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quinta-feira, 14 de junho de 2012

DON DAVIDE PAGLIARANI: CREIO NA IGREJA «UNA» – REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE PLENA E NÃO PLENA COMUNHÂO

Don Davide Pagliarani
[Tradução Gederson Falcometa]



É absolutamente insustentável o princípio de que a Unidade deve ser recomposta: é devido, ao invés, cumprir todos os esforços para recolher os “separados” na Unidade que a Igreja jamais perdeu e jamais perderá“.
É agora comum no vocabulário a expressão de “comunidade cristã” em “não plena comunhão” com a Igreja, e através deste conceito serem justificadas as inumeráveis iniciativas ecumênicas as quais assistimos. Mas examinando-a à luz da doutrina tradicional, descobrimos que isso é incompatível com a própria natureza da Igreja.
Entre os elementos mais significativos introduzidos pela eclesiologia do Concílio Vaticano II há, como se pode notar, uma noção “analógica” do conceito de comunhão com a Igreja; referimo-nos a concepção que admite a possibilidade de união com a Igreja Católica em vários graus ou níveis: se temos assim uma plena comunhão e uma não plena comunhão, que então, se obtermos as consequências mais lógicas deste princípio, podem ser declinadas em mil modos: uma comunhão imperfeita, uma comunhão “as margens”, uma comunhão crescente, uma comunhão virtualmente existente, etc…

Este elemento, longe de revestir um interesse puramente acadêmico, é na realidade indispensável para assegurar dinamismo ao movimento ecumênico e, sobretudo para dar um fundamento eclesiológico as convergências (1) sobre o qual esse se funda e que entende estimular: estamos persuadidos que exatamente neste ponto se encontre principalmente o elemento doutrinal mais necessário e funcional a tal escopo. Na verdade todos os elementos cristãos presentes nas falsas Igrejas (a definição é obviamente incompatível com a nova eclesiologia) são apresentados como um reclamo a unidade da qual a Igreja Católica possuí em plenitude. Neste sentido eles já estariam operando e de alguma forma se delineariam já positivamente como fundamento de uma certa unidade: a comunhão já está presente ainda se não é ainda plena; é a não plena comunhão, mas contudo, comunhão.
Para dar um exemplo, nesta perspectiva o sacramento do batismo administrado nas igrejas luteranas ou a fé em Cristo Salvador, sendo materialmente elementos comuns com o Catolicismo, seriam já fundamento de uma certa unidade em nome da qual se pode já pregar juntos ou se podem organizar encontros ecumênicos.
Notamos, no momento, que neste dinamismo não existe espaço para a conversão, mas só para uma alegada convergência comum que deve ser estimulada sempre mais para reconstruir a Unidade originária destruída pelo pecado de todos.
Notamos também – com uma pitada de compreensível ironia – que mesmo os “lefebvrianos” estariam neste estado de não plena comunhão com a Igreja, mas, contudo em comunhão.
Na realidade para ser fiel a Tradição constante da Igreja, um “lefebvriano” como todo católico se vê obrigado a recusar o emprego desta noção. A comunhão com a Igreja é por natureza uma realidade unívoca e indeclinável: ou se é em comunhão ou não se é. Ou se pertence à Igreja ou não se pertence. Nas reflexões que seguem procuraremos ilustrar por que.

A nova orientação eclesiológica

Antes de entrar no coração das nossas considerações, parece oportuno dizer uma palavra sobre a atual orientação eclesiológica sobre este ponto crucial.
Se tenha bem presente que as análises da teologia contemporânea do fenômeno das divisões entre os cristãos se baseia sobre critérios puramente historicistas e naturalistas. As separações seriam fruto de ciúmes, brigas, caprichos, de pecado, dos quais todos os cristãos teriam se manchado no curso dos séculos. Consequentemente o movimento ecumênico seria a recomposição da Unidade iniciando a partir de uma autêntica purificação da memória para cancelar os vestígios de pecado que ainda permanecem. Deste pecado teria sido manchada de qualquer forma também a Igreja Católica igual aos outros: este primeiro elemento fornece já uma útil chave de leitura para o clamoroso meaculpismo do qual somos os espectadores nestes últimos anos, no qual é a instituição a ser envolvida e a ser responsabilizada.
Dizemos subitamente que este status quaestionis é inaceitável e, sobretudo pressupõem uma solução de Unidade que não é católica. O pecado contra a Unidade é um pecado contra a Igreja Católica é inadmissível que Está seja, mais ou menos diretamente, arrastada sobre o banco dos imputados quando não outro que a única vítima de todos os cismas e de todas as divisões entre os cristãos que a história conheceu. O verdadeiro pecado do qual é preciso se purificar para reentrar na Unidade se chama “cisma” e por definição se trata de um pecado que não pode ser cumprido pela Igreja (2) nem de quem é membro da Igreja, porque no momento no qual é cometido se separa da própria Igreja. É o pecado de separação dos “irmãos separados” e, necessariamente, não pode ser ninguém além deles(3).
Não esqueçamos que o movimento ecumênico nasce e se desenvolve em ambiente protestante, bem antes do Concílio; ter aceitado as regras do jogo, apenas a partir do Concílio, pressupõem um inadmissível desprezo pela Igreja do passado, considerada de qualquer modo culpada, e pela obra generosa de dezenas de Papas e Santos que são prodigalizados por reclamar ao único rebanho os “irmãos separados”, através da reconversão ao Catolicismo.
Notamos também que neste contexto a noção clássica de “cisma” perde na prática o seu significado tradicional; o pecado contra a Unidade da Igreja torna-se mais o pecado de quem recusa o ecumenismo e a tipologia da recomposição que este propõe: está recomposição, porém tende a uma forma de unidade absurda e improponível a consciência católica.
É absolutamente insustentável o princípio de que a Unidade deve ser recomposta:é devido, ao invés, cumprir todos os esforços para recolher os “separados” na Unidade que a Igreja jamais perdeu e jamais perderá.

-1-
A Igreja é o Corpo Místico de Cristo

Antes de tudo não devemos esquecer que a peculiaridade da Igreja é de ser uma sociedade essencialmente sobrenatural na qual se encontram e se harmonizam o elemento humano e o elemento divino. Isto pressupõe, na questão que nos ocupa, o critério de avaliação diverso daquele comumente utilizados no examinar uma sociedade puramente natural.
Para bem definir o problema devemos então focalizar a atenção sobre o fato que a Igreja é, na História e através da História,, a continuação da obra de Encarnação, sem a qual Essa seria impensável. Porque o Verbo assumiu uma natureza humana completa e uniu de forma perfeita na Sua pessoa as duas naturezas humana e divina, a continuação no tempo desta obra se realiza na instituição que Ele fundou e que o representa a um título único e exclusivo, na qual – e somente na qual – os homens encontram e assumem todos aqueles elementos sobrenaturais necessários a sua santificação e a sua incorporação a Cristo mesmo, do qual o Corpo Místico tornam-se membros através do Batismo.
Uma vez incorporados a Cristo, os homens, permanecendo tais, são revestidos pela graça e pelos dons do Espírito Santo, isto é por elementos puramente sobrenaturais: neste sentido a Igreja é a continuação da Encarnação na História.
Sobretudo devemos notar como a união das duas naturezas na Pessoa do Verbo representa o que é mais original, inseparável e indivisível pudesse ser realizado e isto por uma razão bem precisa; A pessoa na verdade é “irrepetível”, para usar um termo caro a mesma filosofia moderna. Isto significa que não pode existir mais de uma unidade na mesma pessoa, mais do que isso, enquanto na pessoa é alcançado o apogeu da unidade. Está unicidade é tão absoluta que toda pessoa representa uma realidade única, perfeita e completa.  Se pode existir no criado mais gatos ou mais cavalos, existe um só Júlio César ou um só Roberto Bellarmino: a pessoa é então um unicum irrepetível e incomunicável.
Consequentemente uma pessoa que fosse divindade nas partes essenciais que a compõem, como alma e corpo, ou que por absurdo fosse repetida, como se fossem dois Júlio César, cessaria simplesmente de ser pessoa.
Mas se isto é verdade de uma pessoa humana, quanto mais isto é verdadeiro de uma pessoa divina e – analogicamente – do seu Corpo Místico(4) que continua a missão nos séculos?
Por conseguinte e por analogia, os membros deste Corpo cuja cabeça é Nosso Senhor, não podem ser parcialmente ligados a cabeça: ou eles são parte integrante do corpo ou não são mais parte do corpo de nenhum modo; ou existem no seu Corpo Místico Perfeito ou esse não podem existir em qualquer outro lugar, como se fossem seus membros imperfeitamente unidos.
O constatamos na realidade: para um membro não existe um estado intermediário no esse ao mesmo tempo pertence e não pertence ao nosso corpo; isto deve ser absolutamente admitido, sob pena de perda ou diminuição daquela perfeição absoluta e intrínseca da Igreja que se chama Unidade: a comunhão com a Igreja é uma só, porque se a Unidade da Igreja pudesse ser declinada em modalidade imperfeita cessaria simplesmente de ser Unidade.
Na verdade isto que por essência e por definição é perfeito – e então único e absoluto – não subsistiria mais, isto é cessaria de existir, no momento no qual ele pode ser inferior a perfeição única e admissível que específica e o caracteriza: em tal caso começaria a ser uma outra coisa, com outras características(5).


Os precedentes históricos

A eclesiologia contemporânea a qual fazemos referimento é decisivamente nova. Todavia, a raiz do erro que não está sujeito a qualquer coisa nova e historicamente coincidiu com a maior disputa cristológica que a História já conheceu.  Na verdade desde os primeiros séculos da era cristã o demônio procurou atentar contra o dogma fundamental expressão da verdade fundamental através do qual foi derrotado: a Encarnação, que é a união das duas naturezas na Pessoa do Verbo. Este duelo histórico, que conheceu mil diversificações e dificuldades, alcançou seu apogeu no seu encontro entre São Cirilo de Alexandria e Nestório no quinto século.
Não se deve então surpreender se a Unidade, qual prerrogativa única e inderrogável da Igreja Católica, Corpo Místico do Verbo Encarnado, seja hoje o dogma mais atacado e ofuscado pelas novas concepções eclesiológicas. Como no quinto século foi atacada a Unidade na Pessoa do Verbo, assim hoje essa é atacada na sua Igreja.

A conversão não é um resultado aritmético

Antes de prosseguir, entendemos precisar que as nossas considerações tem por objeto os grupos cristãos não católicos, aos quais foi reconhecida qualquer eclesialidade ou, contudo um estatuto legítimo de comunidade constituída; mantendo-se então sobre um plano estritamente eclesiológico, não entramos em considerações ligadas a pessoais percursos de conversão que podem ter lugar em um ou outro indivíduo pertencente a uma destas comunidades(6).
Também entendemos esclarece sobre um ponto que tocaremos ainda no curso das nossas reflexões: se trata de numerosos elementos comuns que o catolicismo tem com as diferentes confissões cristãs. É inegável, por exemplo, que a Igreja tenha muito em comum com os ortodoxos e consequentemente apareceria evidente uma não plena, mas significativa comunhão eclesial(7). Como primeiro e fundamental elemento de resposta tenhamos presente que está comunhão se baseia unicamente sobre a presença de elementos comuns considerados na sua materialidade; as nossas reflexões ao invés entendem evidenciar o valor formal destes elementos em relação a Igreja e a sua particular natureza.
O escopo desta distinção pode ser evidenciado com um exemplo concreto: não é óbvio que aqueles que têm em comum, a nível material, um grande número de elementos com a Igreja católica se converta mais facilmente e mais rapidamente do que aqueles que ao invés falta. Por exemplo, um não cristão poderia converter-se mais facilmente que um ortodoxo, embora este último tenha certamente “em comum” com a Igreja muito mais. Na verdade, se pode talvez afirmar o contrário: quem tem pouco ou nada em comum com a Igreja pode converter-se mais facilmente do que quem, em teoria, com o catolicismo compartilha quase tudo, mas tem aquela hostilidade para com a Igreja típica de quem se manchou com o pecado de cisma.
E a História esta ai para demonstra-lo: no último milênio a Igreja conseguiu converter milhões de pagãos, enquanto o número de reconvertidos do cisma do Oriente foi sempre baixo.
Então fundar a “reconstrução” da Unidade sobre a base de quantidade de elementos em comum entre as diversas confissões cristãs tomadas exclusivamente em seu aspecto numérico, significa analisar o problema sobre um plano puramente material e não ter em conta a realidade dos fatos e da verdadeira natureza do problema.

-2-
A Igreja é a esposa de Cristo

Bem conhecida é a analogia que São Paulo mesmo (8) utiliza para definir a Igreja como Esposa de Cristo.
Na realidade já no Evangelho Nosso Senhor utiliza freqüentemente o tema do banquete nupcial para apresentar o mistério da Igreja; está imagem recorrente encontra a sua expressão mais solene e definitiva no Apocalipse de João, no qual a eternidade beata é ilustrada através do ícone das nupcías entre a Igreja e o Cordeiro(9).

Porque o Novo Testamento privilegiou está analogia, em meio a tantas outras, a um título particular?
Matrimônio significa antes de tudo união estável e definitiva, exatamente aquilo que Nosso Senhor quer realizar com sua Igreja e através Dessa com as almas, membros do seu Corpo Místico. É evidente que as duas figuras da Esposa e do Corpo Místico se cruzam: onde existe autêntica união conjugal, marido e mulher se tornam um.
Ora, um matrimônio para ser válido deve antes de tudo voltado para a perpetuidade e a fidelidade absoluta e recíproca: sem estes pressupostos simplesmente não existe matrimônio válido.
Sobretudo notamos como o empenho a fidelidade absoluta e recíproca exprima e proteja a sacralidade do vínculo conjugal a tal ponto que uma só sombra contrária a este empenho repugna e aparece incompatível com o vínculo conjugal mesmo: aqui mais que em qualquer outro elemento encontramos significada a natureza do vínculo que Cristo quer com a Sua Igreja.
Este vínculo é único por duas ordens da razão. Antes de tudo ele pode existir validamente em um só caso: assim como a comunhão entre dois esposos pode existir só em um único caso e específico, enquanto um matrimônio é impedimento a um segundo matrimônio, assim a união entre Cristo e a Igreja pode existir só em um único caso preciso. Em segundo lugar este vínculo, onde existe, não pode ser declinado – ou diluído – em forma diversa: ele existe só em uma modalidade absoluta e perfeita.
Assim como a união verdadeira e legítima entre os conjugues existe só no matrimônio e não pode existir entre dois falsos “conjugues” que recusam – por exemplo – as obrigações do matrimônio, assim a união entre Cristo e a Igreja existe só na sua forma perfeita, ou seja, na única Igreja querida e fundada por Ele (10). Em termos mais simples um matrimônio ou é válido ou inválido; se é válido é necessariamente perfeito (11).
Nesta perspectiva – que é a única admissível – o conceito de unidade parcial, de não plena comunhão das falsas igrejas ou comunidades, aparece mais como uma tentativa de legitimação de uma união espúria ou de um matrimônio falso: ainda mais absurdo aparece a tentativa de valorizar este tipo de união como um elemento positivo e intrinsecamente válido para alcançar a perfeita união com Cristo na Igreja. Não é nunca demais repetir: seja sobre o plano teológico seja sobre o plano histórico uma falsa Igreja não é um meio para alcançar a “plena comunhão”, mas um instrumento funcional a manter longe as almas da única verdadeira Igreja(12).
Sobretudo a perspectiva criada pelo conceito de não plena comunhão pretende impor a Nosso Senhor das “esposas” de segundo classe que não se escolheu e que não pode aceitar como tais.
Ainda uma vez só a ideologia ecumênica poderia produzir um erro de tal magnitude, com o único resultado de provocar confusão e diminuição da fé na Unidade e Unicidade da Igreja Católica e – consequentemente – obscurecendo aos olhos dos errantes a necessidade absoluta de pertencer a Mesma ou de reconverter-se a Ela.

-3-
A Unidade da Igreja se funda sobre a adesão sobrenatural ao Único Verdadeiro

Devemos agora interrogar sobre os elementos que asseguram a Unidade da Igreja para em seguida aplicar as devidas conclusões ao problema que nos interessa.
Como é ensinado pela doutrina clássica existem na Igreja três fatores de unidade: a unidade de fé, a unidade de governo e a unidade de culto. Isto significa que na Igreja deve existir uma única fé, um único governo e uma única liturgia com os mesmos sacramentos e com ritos substancialmente equivalentes. Estes três fatores obviamente representam um unicum e não é possível escolher um excluindo um outro.
No entanto a fé tem uma prioridade lógica sobre os outros dois elementos, enquanto fundamento da vida cristã, porta e pressuposto fundamental de todas as outras virtudes sobrenaturais. Não por acaso a fé é a primeira coisa que o batizando pede a Igreja. A fé procura a vida eterna: é a segunda afirmação do batizando. Os sacramentos não fazem outro que fazer frutificar o germe da fé seminado com o batismo e o governo mesmo da Igreja não tem outro fim senão aquele de conduzir às almas a vida eterna. Neste unicum a fé tem então uma prioridade lógica. Focalizaremos então a nossa atenção de fé católica entendida como fator fundamental de unidade: isto permitirá dissipar alguns graves equívocos ao qual já tínhamos acenado e evidenciado imediatamente.
Se de fato estamos unidos no professar a mesma fé, com todos os seus dogmas, parecerá que existe realmente uma certa unidade com a profissão de fé luterana (só para dar um exemplo), enquanto cremos ambos em alguns dogmas: a divindade de Cristo, a vida eterna, a necessidade do batismo, o inferno, etc… Bem, sustentam os fautores do ecumenismo, é sobre este pontos comuns de elementos essenciais que devem ser aproveitados para reconstruir a unidade perdida por causa do pecado. Neste sentido os luteranos estariam em uma certa comunhão com a Igreja. Ainda mais o seriam os anglicanos e ainda mais os ortodoxos, enquanto compartilham conosco quase todos os dogmas.
Infelizmente a perspectiva é errada e reduz a fé a um conjunto de enunciados mais ou menos compartilhados pelas diversas confissões. Se trata de uma visão decisivamente “horizontal” e material de informações que deveriam ao invés ser levadas em consideração permanecendo sobre o plano sobrenatural que respeita a natureza intrínseca da virtude teologal da fé: é a “fé” vista por quem não mais a fé ou a está perdendo.
De um ponto de vista formal a Unidade que distingue quem professa a verdadeira fé não se baseia simplesmente sobre uma suma mais ou menos idêntica de dogmas, mas sobre o fato que nós nos submetemos sobre a autoridade de Deus que se revela e que fala através da Igreja: é este o motivo fundamental de Unidade para quem professa a fé católica. Ora, a autoridade de Deus que se revela não pode ser que Una porque Deus é Uno (obviamente com tais premissas e conteúdos dogmáticos não podem que ser absolutamente idênticos).
Portanto aqueles que acreditam em alguma coisa ou mesmo em quase todos os dogmas católicos, não pode fazê-lo pela mesma razão que nós indicamos, mas com base em persuasões ou convicções de outra natureza, o que excluí qualquer tipo de comunhão no sentido formal do termo. Resta apenas um traço comum, mais ou menos alargado, de tipo material e fenomenológico(13).
Em termos mais simples: qualquer um que compartilhasse todas as verdades ensinadas pela Igreja exceto  ainda que uma de fato no crer em todas as outras o faria não por obediência a Igreja, mas apenas a sua própria razão. Então também sobre o plano quantitativo e material teria muito em comum com o catolicismo, sobre o plano da fé (que como temos visto é aquele fundante de todos os outros) não se distinguiria substancialmente de quem recusa todos os dogmas.

-4-
O fim da Igreja é a salvação das almas

Finalmente devemos nos interrogar sobre a finalidade específica da comunhão com a Igreja. Na verdade também sobre este ponto existem graves equívocos: a pertença a Igreja freqüentemente reduzia a um mero sinal de identidade cultural ou religiosa, legitimado, sobretudo pela tradição local própria aos países católicos, o que justifica de fato qualquer percurso alternativo.
Na realidade o problema é decisivamente mais grave e deve ser avaliado em relação a missão da Igreja, fora da Qual não existe salvação.
A pertença a Igreja é então postulada por está verdade dogmática e o será em termo proporcional a magnitude desta mesma verdade.
Ora, a salvação como tal representa ao mesmo tempo o fim último da vida de todo homem e a razão de ser da Igreja. É uma realidade que não pode ser nem declinada e nem diluída: formalmente falando não é possível estar em um estado de quase salvação, de não plena salvação, de parcial salvação, nem teria sentido propor a qualquer um uma salvação imperfeita como um bem para a sua alma. Infelizmente a única alternativa a salvação é a danação, sem alguma sombra intermediária.
Consequentemente o vínculo com a Igreja (a comunhão), através da qual a salvação é veiculada, não pode em nenhum caso ser parcial sem ser absurda e então inexistente.
A oração de Jesus para a Unidade (14)
Entendemos concluir as nossas reflexões com qualquer consideração sobre a célebre oração de Nosso Senhor pela Unidade. Trata-se da notável passagem do Evangelho de São João (17, 11-21) na qual Jesus ora ao Pai afim que conceda o dom da Unidade aos apóstolos e aos crentes. A célebre passagem é sistematicamente utilizada para justificar o movimento ecumênico, o qual se auto certifica como resposta fiel ao ensinamento e a vontade explícita de Jesus expressa nesta mesma oração.  Na realidade, paradoxalmente está própria oração de Jesus desmonta e condena tal movimento.
Na verdade, quando Jesus pede qualquer coisa ao Pai, a sua oração é sempre infalível, isto é ele obtém sempre aquilo que pede(15): Jesus é Sumo Sacerdote e então Sumo Mediador, estabelecido como tal pelo Pai. Isto acontece sempre e necessariamente a menos que a mesma oração seja condicional, como acontece no Getsêmani, quando Jesus submete a vontade do Pai o êxito da sua solicitação. Na oração pela Unidade isto não acontece: Jesus pede a Unidade para a Sua Igreja como um bem absoluto e necessário. Portanto, Ele não pode senão que obtê-la e o Pai não pode senão que concedê-la. Se trata da Unidade absoluta, prerrogativa inamovível, da qual temos tratado, que a Igreja não poderá jamais perder e que não pode existir nem ser procurada, nem ser reconstruída do lado de fora Dela.
Fonte: Revista Tradizione Cattolica – FSSPX Itália
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Notas:
(1) «Convergência» é o termo empregado por Teilhard de Chardin – e mais tarde, abraçada pela maioria dos teólogos contemporâneos – para substituir o tradicional conceito de conversão, considerado obsoleto. Tratar-se-ia, em síntese, de fazer somente “convergir” todas as confissões cristãs evidenciando aquilo que elas tem em comum ao invés daquilo que a separa, “bypassando” deste modo o problema da conversão com tudo aquilo que essa comporta.
(2) Cfr. Sillabus, proposição condenada 38: «A divisão da Igreja em oriental e ocidental, contribuíram os excessivos arbítrios dos romanos pontífices».
(3) Não entendemos esconder o fato que também componentes linguísticos, históricos e humanos entraram em jogo, mas nenhum destes, nem sequer considerado em seu conjunto, pode ser considerado motivo suficiente de um ato tão grave como aquele da separação da Sé Apostólica. Seja naquilo que diz respeito as Igrejas vetero-orientais que aquelas ortodoxas, a historiografia contemporânea minimiza o problema dogmático acentuando muito as incompreensões linguísticas e as recíprocas tendências prevaricadoras. O problema essencial permanece ao invés o seguinte: «Não basta aceitar de boa mente os antigos documentos do magistério eclesiástico, mas que é também necessário abraçar com ânimo submisso e fiel tudo aquilo que a Igreja, com a força de sua autoridade suprema, nos manda crer”.» (Pio XII, Orientalis Ecclesiae). Nem é prova o fato que depois da Declaração cristológica comum entre a igreja assíria do Oriente, firmada em 1994 respectivamente por João Paulo II e Mar Dinkha IV, a igreja assíria persiste em uma situação de cisma, sinal evidente que outro é aceitar uma definição e outro aceita-la em função da autoridade da Sé Apostólica.
(4) A Igreja, para ser precisa, não é uma pessoa mas uma societas. Todavia, igual a pessoa, a Igreja é Una.
(5) Está conclusão pode facilmente ser suportada por um simples argumento filosófico. Onde existe um movimento em direção a uma perfeição última existe necessariamente um estado atual de imperfeição. Mais precisamente: onde subsiste uma potência a qualquer perfeição, significa que está última não está perfeitamente em ato. Se então a Unidade da Igreja pudesse subsistir também em formas não perfeitas, em direção a um progressivo aperfeiçoamento, significaria atribuir a Unidade mesma da Igreja a uma imperfeição inadmissível.
(6) Portanto além das nossas reflexões a questão do batismo no voto.
(7) Vale a pena gastar algumas linhas sobre este ponto. O Vigário de Cristo na terra, isto é o legítimo sucessor de São Pedro, não é um “elemento adicional” com ou sem o qual a Igreja permanece a mesma. O Sumo Pontífice é o vínculo visível da unidade, como a cabeça o é para o corpo inteiro. Portanto, removido este vínculo, não temos mais um corpo, mas um conjunto de membros descerebrados. O afirmava claramente Pio XII: «Em erro perigoso estão, pois, aqueles que julgam poder unir-se a Cristo, cabeça da Igreja, sem aderirem fielmente ao seu vigário na terra”. Suprimida a cabeça visível e rompidos os vínculos visíveis da unidade, obscurecem e deformam de tal maneira o corpo místico do Redentor, que não pode ser visto nem encontrado de quantos demandam o porto da eterna salvação» (Pio XII, Mystici Corporis). Analogamente sustentar uma eclesiologia que explicitamente recusa o primado petrino (nos seus sucessores) como pertencente ao ensinamento de Nosso Senhor tem, portanto, repercussões em toda a doutrina sobre a Igreja, que historicamente  lhe conduziu a um acentuado cesaropapismo e ao real problema da sintonia entre os diversos patriarcas.
(8) Cfr. 1 Cor 6, 15-17; 2 Cor 11, 2.
(9) Cfr Ap 22, 17; Ef 1, 4; 5, 27.
(10) O desenvolvimento da analogia pode ulteriormente corroborar o conceito. Os dois esposos depois do matrimônio, são uma só carne (cfr. Mt 19,6). Sobre o plano ontológico, então, entre um momento antes e um momento depois o matrimônio há uma diferença abissal. Vice-versa, no curso do noivado existe sem outro uma longa maturação que, entre o início e o período final imediatamente precedente ao matrimônio, leva, a nível humano, os dois noivos a um conhecimento muito maior. Porém, a nível ontológico, nada muda. Que os dois noivos se conheçam apenas ou que se conheçam já perfeitamente (como o dia antes do casamento), sua união conjugal, até não se casarem é ontologicamente  sempre a mesma: isto é nada, simplesmente não existe; sobretudo notamos como os dois noivos em todo momento estão privados de qualquer vínculo.
Uma distinção análoga pode ser aplicada a realização que intercorre entre as comunidades acatólicas e a Igreja. Entre uma comunidade calvinista e uma “igreja” ortodoxa existe certamente grande diferença sobre o plano material, mas sobre aquele ontológico nenhum: ambos não tem nenhuma união formal com a Igreja; próprio como dois noivos não tem nenhuma união matrimonial tanto um ano quanto um dia antes do matrimônio: não podem ser “imperfeitamente esposados” ou em estado de “não pleno matrimônio”! Ontologicamente, então, a união ou subsiste na sua forma completa ou não subsiste absolutamente.
(11) O nosso raciocínio se move naturalmente entre o plano ontológico, no qual isto que faz a validade é o conjunto e a perfeição dos requisitos, a prescindir dos limites e das dificuldades humanas e psicológicas que investem ao invés o plano pessoal e fenomenológico.
(12) É supérfluo repetir que isto vale para as falsas religiões enquanto tais, a prescindir das disposições subjetivas de quem lhe faz parte. Enquanto tais, na verdade, não podem jamais ser instrumentos de salvação, característica própria só da religião católica e isto por instituição divina.
(13) Se note que, neste caso, não importa a intensidade subjetiva do ato de fé; é bem verdadeiro que um adventista ou um mórmon pode ter uma “fé” muito mais intensa (ou fanática) que um católico e este último pode ser tíbio como freqüentemente acontece: isto que estamos analisando é a natureza intrínseca do ato de fé entendido como tal e os requisitos necessariamente devem ter para poder existir.
(14) Assinalamos sobre este tema o ótimo Pier Carlo Landucci, O verdadeiro significado de: «Ut unum sint» (Gv 17, 11.21), in Renovatio, anno XVII, n. 1, 1983.
(15) Suma Teológica, III, Q. 21, art. 4.

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