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sábado, 20 de dezembro de 2014

A AMIZADE (II) - SIDNEY SILVEIRA

Captura de Jesus 1602, Caravaggio. Um retrato do beijo de Judas, protótipo do falso amigo.

 

Sidney Silveira
Contra impugnates
Pediram-me alguns para escrever mais sobre a amizade, porque lhes pareceu bem o texto anterior sobre o tema, publicado aqui no Contra Impugnantes. Resolvo fazê-lo, então, tendo como modelo o que nos diz São Francisco de Sales em sua Introdução à Vida Devota, conhecida também como Filotéia — um livro simplesmente extraordinário, um clássico recomendável a pessoas de todas as idades e condições de vida. Edificante, belo, cheio de conselhos luminosos.
Lembra-nos ali o grande Santo e grande Confessor que há as amizades boas e as más. As más nos levam a pecar contra os outros e contra nós mesmos, e rematam em palavras e pedidos torpes, convites tortuosos, “às vezes injúrias, calúnias, imposturas, tristezas, confusões, mentiras, ciúmes — e nos conduzem, geralmente, a brutalidades ou desvarios”. De minha parte, eu diria que, na prática, essas amizades acabam, com o tempo, conformando-se aos seus maus motivos iniciais, são como um espelho das intenções ou inclinações viciadas que as originaram. Sendo assim, devemos estar atentos para não fazer amizades justamente com as pessoas que vão agravar as nossas patologias, vão suscitar em nós o que temos de pior. Com muita razão dizia Santo Agostinho num famoso sermão: “Queres conhecer se o teu amor é bom? Vê o que ele te leva a fazer!”. Esse critério nos serve, também, para discernir as amizades. Não vamos, portanto, ser alcoólatras a travar amizade com o dono do boteco, que mais dia menos dia nos oferecerá um trago de pinga a custo “zero”.
Nesse tipo de amizade, a corrupção é insidiosa porque vem escondida sob o afeto. Por isso o autor de Filotéia nos fala da necessidade de nos armarmos com grande firmeza, nas ocasiões em que pretensos amigos nos chamam para fazer coisas indignas, ou falam sobre baixezas como a nos apontar um caminho de gozo ou mesmo de vingança. Afirma São Francisco:
“Não recebais a moeda falsa com a verdadeira, nem o ouro aquilatado com o falso; separai o que é precioso do que é vil e desprezível. Decerto, ninguém existe que não tenha certas imperfeições — e por que razão devemos, na amizade, participar das imperfeições do amigo? Devemos amá-lo, embora imperfeito, mas não devemos apropriar-nos nós das suas imperfeições e nem amá-las [nem ele das nossas mazelas, quedas, vícios, etc.]”.

A amizade - Sidney Silveira

 

“Aristóteles já nos ensinara, em suas duas Éticas, que os amigos são aqueles que se reúnem em torno da verdade, indicando-nos com isto que, onde não há verdade, não pode haver amizade em sentido próprio. O cristianismo foi além e disse que a amizade verdadeira é, também, impossível fora do amor, cujo objeto formal não é outro senão o bem. Isto nos remete à mais bela definição de caridade que já li, tão cara a Santo Tomás:
 
“Caridade é partilhar as verdades contempladas”.”
 


Sidney Silveira


A amizade se funda na comunicação de bens objetivos
. E quanto maior e mais excelente o bem que se queira comunicar, maior a amizade. Amigo, portanto, é a pessoa que quer o melhor para aquele por quem nutre o que alguns teólogos morais chamam de amor de benevolência.
Santo Tomás, em alguns pontos de sua obra, chega a dizer que a amizade é o modo mais perfeito do amor (In III Sent., d.27, q.2, a.1), pois, além de possuir todas as características inerentes ao amor, ela acrescenta-lhe a mútua correspondência. Ademais, diz ainda o Angélico que a amizade tem duas excelências propriamente suas: a primeira é que, graças a ela, existe uma certa sociedade entre amante e amado no amor (societas quaedam amantis et amati in amore); a segunda é que o amigo age por eleição (ou seja: por escolha livre) e não por paixão concupiscente. E nesta escolha livre uma pessoa quer o melhor, quer o bem para o seu dileto amigo — e o bem numa tríplice perspectiva: um bem honesto, um bem deleitável e um bem útil.
Esses bens especificam as três formas de amizade: a honesta, a útil e a deleitável. Vale dizer que, para Santo Tomás, não se trata de espécies unívocas de amizade dentro de um mesmo gênero, pois a amizade se predica de maneira análoga. Elas se estabelecem segundo o anterior (mais perfeito) e o posterior (que se lhe segue), como afirma Patricia Astrorquiza Fierro em seu estupendo Ser y amor – Fundamentación Metafísica del Amor en Santo Tomás de Aquino. Assim, a amizade mais perfeita será a honesta, que abarca as outras duas e na qual se cumpre, em seu ápice, o amor benevolente, pois esse tipo de amizade se baseia na verdade, e não em interesses tópicos menores. A amizade honesta é o modelo da verdadeira amizade porque, nela, o amigo é amado pelo que é — e tanto mais será amado quanto mais isto que ele é seja contemplado pelo amante em sua dimensão espiritual, superior. Se ele é amado porque tem uma alma racional-volitiva, uma alma feita por Deus à Sua imagem e semelhança, este motivo da amizade bastará para especificá-la como virtuosa, forte, resistente às intempéries e aos mal-entendidos que muitas vezes chegam a engendrar ódios onde, antes, havia amizade. A propósito, este é, justamente, o porquê de o cristão amar os inimigos: nós não os amamos, dizia Santo Agostinho, enquanto inimigos, o que seria absurdo, mas enquanto semelhantes. Em suma, nós amamos os inimigos enquanto partícipes da semelhança divina. E aqui não é demais lembrar que os inimigos de hoje — em grande parte das vezes, possivelmente a maioria — são aqueles que, um dia, foram amigos, mesmo não tendo tal amizade a solidez requerida.
O fato é que, se a amizade não tiver essa virtude, a saber, essa força espiritual baseada em Deus — fonte de todas as verdades e de todos os bens —, ela tenderá a ser mais útil e deleitável do que honesta. Terá uma ou outra característica, mas com exclusão da principal, ou seja: tenderá a fazer dos bens úteis e dos bens deleitáveis um real impedimento para os bens honestos. Este é o caso, por exemplo, de pessoas que têm amigos apenas na medida do seu interesse ou do interesse do grupo a que servem. Esses não estão, por isso mesmo, no ato livre de uma escolha amorosa, mas escravizados no serviço a algo menor.
Aristóteles já nos ensinara, em suas duas Éticas, que os amigos são aqueles que se reúnem em torno da verdade, indicando-nos com isto que, onde não há verdade, não pode haver amizade em sentido próprio. O cristianismo foi além e disse que a amizade verdadeira é, também, impossível fora do amor, cujo objeto formal não é outro senão o bem. Isto nos remete à mais bela definição de caridade que já li, tão cara a Santo Tomás:
“Caridade é partilhar as verdades contempladas”.
Assim, se alguém não partilha integralmente as verdades (desde as mais simples e facilmente compartilháveis) das quais hauriu conhecimentos honestos, úteis e deleitáveis para si e para os demais, esse alguém é antes um egoísta que tem amizade mais por si mesmo do que por qualquer pessoa.
Vale ainda dizer que a verdadeira amizade é a raiz do perdão e também a raiz de quaisquer sacrifícios que se façam. Ou, noutra formulação: seremos tanto mais capazes de perdoar e de nos sacrificar, quanto mais a nossa amizade for honesta e se basear, primordialmente, em Deus. Postos nesta situação, poderemos captar o elevado sentido destas palavras simples de Nosso Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo. XV, 13).
 
 
De tudo isto fica-nos a lição de que a amizade, em sentido próprio, só será possível entre pessoas que, pelo menos, buscam a santidade. Fora daí, poderá até haver certo tipo de amizade, mas sem aquela complacência interior pela bondade intrínseca do amigo. Poderá haver uma amizade, sim, mas sem nenhum deleite espiritual.
Em tempo. A um dileto amigo, dedico o vídeo a seguir. Trata-se de uma música que sei que ele aprecia (ao violão com certeza, não sei se ao violino, como nesta versão):

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O VALOR DO SYLLABUS E ALGUNS CATÓLICOS - P. CARLO RINALDO S.J.

Extraído do texto IlValore del Sillabo, 3º Il Valore del Sillabo e alcuni cattolici, revista La Civiltà Cattolica, Serie XIII, vol. III, fasc. 869, 26 agosto 1886.

R.P. Carlo Rinaldi d.C.d.G.

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Muito mais fácil é entrar em discussão com aqueles, os quais embora negando o valor dogmático do documento pontifício, se professam devotos filhos da Igreja, obsequiosos e dóceis ovelhas para o Pastor supremo do rebanho de Jesus Cristo. Esses estão conosco na mesma fé e caridade; e se neste ponto se diferem, não é porque negam dever sujeição de mente e de coração ao ensinamento do Vigário de Jesus Cristo, quando Ele fala como tal, e essa seria questão de princípio; mas apenas porque nega conter no Syllabus um ensinamento verdadeiramente dogmático: prontos (e como não?) a rendição total onde isto seja a eles demonstrado. A questão então, como cada um vê, é de fato. É justo, antes de sujeitar-se a uma obrigação, pedir-lhe as provas; como também é verdadeiro que uma obrigação reconhecida na questão de princípio, não é apenas por isto reconhecida se não condicionadamente ao fato; consequentemente isto é ao verificarem-se aquelas condições que são requeridas, para que um fato particular caia sob o já admitido princípio. É claro então, que uma e outra parte dos contendentes deve convir em estabelecer quais e quantas são essas condições; que se acima disso houvesse uma disparidade de sentir, então, a discussão cairia sobre outras questões, as quais, como ponto do qual todo o resto da disputa depende e que em primeiro lugar deveria se resolver. Que se deva obedecer, a título de exemplo, a autoridade legitimamente constituída, quando esta comanda, não existe dúvida de sorte alguma. Mas que tal ou tal outra coisa venha de fato ordenada, pode-se muito bem ser contestado, a dar-lhe uma prova se concorda a recorrer aquelas verdades de que o fato depende, e a luz do qual este é demonstrado. É propriamente o nosso caso.

JOÃO CASSIANO: O ESPÍRITO DA TRISTEZA

Extraído do livro
“As instituições cenobíticas”

Albrecht Dürer, melancolia 1514Albrecht Dürer, melancolia 1514

Livro Nono

O Espírito da tristeza

João Cassiano

[Tradução: Gederson Falcometa]

1. OS DANOS DA TRISTEZA

No quinto combate devemos reprimir as tendências da tristeza: é um vício que morde e devora. Se esta paixão, em momentos alternados e com os seus ataques de cada dia, variadamente distribuídos segundo circunstâncias imprevistas e diversas, chegar a tomar o domínio da nossa alma, nos separará um pouco às vezes da visão da contemplação divina até deprimir inteiramente a própria alma depois de tê-la afastado de toda sua condição de pureza: não permitirá mais dedicar-se as orações com a habitual espontaneidade de coração e nem mesmo de aplicar-se, como remédio, a leitura das Sagradas Escrituras. Este vício impede nos de sermos tranquilos e gentis com os próprios irmãos e torna impaciente e áspero diante de todos os devidos ofícios, aos vários trabalhos e a religião. Perdida assim toda faculdade de boas decisões e comprometida a estabilidade da alma, aquela paixão torna o monge como desorientado e ébrio, o enfraquece e o afunda em uma penosa desesperação.

DA LIBERDADE DE RELIGIÃO E DE CULTO - P. MATTEO LIBERATORE S.J.

La Civiltà Cattolica anno XXVIII,
serie X, vol. III (fasc. 653, 20 agosto 1877),
Firenze 1877 pag. 527-538.

R.P. Matteo Liberatore d.C.d.G.
[Tradução: Gederson Falcometa]

I.

Um pequeno erro de principio se torna grave nas ilações. Parvus error in principiis, fit maximus in illationibus.

Esta sentença de Santo Tomás se enquadra bem a Cassani, naquilo que diz respeito a liberdade de religião e de culto, que ele propõe em sua obra [1]. O erro, no qual ele incorre, procede de um pequeno erro (advertidamente ou inadvertidamente, não importa) no conceito que ele dá a liberdade de pensamento, de onde se inicia o seu tratado. Ele diz que essa consiste no direito de empregar todos os meios para conhecer a verdade, a qual buscar é o sumo dever do homem. «Quando se afirma que o homem tem por primeiro e fundamental direito a liberdade de pensamento… se quer dizer que o homem tendo o sumo dever de buscar a verdade, deve por consequência ser livre para usar todos os meios aptos a conduzir a cognição da mesma [2] .» Como se vê, o principio, no qual ele se move, é sim: ser sumo dever do homem a busca pela verdade.

A PAZ DA ALMA (4ª PARTE: A VIDA DO HOMEM É UMA BATALHA)

 PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Gederson Falcometa]
24 de maio de 2012
http://www.doncurzionitoglia.com/pace_anima4.htm 

  •     “A vida do homem é uma batalha” dizia Jó. Nós mesmos constatamos que nesta vida temos alegrias, mas também muitos sofrimentos para enfrentar. Todavia, existe um remédio para transpor facilmente toda dificuldade: devemos atravessar a via deste mundo tendo a mão de Deus, ou seja, vivem na graça de Deus e pensando continuamente que Ele inabita na nossa alma e cuida de nós.

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