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segunda-feira, 4 de junho de 2012

MARIA GUARINI: FUSÃO DAS FONTES DE REVELAÇÃO COM O ABSORVIMENTO DA TRADIÇÃO PELAS SAGRADAS ESCRITURAS





Maria Guarini
Tradução: Gederson Falcometa

A Igreja é a guardiã do depósito sagrado da verdade revelada, em ordem aos quais são usados dois termos chave: Salvaguarda e Transmissão.  O primeiro indica o dever e a função da Igreja de guardar as verdades reveladas assim como as recebeu, sem mudança, acréscimo ou amputação; o segundo indica que a Igreja tem o dever e a função de transmitir a todas gerações tudo aquilo que recebeu e somente isto.

A Constituição dogmática sobre a Divina Revelação, a Dei Verbum, no III. Cap. Parágrafo 7-10 tem por objeto A transmissão da Revelação. O parágrafo 9 sanciona a relação entre Escritura e Tradição, o 10 aquele entre Tradição-Escritura e Igreja-Magistério. Exatamente aqui ocorre a confusão com a expressão “coalescunt un unum”, referida aos três conceitos: Escritura, Tradição e Magistério. E então Escritura, Tradição e Magistério tornam-se todos um, assim “não podem existir independentemente”.
Mons. Gherardini demonstra que a Dei Verbum  põe de lado a doutrina definida pelo Tridentino e pelo Vaticano I sobre “duas fontes” da Revelação (Tradição e Escritura), para fazer confluir Tradição e Magistério na Escritura. Na verdade, sobretudo no ponto 10 «o magistério precedente é varrido, através de um ensinamento de uma radical tanto quanto insustentável unificação”. Unificados são os conceitos de Escritura, Tradição e Magistério […]. A “reductio ad unum” da Dei Verbum, portanto, corrige se não propriamente não cancela literalmente o ditado do Tridentino e do Vaticano I».(1)  E isto porque a Tradição seria decantada da Escritura, da qual o Magistério não seria mais que uma formulação e uma comunicação; e “então em ultima análise uma retransmissão, segundo a própria natureza da Tradição”.  E ainda até o Vaticano II a teologia sustentou a teoria das “duas fontes” (Sagrada Escritura e Tradição) e lhe deduziu a distinção da regula fidei em próxima e remota: o Magistério é a regra próxima da Fé, enquanto Escritura e Tradição são a regra remota. De fato, é o Magistério da Igreja que interpreta a Revelação e nos obriga a crer aquilo que é contido nessa como objeto de Fé, para a salvação eterna.
O abandonamento da Tradição e do Magistério a favor da (luterana) Sola Scriptura, contida nos textos do Vaticano II, é confirmada também pelos fatos (“contra factum non valet argumentum”), in primis na contestação da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI de 1968 por parte de todo Episcopado, que criticaram abertamente o Magistério.

Por isso é necessário reiterar que as fontes da Revelação são duas: a Escritura e a tradição, que se integram permanecendo distintas. A Tradição, em gênero oral (e se escrita, não escrita por inspiração divina), transmite como os Apóstolos aprenderam do próprio Cristo e os discípulos dos Apóstolos. A Escritura não contém toda a Tradição porque nela são excluídas verdades transmitidas só oralmente quais, por exemplo, o Batismo das crianças, o número setenário dos Sacramentos etc… Portanto exaltada por toda a antiguidade cristã, ao lado da Sagrada Escritura, a Tradição qual canal transmissor da Revelação divina. Além disso, na Tradição faltam aquelas Verdades contidas na Escritura, de forma implícita e que a Igreja explicitou através dos dogmas que, em seguida,  são transmitidos com o Magistério.

Atualmente o problema não é só hermenêutico, é muito mais profundo, porque estamos diante de duas concepções diversas de magistério, fruto de uma verdadeira e própria revolução copernicana, coligada com uma nova concepção de Igreja nascida no Concílio, que desposou o fulcro de toda coisa do objeto ao sujeito.

1 – O Magistério bi-milenário da Igreja poderia dizer-se ‘vivente’ no sentido que transmitia segundo a necessidade de cada geração – mas cuidando da integridade na substância:eodem sensu eademque sententia – o Depositum fidei da Tradição Apostólica, fundamento objetivo, dado para sempre, embora se sempre ulteriormente aprofundado e clareado na sua inumerável riqueza;

2 – O magistério atual se diz ao invés vivente, em sentido historicista, porque portador da experiência subjetiva da Igreja de hoje (que será diferença daquela de amanhã) sendo sujeita a evolução determinada por variações contingentes ligadas a diversas épocas.

O papel do magistério – disse o atual Pontífice – é o de assegurar a continuidade de uma experiência, é o instrumento do Espírito que alimenta a comunhão «assegurando o coligamento entre a experiência da fé apostólica, vivida na originária comunidade dos discípulos, e a experiência atual de Cristo na sua Igreja ». E ainda: «Concluindo e resumindo, podemos afirmar portanto que a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes». (2) O problema está no fato que as coisas ou palavras definidas “coleção de coisas mortas”, na vulgata modernista são referidas ao “magistério perene” que teria se tornado “coisa morta” a ser substituída com o magistério “vivente”, identificado com aquele atual. Em tal modo vem conferida ao magistério uma prerrogativa que não lhe é própria: aquela de sempre se referir ao “presente”, com toda a mutabilidade e precariedade própria do devir, enquanto a sua peculiaridade é aquela de ser, ao mesmo tempo, passado e presente, transmitindo uma Verdade revelada que, concretizada no hoje de cada geração, pertence a eternidade. Caso contrário que coisa transmite a Igreja a está geração e aquela futura: só uma experiência subjetiva? Enquanto lhe é próprio exercitar uma função sempre em vigor, o qual ato é definido através do objeto,  ou através da verdade revelada e proferida.

Em suma mudou a dobradiça sobre o qual se funda a Fé, desposada do objeto-Revelação ao sujeito-Igreja/Povo-de-Deus peregrino no tempo e de fato transferido da ordem da consciência para aquela da experiência. É o fruto da deslocação da Santíssima Trindade, como ilustra “sapientemente” Romano Amério:  «Na base da presente perda se tem um ataque a potência cognitiva do homem, e este ataque leva finalmente a constituição metafisica do ente e ultimíssimamente a constituição metafisica do Ente primeiro, isto é a Monotríade. […] Como na divina Monotriade o amor procede do Verbo, assim na alma humana a experiência do pensado.  Se si nega a precessão do pensamento do experimentado, da verdade da vontade, se tenta uma deslocação da Monotriade».  Compreensível a subversão da realidade que lhe resulta. (3)
Maria Guarini
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1. Brunero Gherardini, Concilio Vaticano II. Il discorso mancato, Lindau 2011
2. Benedetto XVI, La comunione nel tempo: la Tradizione, Catechesi del 26 aprile 2006
3. Romano Amerio, Iota unum. Studio delle variazioni della Chiesa cattolica nel secolo XX, Lindau 2009, pag.315

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