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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

P. CORNÉLIO FABRO: DECADÊNCIA E CRISE DO SACERDÓCIO NA ATUAL CRISE DA IGREJA




CAPÍTULO
DO
LIVRO
L’AVVENTURA 
DELLA TEOLOGIA
 PROGRESSISTA

Padre Cornélio Fabro
Milão, 1974
Tradução: Gederson Falcometa

Aquilo que na presente situação, segundo May, sobretudo é deprimente, são os erros de professores, não tanto a fraqueza e a vileza dos Bispos: aquilo que é mais deprimente no cuidado das almas é a fraude e a pena que foi dada ao bravo povo alemão. A nenhum observador diligente da Igreja Católica escapou nos últimos anos que a Igreja na Alemanha percorre um caminho suicida no que diz respeito ao cuidado das almas. Basta dar uma olhada na situação.


Atitude de monopolização da teologia progressista

É preciso partir de um fenômeno que é decisivo e ao mesmo tempo surpreendente para os católicos, a saber a determinante, ou melhor, dominante posição da teologia Igreja aggiornata. Essa parece ter se transformado de uma Igreja de Bispos em uma Igreja de professores. Devo em verdade me corrigir: dominante não é simplesmente a teologia, mas uma determinada forma de teologia que se chama com a modéstia, que lhe é própria, teologia do progresso, que eu porém indico como progressista. Muito menos esta teologia é uma unidade, e contudo, mostra em um certo campo características comuns  [1].
Evidentemente esta teologia progressista não tem nada a ver com o verdadeiro progresso, que se chama aproximação da perfeição – e é isto em verdade o verdadeiro progresso -, ao qual o Senhor da Igreja nos convida. O progresso autêntico afirma os valores presentes e busca desenvolvê-los, não os destrói. Ao invés disso, o progressismo contém um programa de total insegurança. Aquilo que esse afirma ser progresso é na verdade regresso, a saber desagregação de valores, esvaziamento de conteúdos, destruição de formas: em resumo, uma demolição, uma liquidação de que uma vez um professor de teologia dogmática me disse: «A liquidação se pode fazer apenas uma vez!». As oposições na Igreja não são de fato entre conservadores e progressistas. Não se trata de fato de uma diversa impostação da mesma herança católica que por ninguém é negada, mas se trata de fidelidade aos valores católicos ou de sua traição. Alguns meses atrás o episcopado alemão, como é notável, organizou uma consulta aos sacerdotes. Entre as muitas respostas existiu uma que sem dúvida é extremamente significativa: 68% dos sacerdotes se lamentou da confusão em que foi precipitada a teologia. Seja os sacerdotes seja o povo católico todos estavam habituados até poucos anos atrás (a esperar) que os teólogos que ensinam por encargo da Igreja anunciassem também a sua doutrina. Mas a situação, já faz alguns anos, mudou. Hoje não é raro o fato mirabolante que os anunciadores da fé, autorizados pela Igreja, ensinem em contraste com a doutrina da Igreja. Eu não exagero se digo que a guia da Igreja passou de fato em larga escala de pastores relevantes e responsáveis a teológos progressistas irresponsáveis.

Em casos inumeráveis estes tais teólogos, negligentes das leis em vigor, não fazem senão exercer pressão sobre os Bispos, para constringi-los a mudar as regras. O professor de dogmática em Tübingen, Hans Küng – seguido nisto pelo colega Kasper – é proclamado como «carismático», enquanto a sua obra, para se ser mais preciso, deve ser chamada de «vigarice». Em 6 de outubro de 1971 perguntaram aos sacerdotes de Frankfurt am Main quem deles usava exclusivamente e tão somente os quatro cânones permitidos da Santa Missa. Resultaram apenas três entre trinta e cinco: então, trinta e dois usavam cânones da Missa não permitidos, introduzidos arbitrariamente. Há pouco tempo, a terceira instrução, para a execução da constituição litúrgica do Concílio Vaticano II, insistiu em proibir as mulheres de servirem no altar. Isto não impediu, como sei por minha própria observação, que um pároco de Speyer deixasse as moças ministrarem sob o olhar do Bispo! Os próprios Bispos, em muitos casos conturbantes, tem dado exemplo de desobediência, casos que não podem não ter repercussão no comportamento dos fiéis e dos sacerdotes. A conferência episcopal alemã, há alguns anos, ordenou que a primeira confissão fosse adiada por alguns anos, para depois da primeira comunhão. No Diretório catequético de 11 de abril ordenou-se o retorno da pratica precedente, ou seja, de fazer a confissão pouco antes da primeira comunhão. Contudo, a conferência episcopal alemã, não pensa em retirar o seu abuso.

O procedimento é sempre o mesmo: um punhado de teólogos progressistas de cartaz se reúnem, elaboram algum manifesto ou outra proclama, a publicam, fazem rumor, uma grei de sequazes se unem a eles e dão mão forte ao coro, a mídia tomando a bola que lhe é lançada, atiça a agitação: a maioria dos Bispos silencia, se mostra impressionada, se bem que alguns não se impressionem tanto pelos argumentos quanto pelo vórtice desencadeado, um grupo se declara solidário com os manifestantes, outros fazem declarações contrastantes que são subitamente difundidas por toda parte e impedem qualquer formação de uma oposição, ambos os grupos começam exercitar conjuntamente uma pressão sobre o Papa. O Papa assustado, adia, volta atrás, compromete aqueles que estavam prontos a introduzi-lo, o projeto contido é deixado de lado ou modificado segundo o desejo dos manifestantes. O melhor exemplo: a lei fundamental da Igreja romana, por uma parte intimidada pela matilha, por outra devota ao seu Senhor, está como que paralisada pelo sentimento de lealdade para com o Papa ou por medo dos rebeldes, sem vontade e incapaz de conduzir uma oposição eficaz.

Assim, um pouco de cada vez – e isto deve ser mantido à vista – no que diz respeito a decisão dos pastores, desceu-se para uma situação de carência de guia, a qual, seja no campo da doutrina seja naquele da disciplina, opera-se com crescente desintegração. Toda declaração positiva dos bispos é contradita subitamente por aquelas negativas de muitos teólogos modernistas. Último exemplo: o aborto. Parece que não existe mais uma decisão suficiente dos titulares do magistério que interrompa o debate. A permanente insegurança do clero e dos fiéis se espalha. Assim, não creio, caros irmãos, ser muito sútil se digo que as palavras terríveis do Evangelho: «Eram como ovelhas sem pastor», devem aplicar-se em larga escala na situação presente da Igreja.

Os teólogos progressistas criaram instituições que devem consolidar o seu domínio. O meu pensamento vai as comissões dos teólogos de diversos campos e a revista «Concilium». O seu domínio, nas casas editoriais, nas revistas e nos jornais é solidamente fundado e quase completo, tanto que sem exageros se poderia falar de uma propaganda progressista de opinião, ou melhor de um monopólio de opinião. Ao seu influxo subjazem e sucumbem há anos os pastores da Igreja, o clero e os fiéis. A maioria dos homens está inclinada a confundir à opinião dominante com a verdadeira ou ao menos a submeter-se diante da posição de monopólio da mesma.

Mas isto tem para o cuidado das almas efeitos ruins e pleno de transtornos. Sem uma conduta firme e unitária da Igreja, nas questões de fé e de disciplina, faltará ao cuidado das almas os seus fundamentos. Quando a  plenitude da nossa fé não é mais indiscutível não se encontram mais pastores de almas que se consumam de zelo pela casa de Deus, nem se pode ter a disposição leigos que sacrifiquem forças e tempo pela religião. Quando um padre ensina de um modo, um outro de outro, quem repreendera a gente se seguir a via mais cômoda e mais fácil? Se não existe uma vida eterna, nem céu e nem inferno, porque também os católicos não podem fazer próprio o lema: «Arranjemo-nos sobre esta terra, não existe nenhum além vida, nenhum adeus».

Seguindo o monopólio ideológico dos progressistas não é possível iluminar em grande estilo o povo fiel sobre aquilo que nos últimos anos foi feito na Igreja. Assim o enorme processo de liquidação dos valores católicos não chegou a consciência plena da maioria ou sobre larga escala. Vastíssimos círculos do clero e dos leigos ainda estão infectados.

A crise dos Pastores de almas

A crise do cuidado das almas tem a sua razão principal, precisa May, na crise dos Pastores de almas...[2] Conheceis o slogan: o sacerdócio deve ser demitizado, o patriarcado demolido, democratizado. Quero ocupar-me apenas disto, de como estas montagens influenciam muitos Padres. Existem sacerdotes que tem o curso da jornada determinado pelos programas de televisão, sacerdotes que descuidam regularmente os próprios deveres de piedade sacerdotal. Também existem sacerdotes que ficam meses, se não anos, sem receber o sacramento da confissão malgrado as prescrições eclesiásticas ainda vigentes.

No ano passado tive um curso de exercícios para Padres no qual tive encontros tremendos fora da confissão: muitos de fato vieram a mim.

Um Padre que estava prestes a cair me disse: «Se o senhor não tivesse falado tão duramente, eu teria caído. Somente porque o senhor disse as coisas com tanta clareza e severidade, eu tive forças para continuar». Com a perda e o enfraquecimento da fé surge para as almas um perigo mortal. Quem se tornou oscilante na fé é incapaz de conduzir com fé as almas. Pode manter ainda por um certo tempo uma fachada de zelo, mas não está mais em prontidão para oferecer um serviço eficaz, zelante e iluminado para a salvação dos irmãos e das irmãs.

Os contínuos ataques contra o sacerdócio tem também efeitos deletérios sobre aqueles aos quais é confiada o cuidado da nossa alma. Além disso, os fiéis perdem o conhecimento da importância insubstituível do sacerdócio católico para ele e para toda a humanidade. A consideração do Padre Católico foi, no interior da Igreja, enormemente rebaixada. Este rebaixamento de estima no clero, por causa da rebelião e dos escândalos dos sacerdotes como também do endereço da teologia que rebaixa o sacerdócio, tem, porém, péssimos efeitos para o cuidado das almas, porque lhe diminuem as perspectivas e possibilidades. Se oscila a confiança no pastor de almas, então, também a confiança nas suas palavras e nas suas manifestações diminuí. Consequentemente não se busca mais o serviço do pastor de almas, não se escuta mais a sua palavra.

Ecumenismo nefasto

A recordada teologia progressista produziu numerosas alterações importantes na Igreja, devo dizer. Não posso nem quero enumera-las aqui. Mas uma característica comum a muitas, de fato, a maioria das alterações, a saber, é a adaptação a doutrina e a prática da Reforma, aos conteúdos e as formas protestantes. A alavanca das aspirações protestantizantes é o chamado ecumenismo católico proclamado pelo Concílio Vaticano II. De fato, os seus influxos ameaçam, segundo as minhas observações, com a perda da sua própria identidade.

Em primeiro lugar, deve-se dizer que muitos dos assim chamados teólogos católicos trabalham como os protestantes, isto é, negligenciando os princípios da teologia católica. Com absoluta desinibição e como se fosse evidente, eles operam com o princípio protestante da sola Scriptura. Nenhuma maravilha que estes cheguem a posições protestantes. O ecumenismo exige aquela nebulosidade e falta de clareza de que uma vez o historiador Joseph Lortz disse que é um dos mais importantes pressupostos para o sucesso do movimento de Martinho Lutero.

Alguns exemplos: em primeiro lugar a teologia do sacerdócio. Se o sacerdócio de fato não é essencialmente diverso do laicato, é claro que o sacerdócio católico deve estar na periferia da consciência católica ou ser completamente eliminado. Um outro exemplo: Döffner e Dietzfelbinger, o Cardeal Católico e o bispo Protestante da Baviera fizeram uma declaração comum sobre a indissolubilidade do matrimônio. Qualquer pessoa que conheça de longe a doutrina protestante do matrimônio sabe que os protestantes por indissolubilidade do matrimônio entendem algo de essencialmente diferente daquilo que entende a Igreja Católica [3]. Desta diferença essencial não se fala de modo algum nesta declaração. Mas qual é o valor em geral de uma declaração comum, da qual a interpretação e a colocação em prática, emerge imediatamente gravíssimas diferenças, sempre supondo que se queira manter a fé católica?

Em segundo lugar, as estruturas, as manifestações vitais e a disciplina da Igreja em medida crescente estão sendo adaptadas as ideias protestantes. O sistema de conselho na Alemanha, por exemplo, vem deliberando em parte notável por fontes da Reforma. Uma grande parte das alterações da liturgia está sob o modelo protestante, como nos asseguram os próprios autores protestantes. Em todas as ocasiões possíveis que são oferecidas a Igreja Católica para estender sua vida hoje, antes disso, apenas para professar a sua fé, ela é contraposta ao ecumenismo. Exemplos: se os mártires ingleses devem ser canonizados, eis a ameaça de deterioramento do clima ecumênico. Se aproxima a festa de Corpus Domini se fala do dever de ter respeito aos irmãos separados. Muitos tesouros e valores que nossa Igreja possuía em comparação com outras comunidades religiosas têm sido nos últimos anos - pelas chamadas preocupações ecumênicas - destruídas ou deixadas em segundo plano. Às vezes mesmo o católico mais paciente, que quer permanecer católico, se pergunta um pouco se o ecumenismo assim entendido não seja um meio para estrangular a fé católica.

Efeitos da onda de protestantização

Os efeitos da onda de protestantização na prática são de grande importância para o cuidado das almas. De fato, na mesma medida em que avança a protestantização da Igreja, se afrouxa a ligação dos católicos que são continuamente exortados a aprender com os irmãos evangélicos: que coisa eles pensam da eclesialidade é notável. A anti-eclesialidade, muito mais difundida no campo protestante que no católico, se transfere para os católicos. Para alguém que conhece o protestantismo, deve ser claro isto: quem faz pactos com o protestantismo termina no sugador da secularização, da redução, do minimalismo no campo religioso e moral.

Se pode aprender muito com o protestantismo, como, por exemplo, a afirmação tenaz das próprias posições, o hábil prosseguimento da própria vantagem; mas é propriamente isto que os teólogos ecumênicos não querem aprender. A atividade ecumênica criou ao contrário, entre os católicos, a convicção quase geral que não tem importância ser católico ou ser protestante, de fato (em conexão com os assim chamados cristãos anônimos) nem mesmo se em geral creia ou não creia em alguma coisa. A fraternidade universal com todo o mundo, o diálogo realizado sem distinção, o nivelamento das diferenças entre as religiões e confissões, em geral colocar de lado as diferenças de fé em favor da ação [4] levaram ao sentimento dominante vital que pertencer a Igreja católica não é necessário e nem muito importante.

Quem no diálogo entre as confissões deixa na sombra a questão da verdade, cria a indiferença para com a verdade. A consequência não é a aproximação das confissões mas o desprezo de toda religião. O ecumenismo se atua de fato entre os católicos no melhor dos casos como relativismo, nos casos mais desgraçados como indiferentismo. Para o relativismo a Igreja Católica e o protestantismo são igualmente muito importantes, para o indiferentismo são igualmente pouco importantes.

O protestantismo vê no número e na qualidade dos convertidos uma notificação para a força interior de uma comunidade religiosa [5]. Se aplica esta medida a Igreja Católica presente, se pode ver que está em uma situação de debilidade como não o esteve no tempo do máximo esplendor do iluminismo. De fato, o número das conversões reduziu-se ao mínimo. Conversões de personalidades eminentes na vida do espírito não existem mais. Parece que na figura que lhe deram o Concílio e o pós-Concílio, dificilmente exercita ainda uma atração sobre os homens que lutam e buscam.

A única coisa estranha nisso tudo é que o protestantismo não pensa em renunciar a sua obra de propaganda entre os católicos. No meu livro sobre conversões escrevi como em toda parte, na Alemanha e não menos que na Espanha, com zelo o protestantismo ganha adeptos. E isto advém com sucesso crescente. Por volta do fim de 1970, o presidente substituto da Igreja evangélica alemã declarava que na Alemanha do Sul e Sudoeste o número das conversões na Igreja evangélica tinha-se duplicado em respeito as perdas. Este fenômeno se explica apenas pelas acquisições que o protestantismo faz entre os católicos. A Associação evangélica vê a razão do aumento das conversões do clero católico, na França, ao protestantismo, na valorização do protestantismo feita pelo Concílio Vaticano II.

No entanto, o pior efeito da protestantização da Igreja eu o vejo nisto, que aos poucos entre os católicos se formou uma situação geral de consciência que corresponde àquela dos primeiros decênios do século XVI, e essa, como naquele tempo, prepara a queda das massas no momento em que a penetração de outrém é desencadeada. A insegurança dogmática dos católicos aumentou ao ponto que, a meu ver, a maior parte dos católicos alemães não levantariam alguma dificuldade se a maioria na conferência episcopal alemã decidisse amanhã a união com o protestantismo.

Informação ao invés de comunicação da fé

Passando a considerar a instrução religiosa, May observa que essa caiu em uma das crises mais sérias. Esta crise se apresenta sob muitos aspectos. Em primeiro lugar, a insegurança de muitos professores de religião deve ser mencionada. Diante de uma teologia confusa, eles mesmos não tem um lugar claro e acordado. Em consequência da total insegurança que é gerada por muitas publicações das editoras Herder, Patmos, Grünewald, Styria [6] eles perderam toda orientação teológica.  Quem perdeu a convicção viva da fé, não pode nem mesmo comunicá-la. [...]

Desta insegurança resulta a exigência, muitas vezes levantada, de ver a instrução religiosa como simples informação, não como pregação da fé.  Neste modo a instrução religiosa é mistificada na sua essência. Fé não é apenas a aceitação de conteúdos evidentes, mas também resposta a chamada de Deus que exige. A exposição da fé, se deve ser afirmada retamente, não deve ser compreendida apenas como uma comunicação de princípios - seria um equívoco intelectualista - mas também, e sobretudo, como uma exigência que ocorre em nome de Deus para o encontro com Deus, para a obediência a Deus, dirigida por quem praticou essa obediência e pode lhe dar testemunho. Em outras palavras: a instrução religiosa não comunicará apenas conhecimentos, criará convicções. Uma concepção da instrução religiosa como pura informação perde todo o sentido, porque consequentemente o relativismo afunda toda convicção da fé católica.

Então, não surpreende que a insegurança dos mestres de religião passe aos estudantes. Sobre o púlpito não raro se prega um falso conceito de Deus, se lhe dá uma falsa imagem. O Deus do progressismo teológico é a imagem reflexa da confusão progressista: um Deus de moleza e fraqueza, um Deus de desleixo e de insuficiência. Nenhum traço do Deus que é fogo ardente, diante ao qual os céus não são puros, que não poupou o «cálice» da Paixão ao seu único Filho. 

Muitos teológos deixaram de pregar por anos a mortificação, a abnegação, a renúncia e de fazer exercitar estas práticas as crianças, aos jovens e aos adultos. Para a maioria das pessoas, o que eles ensinaram e ordenaram antes é falso, supérfluo ou superado... As contradições na pregação levam muitos católicos a pensar que nenhuma das diversas concepções que são a eles apresentadas seja verdadeira, mas ao contrário que todas sejam falsas.

Se difunde um culto do negativo e da crítica. A infinita benção que procede da Igreja é retirada. Os lados sombrios da história da Igreja são desenterrados e ostentados em todos os lugares. O orgulho dos crentes de pertencer a comunidade de salvação do Senhor é desprezado e ridicularizado como «triunfalismo». Mas em seu lugar entra o triunfalismo da negação, que se compraz com o vilipêndio da sua mãe e constata com satisfação o rumor das risadas do liberalismo.

A alegria eclesial se transformou em uma fadiga, aridez, insegurança e indiferença até então desconhecidas. Uma Igreja que continuamente se torna verminosa na sua gente, deve aos poucos perder crédito mesmo entre os seus fiéis [7].

Desaparecimento da piedade e da severidade dos costumes

Com a perda da fé é conexa o afrouxar-se da piedade. A capacidade para a oração pessoal é obliterada ou não suficientemente formada. Os fiéis se esquecem quase completamente de rezar por si mesmo antes ou depois da Missa. Mas é óbvio, insiste May, que a oração permanece ou cai com a oração pessoal. A reforma litúrgica, vista no seu complexo, não fortificou a fé, nem aprofondou a piedade. Pelo contrário, o respeito a Deus santo, pela sua majestade e o seu juízo, os seus mistérios e a sua palavra deram lugar em medida angustiante a superficialidade, a ligeireza e até a frivolidade em relação ao sagrado. A adoração ao Santo dos Santos está fortemente em declínio, de fato, em algumas partes desapareceu completamente. Ao Senhor no Sacramento se recusam a saudação e a genuflexão ou porque a fé na presença real foi feita em pedaços ou porque deste modo se quer constringir a uma mutação.

O temor de Deus parece ter desaparecido da Igreja; o temor de Deus do qual se diz que é o ínicio da sapiência e um dom do Espírito Santo. A devoção a Paixão de Jesus, como essa se exprimia na Via Crucis ou nas pregações quaresmais, foi notavelmente demolida. Práticas assim conservadas como a primeira sexta-feira do Coração de Jesus e o sábado sacerdotal caem cada vez mais em esquecimento. A devoção a Nossa Senhora diminuiu muito e em parte foi estrangulada. O Rosário foi abandonado como superado. As práticas do mês de maio diminuíram em número, a sua implementação foi empobrecida e pouco atrativa. A devoção dos santos não desenvolve nenhum papel. A devoção as almas do purgatório é praticada em medida digna de menção apenas pelos velhos.

A aquisição das indulgências cessou a muito tempo. Tudo isto depende em primeira linha do alinhar-se da fé católica ao critério do protestantismo, como também da negação, por parte dos assim chamados teólogos católicos, da imortalidade da alma e da purificação ultra-mundana.

Se o número das comunhões talvez tenha aumentado, em muitos casos é ao preço da preparação suficiente, antes, em parte, com a renúncia a mínima disposição, com a exceção do pecado mortal. Até mesmo uma testemunha não suspeita, o arcebispo de Mônaco, Döpfner, assegurou que muitos hoje vão a comunhão como a pegar água benta.

O espírito de penitência cessou há muito tempo, e a última causa não é a demolição da disciplina penitencial. Na igreja dos Jesuítas de Coblença - Coblença antes era uma cidade católica eminente - o número das confissões em poucos anos passou de setenta mil para vinte mil. Isto adveio no preciso momento em que a imoralidade, especialmente no campo sexual, aumentou fortemente. E por esta conduta os teólogos católicos, especialmente os moralistas, criam uma boa consciência para os homens! Eles rebaixam as exigências morais, trocam o Deus vivo e verdadeiro por aquele construído pelos seus pensamentos.

A alegria infantil entre os católicos alemães diminuiu assustadoramente. Disto é responsável, por uma parte notável, o hedonismo sexual que certos teólogos morais com a tolerância dos bispos determinaram como uma licença de franquia. A epidemia das separações prende os católicos com sempre maior força. De todo comum é entre os católicos a aspiração ao prazer, ao gozo e as satisfações em medida preocupante no lugar do cumprimento do dever, da renúncia e do auto-sacrifício.

De todo alarmante é a situação no campo do cuidado das almas juvenis, mesmo se certamente existem ainda hoje pastores de almas que cuidam com zelo e de modo justo da juventude.

Causas do regresso da frequência a Igreja

Entre as causas mais determinantes do distanciamento dos fiéis vão indicadas a introdução do culto interconfessional e a depravação da pregação cristã.

Quando os frequentadores da Igreja ultrajados pelo púlpito, quando os ateus são apresentados como modelos, quando um humanismo universal substitui o Evangelho e as verdades da fé são abertamente negadas, então similares comportamentos com o passar do tempo abalam a paciência dos melhores católicos, para não falar dos muitos que frequentam o culto não pelos motivos mais nobres.

Uma responsabilidade não menos leve, segundo May, diz respeito a reforma litúrgica por ter deixado a rédea solta para a propagação de experimentos de todo gênero. A coisa mais sagrada que possuí, a Eucaristia, se tornou um campo de justa (Ndt.: Torneio medieval de cavalaria) dos ideólogos e fanáticos entre a consternação e a dolorosa surpresa dos fiéis. Mesmo o abandono do canto gregoriano, da língua latina e da música eclesiástica tiveram o seu peso. Se resumiu tanto, lamenta May, que a noite de Natal, as pastorais, agora as cantam só os protestantes.

Mas existem outras coisas bem mais graves neste processo de esfacelamento da vida cristã.

May recorda os matrimônios mistos in crescendo [8] e o declínio dos católicos ativos, daquelas generosas reservas de colaboração ao apostolado hierárquico por parte dos leigos: nunca se falou tanto do apostolado dos leigos como hoje, mas também nunca se viu um declínio dos católicos ativos, como vemos hoje.

No lugar das orações discussões sobre discussões nas assembleias - mesmo episcopais - com perda de tempo e de prestígio espiritual.

Os chamados sínodos comunitários, como são reconhecidos, se mostram um fiasco completo. Esses aprofundam o catolicismo alemão ainda mais baixo do quanto não fosse antes. Nesses sínodos desembocam todas as tendências destrutivas de uma teologia que foi abandonada pelo bom espírito. O fato que um douto como Hubert Jedin tenha recusado a chamada ao sínodo, o fato que Paul Mikat e Joseph Ratzinger o tenham abandonado, me parece muito significativo.

A lei apóia as boas forças do homem, por isso deve ser reconhecida e respeitada. Os progressistas em geral não conhecem o chamado homem moderno de quem tanto falam e escrevem. Uma Igreja que cala sobre o pecado, o juízo e o inferno, que não anuncia nem mesmo a majestade de Deus nem ensina o temor de Deus; uma Igreja da qual não se vê a honra da eternidade..., esta Igreja está perdida. Para deveres humanitários e por um pouquinho de horizonte religioso da vida, seja como como for, não há necessidade da Igreja Católica.

Por outro lado, é também falso que, com a finalidade de atrair os homens, se deve dar prioridade as exigências por razões táticas, como pensa o Cardeal König. Isto para May é duplamente vezes falso. As demandas da Igreja não podem motivar-se por razões táticas, mas devem vir da própria essência. Essas não devem ser meio de cálculo político. Quando os pastores da Igreja tomarem novamente para si o lema do Cardeal von Gallen, «Nec laudibus nec timore», quando eles olharam a cruz, então começarão a retormar a própria credibilidade.

Em conclusão: a Igreja se encontra envolta em uma crise de dimensões enormes. Todos os responsáveis ainda não tomaram consciência da tremenda seriedade da situação. Muitos - e quantos! - se consolam ainda com os restos de uma vida religiosa que eles não suscitaram e nem receberam. Uma pedra, exposta por longo tempo aos raios do sol, se mantém por um certo tempo aquecida, mesmo depois que o sol se pôs. No catolicismo alemão ainda existe alguma força e alguma vida criada pelas precedentes gerações de leigos e sacerdotes. Deste capital ainda se nutre o progressismo. Mas o que será quando ele estiver completamente em ruínas?

A reconstrução

Então, se pergunta May, começando com a conclusão: como deve começar a reforma? E responde que essa deve ser feita antes de tudo por cada pessoa e em pequenos grupos que zelem pela honra da casa de Deus. O esplendor do seu zelo acende outros: se gera um movimento, uma corrente, uma tempestade. E a alma de todos é o Espírito de Deus. Para que se distinguam dos outros, se produz um conflito com o status quo. No clero e no povo aos poucos se gera um amplo movimento... que cria uma atmosfera, um clima. A autoridade a princípio contrasta, depois se une.

Quando a reforma chegar a elaborar as demandas jurídicas da Igreja, buscará estabelecê-las e institucionaliza-las, isto advirá com o direito. Vontade de reforma e estima da ordem jurídica eclesiástica são incindíveis.

Mas como atuar a verdadeira reforma das almas? Se pergunta May.

Em primeiro lugar. A «primeira» coisa necessária, responde, é a nossa conversão pessoal. Porque a ruína veio do clero, do clero deve vir a cura e a salvação. Santificação pessoal. A muitos de nós falta a força para com nós mesmos. Nós somos muito filhos do nosso tempo que é mole, fraco e caduco. O bem estar a muitos de nós fez bem. O prazer da mesa, de beber, de fumar, das viagens, talvez também os prazeres mais perigosos ameaçam de nos tirar a liberdade.

Em segundo lugar. O povo fiel, mas também muitos dos nossos confrades, assim como muitos bispos, de fato, devem ser iluminados sobre a situação real. Reconhecer que estamos fora da estrada.

Em terceiro lugar. Se trata que o nosso primeiro dever como sacerdotes é o de levar os homens a Deus.

Em quarto lugar. Unir os conformistas em uma ação comum e instituir para este fim círculos de sacerdotes e leigos. Ele assinala nesta linha a conferência do Cardeal Höffner: O sacerdote na sociedade permissiva.

Em quinto lugar. Fazer o possível para influir sobre o ambiente, com a imprensa e a publicidade, contra um cristianismo de sacristia, preguiçoso e retrogrado.

Em sexto lugar. Empenhar-se em reformular com clareza a antiga fé, segundo o Credo de Papa Paulo. Deve terminar a confusão, se o que se quer é a resistência contra o mundo!

Em sétimo lugar. Atuar uma conduta iluminada para com a autoridade, tendo presente a constatação que vivemos em uma época de falta de guia.

E May não deixa de acenar a delicada posição do Papa. O Papa, ele observa, tem sem dúvidas em muitas ocasiões defendido a reta fé; sobre sua ortodoxia em geral não se pode ter alguma dúvida. Mas só com discursos, ao que parece, hoje não se faz muito. Hoje servem apenas os fatos, fatos enérgicos e, se necessário, sem consideração. Os discursos belos e inumeráveis por parte dos pastores são estéreis se não são seguidos pelos fatos: a saber as causas da confusão, que eles querem denunciar, não forem removidas. E se diga aos bispos isto: quem não apaga um pequeno fogo, pode esperar um grande incêndio. Muitos bispos se deixam influenciar pela base. Um exemplo: na última assembléia do sínodo dos bispos foi afirmado sem ser desmentido que o Papa concederia liberdade de consagrar homens casados, se o sínodo se pronunciasse a maioria. A decisão [contrária] do sínodo [9] se deve a homens como Alfred Bengsch e Joseph Höffner.

Assim para as conferências episcopais, as quais seguem mais aqueles que falam mais forte, a saber os teólogos progressistas e o seu séquito. O que se tem, deste modo, é a impressão que se estabeleceu um prêmio para a contestação.

Conclusão

A Igreja se encontra sem dúvida em uma situação de emergência. Quando se encontra em uma situação de emergência - para falar como o general supremo Beck, um dos principais conjurados de 20 de julho - se devem usar meios incomuns: então, os católicos responsáveis devem ter em mãos meios incomuns. Nos casos em que a guia da Igreja se deixasse convencer pelos progressistas, por fraqueza ou vileza em modo clamoroso, a decisões e leis prejudiciais, não se deve esperar segundo o meu juízo consciente a obediência. Quando se garante o ingresso da destruição na Igreja, a oposição não é só permitida, mas é um sagrado dever [10]. Então, para May, e não apenas para ele, a situação atual na Igreja é de extrema gravidade e se encontra nos limites de uma ruptura.

O cristão, conclui May, que crê firmemente na indefectibilidade da esposa de Cristo, crê sempre que as portas do inferno não prevaleceram. Ele busca, concluamos nós, operar com fervor pela verdade na caridade e esperando com humildade «...a alvorada aguardando o nascimento» [11].

L’avventura della teologia progressista, Parte seconda: Teologia Morale, Cap. 5 Decadenza e crisi del sacerdozio nell’attuale crisi della Chiesa, pg 285-304, Padre Cornélio Fabro

*Sigo o ensaio de G. May, Niedergang und Aufstieg der Seelsorge, in «Der Fels», a. III, 7-8 de julho de agosto de 1972, pgs. 201-210. As observações de May dizem respeito diretamente ao atual catolicismo alemão, mas indiretamente refletem também o resto da Europa que sofre fortemente (e a Itália talver em modo maior que outras nações) o urto do paroxismo teológico que cala do Norte da Europa com a avalanche de traduções dos teólogos do dissenso.
Notas:
[1] - O autor, também tocou de forma mais sintética o argumento nos ensaiosPriesternot und Priesterkrise, ed, 2, Mainz 1971; Zölibat und Zölibatskrise cit., pp. 15 ss. (extrato).
[2] O autor, além dos dois ensaios já citados, ele toca a crise do clero também em Bemerkungen zu der Priesterfrage in der Gegenwart, in «Theologisches», febbraio 1973, coll, 736-740.
[3] O May refere-se aqui a uma publicação sua de 1965 sobre o argumento (veja também mais abaixo, p. 304, nota 8).
[4] Itálico do tradutor.
[5] O autor, refere-se aqui ao seu livro Passaggi e conversioni, del 1967.
[6] Na Itália, algumas editoras se lançaram de cabeça nas publicações e traduções das teologias progressistas, especialmente algumas editoras como Queriana de Brescia, Edizioni Dehoniane de Bolonha, Vallecchi de Florença, Edizioni Paoline de Roma, Gribaudi de Turim, de Assis e agora também Città Nuova de Roma...
[7] A este propósito May refere um episódio do sacristão de uma grande igreja protestante de Turíngia: «Como haveis construído uma igreja tão grande?». Resposta: «Senhor, esta Igreja antes era plena de gente. Veio um pastor de Greisfswald e disse: “Jesus era filho de Deus”. Depois veio um de de Rostock e disse: “Jesus era um simples homem!”. Enfim, veio um de Tubingen e disse: “Jesus jamais existiu”. Então a gente disse: “Se nem mesmo os pastores estão de acordo sobre que se deve crer, então, não existe mais razão de vir a Igreja”»
[8] Cfr. sobre este árduo argumento, que para May é de importância primária nos Países de religião mista, o seu estudo: Die Mischehenfrage auf der ersten Generalversammlung der Bischofsinode, in «Oesterreichisches Archiv für Kirchenrecht», 3, 1970, pp. 233 ss. Cfr. também os volumesKatholische Kindererziehung in der Misckehe, Paulinus-Verlag, Treviri 1965; Mischehe heute, Mainz 1970.
[9] O terceiro sínodo dos Bispos (outubro de 1971), malgrado as fortes pressões anti-celibatárias que se anunciavam dentro e fora desse, confirmou a lei do celibato dos sacerdotes alinhando-se resolutamente a mens bem conhecida do Pontífice.
[10] Obviamente, segundo todo o contexto deste de outros artigos, A. se refere aqui a eventual desviação e aberração das guies das Igrejas particulares não ao romano Pontífice que ele indicou como defensor extenuo da ortodoxia e da disciplina, vítima muitas vezes das resistências dos representantes do episcopado e até mesmo de algumas conferências episcopais.
[11] Divina Comédia, Par. XXIII, 9, Dante Alighieri.

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