociedade, ameaçada pelos princípios e pelas ações daqueles. Esta foi a origem da famosa Inquisição que salvou até mesmo politicamente a França e a Espanha, as quais de outro modo, por obra dos maniqueus e dos judeus ou outros heterodoxos, estariam perdidas.

Os Papas toleraram em Roma a presença dos judeus e de tantos protestantes que sempre a ele acorreram. Na verdade os judeus, pela boca do grande sinédrio israelítico cosmopolita, convocado nos tempos de Napoleão I em Paris, professaram gratidão aos Pontífices Romanos e ao Episcopado Católico, porque utilizaram com esses, grande humanidade e muitas vezes tomaram as suas defesas contra o furor dos cristãos armados para o seu dano, e não sem razão. E podemos com verdade afirmar que os Papas continham no dever os princípios cristãos, afim de que o exercício do seu poder não degenerasse jamais em um zelo excessivo, constringindo com violência a reduzir os infiéis a fé de Cristo, mas utilizassem mais aqueles meios que estão indicados no Evangelho e esses a Igreja praticasse.

 

V.

Violação da liberdade de consciência nas nações cristãs.

Quando se trata de um povo cristão e de um Governo cristão, o qual tem o dever de reger cristãmente aquele mesmo povo, é absurdo pretender a liberdade de consciência para criar leis, que ofendam a religião cristã, com a finalidade de favorecer aqueles que são de religiões diversas ou que não tem religião nenhuma. No entanto, este erro fatal e este deplorável fato se encontra naqueles Governos liberais ou maçônicos da sociedade modernizada, a respeito dos súditos que tem o mesmo direito de serem governados cristãmente. Nestes Governos se renova continuamente o fato de Pilatos. Em torno ao seu tribunal estavam reunidos aqueles que no peito ebulia a inveja mortal contra Jesus: Sciebat quod per invidiam tradidissent eum. (Matt. c. 27). As facções dos escribas e dos fariseus não queriam a sua morte. Pilatos, considerando os fatos a luz da razão, não encontrava nada digno de condenação em Cristo, non invenio in eo causam. Mas eles se enfureciam gritando: Nos legem habemus et secundum legem debet mori; e depois instavam Pilatos sobre no campo da política: Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris. A razão de Estado requer que tu o mandes a morte de cruz, dando a liberdade e a vida a Barrabás, infame assassino. Assim, se formou em Pilatos a consciência de dever satisfazer os desejos dos iníquos e assim a segue.

Entramos agora na aula parlamentar de um Governo modernizado em uma nação cristã e católica, o qual Governo deveria também não apenas respeitar a religião, mas jamais contradizer as suas leis em força de um Estatuto jurídico. Existe neste Parlamento uma facção de homens que colocando sob os pés a verdadeira ciência, pretendem falar em nome de uma ciência que pisoteia os primeiros princípios da razão e do bom senso. Existe outra seita de fariseus que com vil hipocrisia em nome da moral se diz cultora do livre pensamento. E existe a seita maçônica que as duas primeiras abraça e que jurou guerra contra Deus e ao seu filho Jesus Cristo, e tende com todo meio culpável a ruína dos povos.

Estas seitas gritam no Parlamento: morte a Cristo na sua religião, no seu Vigário, nos seus sacerdotes. Se torne desconhecido os seus direitos, se negue sua liberdade, se congestione as suas ações, se cancele Deus da educação e da família. Aos cultores de Jesus Cristo se negue aqueles direitos sociais, que tem todos os cidadãos até mesmo os judeus, se os persiga sempre e em toda parte. Os sectários deputados não trazem provas ou testemunhas de fatos rei; tudo se reduz a gritos e ameaças, e não se repete outra coisa no Governo que si nunc dimitis, non es amicus Caesaris. Se reconhecem os direitos do Vigário de Jesus Cristo, do Episcopado, do clero, do laicato católico, da doutrina e da moral católica, não és amigo da ciência moderna, do progresso, da liberdade moderna, da liberdade popular e da liberdade de pensamento. Aos gritos intemperantes da opinião pública, os quais não podem na realidade representar a nação católica e o próprio Governo, concede Cristo a vontade deles, e aceita leis opostas as leis de Jesus Cristo contra o clero e contra o laicato católico.

Assim é violada a liberdade de consciência em todas as nações católicas, e estas violações sancionadas com leis tuteladas pela força pública.

Este espetáculo de um povo que é tirada a liberdade de consciência o vemos diante aos olhos de vários ilustres na Itália, onde o caráter de verdadeiro católico é considerado a guisa de uma nota de infâmia sobre a fronte de todo cidadão. O qual se mostra sinceramente, tal, não tem acesso aos empregos públicos, e se porventura lhe tem acesso, lhe vem desonerado, maltratado e enfim expulso. Assim, quando um município se mostrasse sinceramente católico, contanto que não fosse o município de um vilarejo sem nome e de nenhuma conta, vem escolhido e se ordenam tramas, enganos, calúnias, violências, afim de que um novo município liberal e maçônico venha a ser eleito.

E, todavia L’Opinione tem a estúpida simplicidade de dizer, que a violação da liberdade de consciência na Itália é invenção dos reacionários, embora seja uma realidade na Rússia que ameaça promulgar severas leis contra os judeus e assim viola neste a liberdade de consciência. Não defendemos a Rússia muito intolerante e despótica. Mas a Rússia não fez e nem esta disposta a fazer alguma lei que vete aos judeus o culto do Deus de Abraão, ou que proíba as suas leis e os seus ritos ou destrua as sinagogas. A Rússia considera o povo judaico como um povo essencialmente errante, não nacional, que suga o sangue dos nacionais e, com a usura e a fraude, roubam as riquezas dos privados e do público; o considera um povo estrangeiro que dá o maior contingente a sanguinária seita niilista, a qual tramou e trama a matança dos imperadores e dos governantes. Na Itália, o povo católico, ao qual a liberdade de consciência é em realidade violada, não é povo de ladrões, ou de sectários, não é estrangeiro, mas é aquele povo que constituí a própria nação; é aquele povo ao qual o Rei jurou um Estatuto que é o fundamento da sociedade de direito, a qual Estatuto também prestou juramento os membros do Governo e todo parlamento. O primeiro artigo deste Estatuto é o reconhecimento da religião católica, como religião do Estado. Este Estatuto é desconhecido por um governo que nega na realidade ao povo a liberdade de consciência e se torna por isso, o tirano da nação. Cego, não considera que o Soberano pode dilacerar um Estatuto que é violado, e que a nação pode encontrar razão de não reconhecer a dinastia a qual se submete sobre a base desse Estatuto.

Em consequência dos seus princípios liberalescos, a Perseverançade Milão, concede a Roma e a Itália o direito de fazer revolução, já que a respeito do Cantão Ticino profere esta sentença (16 de Setembro de 1890). «A causa imediata da revolução ticinense conta bem pouco, perto daquela grande causa que se resume na palavra: quinze anos de Governo conservador-clerical sem respeito para os adversários políticos.» Agora os católicos que estão sob a obediência do Papa, (e os católicos se são verdadeiramente tais, devem estar sob a obediência do Papa, o foram e sempre o serão) estão a vinte anos em Roma e a trinta no resto da Itália considerados como adversários políticos do Governo italiano que se declara ateu, o qual Governo para esses foi sem respeito. A consequência é clara! Mas os atentados ao regicídio, as pedras contra os ministros de Estado, os tumultos, as conjurações não veem dos fiéis católicos, mas das filas daqueles que se rebelam contra os princípios da religião, inculcada por aqueles Padres e por aquelas religiosas que o Governo anticatólico suprime, espolia, calúnia, blasfema quase dignos de todo suplicio. Estes virtuosos cidadãos não alçaram jamais a bandeira da revolta, contra aqueles que violam a liberdade de consciência, como não a alçaram os primeiros cristãos contra Nero, os Dioclecianos, e nem sequer contra o apóstata Juliano. A revolução vem trabalhada pelos inimigos dos católicos, vem ocasionada pelo próprio Governo, para que como disse Cristo regnum in seipso divisum desolabitur. A Igreja Católica é imortal, porque é una e não divisa; e Jesus Cristo assegurando-lhe a imortalidade, assegurou-lhe perpétua unidade. A nossa desgraçada pátria não é dividida mais em sete Estados, mas é dividida em mil farrapos, quantos são os partidos e as facções que entre eles se opõem e a corrompem do interior e a tornam débil ao exterior, contra forças que atentassem para a sua destruição.

Esta Itália legal é similar ao homem suicida, que disparando um revólver no coração, caça por sua própria vontade por si mesmo, o princípio da vida. Essa dilacerando o Estatuto que quer a religião católica, a religião do Estado, se mata a si mesma.

O Governo da Itália considerado parece agora tão sem sentido, que faz desesperar dele: vai de precipício em precipício, nem mostra que compreende, ou melhor, se percebe despreza e ri. Os sapientes e os sinceros amadores da pátria desprovidos de todo arranjo para salvá-la, outra coisa não podem fazer que, chorar aquele riso, aquele desprezo e a consequente ruína.

É então extremamente estranho, que o Governo pretenda que o povo italiano católico se mostre satisfeito pelo seu regimento, reconhecente de seus benefícios e jamais mova lamento pela violada liberdade de consciência. O único reconhecimento que se lhe pode demonstrar, é aquele de um assaltado para o ladrão, que se contentou em depredá-lo  e bater-lhe, sem ainda tirar lhe a vida. Vós continuamente por meio dos vossos órgãos, que são as folhas mentirosas liberais, vilanizam os católicos nas suas crenças; dizem sempre que o seu culto, que é aquele da Nação, é uma superstição medieval merecedora de desaparecer ante a luz do progresso moderno. Vós de um lado tratais por ignorante os eclesiásticos de grande valor, porque cumprem os deveres sagrados da sua missão divina, e por outro lado se qualquer miserável que tenha renegado com a fé a dignidade sacerdotal e todo bom senso em fato de doutrina, o tratais como homem insigne e o promoveis a conspícuos postos na instituição pública. Vós haveis retirado às posses de todas as virgens consagradas a Deus e lhes deram seus poucos centavos a título de pensão, também tornaram dificultoso haver-lhes e as constringiram quase a morrer de fome; enquanto as concubinas e as meretrizes são defendidas, reverenciadas e giram como matronas em nobres carruagens pela cidade. Vós sois sempre parasitas a tornar vã com a violência ou com a astúcia o acesso às urnas aos católicos supondo que vos tomam; e onde também porventura conseguissem mandar as câmaras uma notável representação a fazer pesar os seus justíssimos votos, teríamos certeza moral que vós em virtude dos vossos princípios liberalescos usariam aqueles meios que utilizaram os liberais do Cantão Ticino, onde a morte de Rossi no palácio do governo de Bellinzona foi uma cópia do assassinato de outro Rossi cometido na Chancelaria de Roma. Penhorado lhe seja, o universal aplauso conferido nos jornais liberais da Itália, acima dos gestos facínoras dos anticlericais ticinenses, e das mentiras contra aquele Governo legítimo e honesto que foi vítima dos traidores.

 

VI.

Vãs e absurdas pretensões.

Então não é de admirar que desta maravilha indizível a seita maçônica e liberal, estendeu qual polvo gigante os seus tentáculos em toda Itália, ao mesmo tempo em que por meios dos jornais às vezes diz querer reconciliar-se com o Papa, claramente afirma duas coisas. Uma qual condição essencial que é o Papa renunciar a soberania; uma essencialíssima, que o sistema de governo italiano deva sempre propugnar leis que sancionem a violação da liberdade de consciência. Bem nos lembra de que quando, algum tempo atrás, o Papa Leão XIII manifestou ardente desejo de que a Itália legal se inclinasse a procurar uma reconciliação com a Santa Sé, mercê da qual haveria assegurado a nossa pátria a paz e a prosperidade; no parlamento o primeiro ministro afirmou que tal conciliação seria danosa a Itália, porque se deveria modificar a legislação italiana. O que evidentemente outra coisa não poderia significar que deveria se colocar em pleno vigor o primeiro artigo do Estatuto, jurado pelo Rei, dando aos católicos verdadeira e plena liberdade de consciência. As quais intenções da facção anticlerical, para outro em realidade não teriam conduzido, que a prepotência e a uma continua guerra contra a Igreja e os católicos. E não são sem cérebro aqueles que se maravilham de que o próprio Papa sempre responde com um non possumus! Pode ele sancionar com a sua autoridade uma condição política, para a qual na Igreja de Pedro que é a Romana e que é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, onde não exista a liberdade de professar à lei de Cristo, os preceitos de Jesus Cristo, a perfeição evangélica e na qual por lei se viole a liberdade dos verdadeiros sequazes de Jesus Cristo? Os Papas podem em verdade tolerar as perseguições, mas o sancionar com a própria autoridade tais perseguições contra a Igreja e as violações da liberdade de consciência católica, isto não foi, nem será jamais.

Deste princípio segue ainda uma conclusão contra aqueles, os quais vão vaticinando um tempo não remoto, no qual a seita triunfe e cesse de existir a Igreja Romana. Enquanto é indubitável que Jesus Cristo prometeu eterna estabilidade a sua Igreja. Ele predisse a mesma, combates e perseguições, mas juntamente lhe assegurou que o inferno não prevaleceria contra ela. Ora, no fato da Igreja Romana de Pedro ser a Igreja de Jesus Cristo, e as outras pertencendo a Igreja de Jesus Cristo enquanto pertencentes a Igreja Romana. Então a Igreja Romana, isto é o pastor Romano com sua própria grei gozará da perpétua estabilidade.   O estado violento ao qual é sujeito a Igreja dura por um longo tempo; mas não por tanto tempo, quanto durou o estado violento nos primeiros séculos da Igreja, nos quais pela remoção da liberdade de consciência foram feitos mártires gloriosos milhões de cristãos. A ponte Mílvio vem Constantino com a bandeira na qual existia uma cruz e as palavras in hoc signo vinces; e os tiranos foram apagados e a cruz foi erigida a bandeira de paz e de caridade em cima do Capitólio. Ora, por vinte anos aquela cruz foi dilacerada, e do mundo cristão vem dissipada a verdadeira paz e a caridade. Sem dúvida nenhuma, por outra mão a mesma cruz será realçada lá em cima. A Igreja Romana, que é eterna, como pode esperar quatro lustres, assim pode esperar-lhe cinco ou ainda dez. Deus não quer que o homem determine os limites do tempo no operar da sua misericórdia e da sua justiça. Mas sílaba de Deus não se cancela: e é certo que aqueles, que  serão tragados pelos turbilhões do Tibre, não será um Constantino.

La Civiltà Cattolica, anno XLI, serie XIV, vol. VIII (fasc. 968, 8 de outubro de 1890) Roma 1890 pag. 167-182.

 

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