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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

MARCELLO VENEZIANI: CURSO INTENSIVO SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO



Tradução: Gederson Falcometa


Mas que coisa é exatamente o politically correct? O citamos todos os dias sem talvez entender todo o seu significado. Ofereço um breve guia, um resumo crítico e suco concentrado.

Para começar, o politicamente correto é um cânon ideológico e um código ético que monopoliza a memória histórica, o conto global do presente e prescreve como se comportar. Nasce das cinzas do 68, cresce nos EUA e no norte da Europa, se desenvolve substituindo o comunismo com o espírito radical (ou radical chic segundo Tom Wolfe) e substituindo a hegemonia marxista e gramsciana com o “carolismo progressista” (como o define Robert Hughes). Rompe as pontes com o sentir popular, não representa mais o proletariado, ao menos aquele das nossas sociedades; separa os direitos dos deveres e lhes liga aos desejos, rejeita os limites e os confins pessoais, sociais, sexuais e territoriais, em nome de uma liberdade sem limites, substitui a natureza com o querer dos sujeitos.


E substitui o anticapitalismo com o antifascismo, aderindo ao establishment tecno-financeiro do qual entende crer-se como o preceptor.

O polically corret é uma forma de reducionismo ideológico que produz as seguintes fraturas:

a) reduz a história, a arte, o pensamento e a literatura ao presente, no sentido de que tudo aquilo que aconteceu deve ser lido, reescrito e julgado a luz do presente, com base nos cânones corretos e aos gêneros;
b) reduz a realidade ao moralismo, no sentido que recusa as coisas como são e as reescreve como deveriam ser com base em seu código ético e de gênero;
c) reduz a revolução sonhada em vão do Século XX e no 68 a uma mudança lexical, no sentido que não podendo mudar a realidade das coisas e a imperfeição do mundo se mudam as palavras para indicá-la, adotando uma linguagem hipócrita e rococó;
d) reduz as diferenças ideológicas a uma super-ideologia global ou pensamento único, que se nega como tal.

As quatro reduções mencionadas acima, o politically correct acrescenta uma série de substituições:

1. substitui o sentir comum, o interesse popular, a ligação familiar e comunitária pela prioridade assinalada por algumas diversidades e minorias, consideradas discriminadas ou marginalizadas. E adota um esquema vitimista: não são os grandes, os heróis, os gênios a merecer honra, estradas, elogios unânimes mas as vítimas (herança cristã, notava René Girard) 
2. substitui o sentir comum, o interesse popular, a ligação familiar e comunitária com a prioridade assinalada por algumas diversidades e minorias, consideradas discriminadas ou marginalizadas. E adota um esquema vitimista: não são os grandes, os heróis, os gênios a merecer honra, estradas, elogios unânimes, mas sim as vítimas (herança cristã, notava René Girard).
3. substitui o nacional pela preferência - a nossa identidade, as nossas tradições, o nosso modo de viver, a nossa civilização e religião, as nossas ligações e as nossas competências - é substituída com a preferência por tudo aquilo que é remoto - as culturas e os costumes alheios, os imigrantes, os mundos distantes, as razões de quem vem de fora (aquilo que Roger Scrutton chama oicofobia);
4. substitui a antiga dicotomia entre o compatriota e o estrangeiro, ou a político militar entre o amigo e o inimigo pela dicotomia entre o Bem e o Mal, pela qual quem não está alinhado ao cânon não é alguém que pensa diferentemente nem um adversário a se combater mas é o mal absoluto a erradicar e aniquilar. Com o inimigo se pode chegar a pactos, se pode derrotá-lo e submetê-lo; o Mal não, ele deve ser cancelado e apagado da memória.
5. substitui o opositor, o dissidente, o antagonista pelo racista, inimigo da humanidade, do progresso e da razão. E lhe reserva um tratamento entre a patologia e a criminologia, acusando-o de fobias: é homofóbico, sexofóbico, islamofóbico, xenofóbico e assim por diante. Consequentemente não há disputa com ele, mas isolamento através de um cordão sanitário, confiado a profilaxia médica e prevenção nas escolas, universidades e mídias; ou quando é o caso é conclamado, confiado aos tribunais e a condenação. O prejuízo ideológico reduz os dissidentes a classe dos prejudicados ou condenados pela história, pelo progresso e pela razão. Não conflitos mas bombas humanitárias, operações de polícia cultural ou internacional.
Para o politically correct a realidade, a natureza, a família, a civilização até agora conhecida, vivida e nomeada estão erradas. O politicamente correto é o moralismo na ausência de moral, o racismo ético na ausência de ética, o carolismo na ausência de religião. Eis, brevemente o politically correct.  

Nota final dedicada a como se reagir. Quem recusa a imposição do politicamente correto e reage com o insulto contra os seus totens e tabus, entra a pleno título em seu jogo e lhe confirma o assunto e a disposição: se vê que tínhamos razão em dizer que o racismo, o ódio, a intolerância acolhem nossos inimigos? É uma forma estúpida e instintiva de resposta que reforça o politically correct. Não melhor sobre o plano da eficácia é a resposta oposta, mimética, de quem está no jogo, ajuda-os , calar ou agradar, respondendo com hipocrisia a  hipocrisia topetuda do politicamente correto. Mesmo neste caso se permanece sobre o seu terreno, se faz o seu jogo, se mira a uma sobrevivência imediata e individual prejudicando a perspectiva de uma visão alternativa mais ampla.

Muitas vezes nos limitamos a opor a ideologia a realidade, a sua narração a vida prática. Ao invés disso, partindo dela, se deveria tentar o esforço oposto: desmontar o seu tic, totem e tabu, usando a arma da inteligência, da comparação cultural, do senso crítico e irônico. E indicando percursos alternativos, leituras diferentes, outras prioridades. Aqui, infelizmente, a intolerância de uns se embate na insipiência de outros, fruto da ignorância, ignávia e indiferente.

Se o politicall correct domina, é também porque não encontra adequadas respostas. Só imprecações e silêncios. A cidade está nas mãos dos estultos, disseram ao soberano os mensageiros de uma cidade em revolta; mas e os “sábios” na revolta o que faziam, pergunta a eles seu rei Carlos D’Anjou? Perguntamo-nos também nós.

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