Pesquisar este blog

sábado, 29 de fevereiro de 2020

CARDEAL SIRI: A DITADURA DA OPINIÃO

Entrevista do Cardeal Siri, feita pela revista Renovatio VI, em 1970, e traduzida por Gederson Falcometa (publicada primeiramente no Fratres in Unum). É antiga, mas nela encontramos uma grande consciência dos problemas que agora estão sendo revelados em toda a sua destrutividade mortal.

Cardeal Giuseppe Siri, Arcebispo de Genova, falecido em 1989.

RENOVATIO – Existe, segundo V. E. R,, uma relação entre a presente situação da sociedade humana no seu complexo e aquela da Igreja? Existe uma relação entre as dificuldades presentes da religião e aquelas da humanidade?
SIRI – Como seria possível ser diferente? A Igreja não vive separada do seu tempo e do seu mundo. As dificuldades que o homem experimenta hoje em viver como homem repercutem na dificuldade que o cristão encontra em viver como cristão.
O mundo hodierno vive da conquista da matéria: mesmo se a ciência lhe revela que a sapiência e a potência da ordem criada superam em qualquer parte a capacidade de previsão da razão, o homem se encontra, porém, fechado na estrutura mundana que ele construiu. O homem descobriu poder conquistar a matéria, poder torná-la instrumento da sua vontade: isto lhe tirou o senso de uma prudência superior e fez da conquista do mundo o seu saque , a perda da realidade humana mais profunda: o espírito.
O espírito é a pedra angular do homem e do mundo: todavia, essa é a pedra que os construtores da nossa presente sociedade quiseram esquecer e rejeitar. Chegamos assim a um mundo em que a pessoa humana não tem valor porque o homem não tem mais significado, e não é mais considerado a imagem de Deus.
Quando os homens fizeram as suas primeiras descobertas, houve um sentido de soberba e de absoluto predomínio do homem sobre o mundo: é isto que vem narrado na história da torre de Babel, uma visão profunda da dialética da civilização. Deus confunde então as línguas. Mas hoje as próprias mentes dos homens são confusas. A hora do máximo de poder é hora obscura, em que a sapiência mundana não sabe senão prefigurar a crise definitiva da humanidade. Mas os cristãos são filhos da esperança.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

P. CORNÉLIO FABRO: DECADÊNCIA E CRISE DO SACERDÓCIO NA ATUAL CRISE DA IGREJA




CAPÍTULO
DO
LIVRO
L’AVVENTURA 
DELLA TEOLOGIA
 PROGRESSISTA

Padre Cornélio Fabro
Milão, 1974
Tradução: Gederson Falcometa

Aquilo que na presente situação, segundo May, sobretudo é deprimente, são os erros de professores, não tanto a fraqueza e a vileza dos Bispos: aquilo que é mais deprimente no cuidado das almas é a fraude e a pena que foi dada ao bravo povo alemão. A nenhum observador diligente da Igreja Católica escapou nos últimos anos que a Igreja na Alemanha percorre um caminho suicida no que diz respeito ao cuidado das almas. Basta dar uma olhada na situação.

MARCELLO VENEZIANI: CURSO INTENSIVO SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO



Tradução: Gederson Falcometa


Mas que coisa é exatamente o politically correct? O citamos todos os dias sem talvez entender todo o seu significado. Ofereço um breve guia, um resumo crítico e suco concentrado.

Para começar, o politicamente correto é um cânon ideológico e um código ético que monopoliza a memória histórica, o conto global do presente e prescreve como se comportar. Nasce das cinzas do 68, cresce nos EUA e no norte da Europa, se desenvolve substituindo o comunismo com o espírito radical (ou radical chic segundo Tom Wolfe) e substituindo a hegemonia marxista e gramsciana com o “carolismo progressista” (como o define Robert Hughes). Rompe as pontes com o sentir popular, não representa mais o proletariado, ao menos aquele das nossas sociedades; separa os direitos dos deveres e lhes liga aos desejos, rejeita os limites e os confins pessoais, sociais, sexuais e territoriais, em nome de uma liberdade sem limites, substitui a natureza com o querer dos sujeitos.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

ROBERTO PECCHIOLI: O MUNDO LÍQUIDO DE BAUMAN


 Mundo líquido: o homem em uma garrafa





 "Mundo líquido de Bauman: o homem na garrafa. É preciso sair da garrafa e da poça acabar com a condição líquida, Devemos voltar a ser estáveis e sólidos, criar comunidades : pertencer e possuir uma identidade".

Roberto Pecchioli
Accademia Nuova Italia
Tradução: Gederson Falcometa

Poucos adjetivos obtiveram o sucesso de “líquido”, o atributo do mundo contemporâneo inventado por Zygmunt Bauman. Modernidade líquida, família líquida, mundo líquido. O sociólogo judeu polaco emigrado nos EUA deu a definição mais sintética, fulminante e precisa do nosso tempo. Líquido no sentido de não sólido, privado de um centro e de uma forma. Os líquidos são informes, assumem aquela dos recipientes que lhes contém e, na sua ausência, tendem a se perder, evaporar e se anular. A intuição de Bauman é extraordinária, mas revela que o homem líquido, produto de uma sociedade também líquida, é um homem encerrado em uma garrafa.

DON CURZIO NITOGLIA: TRANI, ANO MIL: O MILAGRE DA HÓSTIA FRITA




 Don Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa

Em Trani na Puglia, perto de Barleta, ainda se pode visitar o lugar onde ocorreu um retumbante milagre eucarístico por volta do ano mil (século XI), sob o pontificado do Papa Gregório V. Dois eminentes pesquisadores (Spacucci e Curci) dedicaram três décadas de sua vida a estudar a questão reconstruindo a história do milagre, a partir de documentos ainda inéditos, mas consultáveis nos arquivos estatais[1]. Sempre em Trani, em 1480 um dos soldados muçulmanos que haviam massacrado em Otranto a 800 cristãos, passando pela cidadezinha, golpeia com a cimitarra um crucifixo de madeira, do qual jorrou sangue, que se conserva na Igreja do SS. Crucifixo vizinha à porta de Trani. O Padre Pio costumava dizer “Benedico la città di Trani la cui terra è stata bagnata due volte dal Sangue di Gesù” (“Bendigo a cidade de Trani, que teve sua terra banhada duas vezes pelo sangue de Jesus”). 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

DON ELIA: A SORTE DA ÁRVORE QUE NÃO PRODUZ BOM FRUTO


D. Elia
Tradução: Gederson Falcometa

"O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo." A profecia de São João Batista, no texto grego, indica, por meio de vozes do presente com significado de futuro próximo, uma ação iminente. Os exegetas modernos sustentam de costume que a visão messiânica do Precursor, que anunciava um juízo imediato, teria sido desmentida pelo aparecimento de um Messias todo misericórdia e perdão. Eles explicam em tal sentido a embaixada dos díscipulos, que vão da parte do profeta já encarcerado, colocar para Jesus a fatídica pergunta: «Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?» (Mt 11, 3). O maior entre os nascidos de mulher, como o Senhor mesmo o qualifica ao identificá-lo como o mensageiro que Lhe preparou o caminho, a saber como aquele Elias que deveria vir (cf. Mt 11, 10-11.14), teria talvez sido corroído por uma dúvida radical que poderia danificar toda a sua missão e o próprio sacrifício da sua vida, que se consumaria dali a pouco? Mas como poderia ter podido errar, a este propósito, o amigo do Esposo que se alegra imensamente ao ouvir a Sua voz, ao ponto de declarar plena a medida de sua própria alegria (cf. Jo 3, 29)?

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

DON CURZIO NITOGLIA: O BEM DO TODO É MAIOR QUE O BEM DA PARTE



Don Curzio Nitoglia 
Tradução: Gederson Falcometa
8 de agosto de 2011

“Civitas propter cives, non cives propter civitatem”
·        Contra o comunitarismo (“o bem de todos”) a sã filosofia ensina que a Sociedade não é o Fim absoluto, o bem ao qual os cidadãos são ordenados, mas a Sociedade é ordenada ao bem comum dos cidadãos (“civitas propter cives, et non cives propter civitatem”). Por isso é preciso entender bem o significado do axioma “o bem do todo é superior ao bem da parte”, para não cair no absolutismo comunitarista, ou seja, no “culto da Comunidade” ou do seu “Chefe absoluto”, que destrói os indivíduos.

·        A comunidade (ou o “bem do todo”) não deve absorver, mas deve proteger os direitos do indivíduo e da família (“o bem da parte”). Essa intervém apenas onde a família e o setor privado não conseguem sozinhos (v. o princípio de subsidiariedade) [1].

·        O Cardeal Alfredo Ottaviani ensina: “individuus non est pro Statu, sed Status pro individuo”, o Estado (ou “bem do todo”) é para os cidadãos, não vice-versa, ou seja, a pessoa não é uma engrenagem da Sociedade como uma engrenagem de relógio. É preciso que o Estado (“o todo”) respeite a pessoa (“a parte”) provida de uma natureza racional, criada a imagem e semelhança de Deus, dotada de uma alma espiritual e de intelecto e vontade, e então, livre para fazer o bem e aberta para conhecer o verdadeiro que a conduzirá a vida sobrenatural. O Estado (ou “o bem do todo”), portanto, não deve jamais obstaculizar ou inculcar o conhecimento da verdade e a prática do bem da pessoa (“o bem da parte”), antes a deve favorecer. Quando se iniciaram as escavações sob o altar da Basílica de São Pedro, para ver se realmente ali estava o corpo do Apóstolo, a quem faziam notar a Pio XII o risco daquela operação, o Papa respondia: “A Igreja não deve ter medo da verdade!”.

·        Além disso, a Comunidade ou Sociedade deve procurar também e secundariamente o bem estar comum temporal do homem, defendendo os seus direitos e a sua dignidade: a vida, a integridade física, as comodidades temporais, a educação intelectual, moral e espiritual [2].

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

DON CURZIO NITOGLIA: FALSO MISTICISMO E VERDADEIRA MÍSTICA.


 

DON CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Gederson Falcometa]


ESPIRITUALIDADE CATÓLICA E RELIGIOSIDADE ORIENTALIZANTE

O falso misticismo
  • Já falamos da verdadeira mística[1] neste site (v.***). No presente artigo resta ver qual é a sua falsificação, que é o falso misticismo. Este perverte sobretudo a verdadeira noção do estado passivo da mística. Tal estado consiste na passividade relativa do homem apenas diante da Graça atual e especial do Espírito Santo (não impedi lo), mas não na passividade absoluta do homem quanto ao agir espiritualmente  impulsionado pelo Paráclito, vivendo ao máximo, sobrenaturalmente ou heroicamente, as Virtudes infusas e especialmente as teologais.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

DON ELIA: A BESTA DE SETE CABEÇAS

Combate contra a besta de sete cabeças, biblioteca de Toulose, 1220-70



D. Elia
Tradução Gederson Falcometa

 A aplicação do Apocalipse a compreensão da atualidade sempre suscitou vivo interesse, mesmo se comporta riscos não desprezíveis. Uma observação se impõe: a realização das suas profecias já foi observada mais vezes em eventos do passado aos quais, todavia, não se seguiu a instauração do Reino de Deus. Até que ponto é legítimo, além disso, pretender de colher em fatos contingentes o cumprimento da Palavra divina, que tem alcance  meta-histórico? Não obstante, um uso cauteloso e não excessivamente unívoco do último livro da Bíblia, como chave de leitura dos acontecimentos contemporâneos, parece admissível, se um Doutor da Igreja da espessura mística e especulativa de São Boaventura de Bagnorégio (1221-1274), no prólogo da sua Legenda Maior, interpreta a figura de São Francisco de Assis como o Anjo do sexto selo (cf. Ap 7,2), encarregado de imprimir sobre a fronte dos servos de Deus, a marca da salvação antes da execução do castigo anunciado para a humanidade pecadora.
 

Postagens mais visitadas

D. DAVIDE PAGLIARANI: A HERMENÊUTICA DA HERMENÊUTICA - SEGUNDA PARTE: CONSEQUÊNCIAS ÚLTIMAS DA HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE

Don Davide Pagliarani Revista Tradizione Cattolica FSSPX Itália Março de 2010 Tradução: Gederson Falcometa A hermenêutica da continuidade en...