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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DON CURZIO NITOGLIA: SÓCRATES





DON CURZIO NITOGLIA
Tradução: Gederson Falcometa

Introdução
Sócrates morre em 399 a.C. condenado formalmente por “impiedade”, ou seja, porque não cria nos Deuses da cidade e porque corrompia com as suas doutrinas a juventude de Atenas; mas a verdadeira razão da sua condenação a morte – como escreve Platão no Eutífron – eram os ressentimentos e os ciúmes de ordem política da parte da classe dirigente de Atenas. Foi-lhe ofertada a possibilidade de fugir, mas a recusa, bebe a cicuta que lhe vem dada pelos seus juízes, obedecendo como faz um soldado do pelotão de execução as ordens dos superiores. Como Platão disse que Sócrates havia cerca de 70 anos quando morreu, se deduz que nasceu cerca de 469-470 a.C.
Sua mulher era a famosa Xantipa definida como “a mulher mais insuportável daquelas que são, foram e serão” (Xenofonte, Simpósio, II, 10).
Ele havia um físico fortíssimo, capaz das mais duras fadigas e de resistir aos rigores do frio invernal descalço e coberto apenas com um fino manto. De aspecto era feio e desajeitado.
Sócrates não escreveu nada. Para conhecer o seu pensamento devemos recorrer aos testemunhos de seus contemporâneos e dos seus sucessores diretos: Aristófanes, Platão, Xenofonte, Aristóteles. Mas qual desses é mais confiável? Me parece que o caminho seguido por Giovanni Reale (Socrate. Alla scoperta della sapienza umana, Milano, Rizzoli 2000) seja a mais sábia. De fato, ele estudou todas as principais testemunhas de Sócrates, sem considerar nenhum absolutamente e unicamente privilegiado ao ponto de excluir os outros. Nenhuma fonte deve ser negligenciada, mas examinada e compara com as outras acuradamente. Então, “uma reconstrução de Sócrates pode ser feita somente tendo conta de todas as fontes” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, Milano, Bompiani, 2004, vol. II, Sofisti, Socrate e Socratici minori, p. 124).
A filosofia da natureza e do homem
Segundo Sócrates quem se ocupa de filosofia da natureza e se deixa absorver completamente por ela esquece a si mesmo, ou seja, aquilo que conta mais: o homem e os seus problemas (Xenofonte, Memoráveis, I, 1, 12). É certo que Sócrates deixou de lado o estudo da natureza, mas sem empreender alguma operação de superação da natureza a meta-natureza ou meta-física. Coisa que fez depois o seu discípulo preferido Platão para empreender a “segunda navegação” do sensível ao meta-sensível (Fédon). Sócrates, ao invés disso, deixou a natureza para dedicar-se ao homem. Então, falta totalmente um implante metafísico em Sócrates de modo que o pai da metafísica é Platão seguido e aperfeiçoado por Aristóteles.
Sócrates indaga pela essência do homem para poder depois falar dele (psicologia) e resolver os seus problemas (ética). Segundo Sócrates os sofistas falharam sobre este argumento porque não penetraram a natureza do homem então falaram-lhe de maneira inapropriada e depois resolveram mal os seus problemas.
O homem para Sócrates é a sua alma (psiché) porque é a alma que distingue o homem de qualquer outra coisa. Ora, ninguém antes de Sócrates havia entendido a psiché como alma, enquanto depois de Sócrates o pensamento europeu se funda sobre esta associação.
Sócrates ensina que a alma coincide com a sede da nossa atividade racional e com o nosso pensamento. Eis porque só a partir de Sócrates o homem adquire o seu verdadeiro sentido de sujeito inteligente (o problema do livre-arbítrio escapa a Sócrates). Na verdade, o pitagóricos e os órficos acreditavam que a alma fosse substancialmente diversa do homem e do sujeito pensante, consciente e livre. A unidade do homem era comprometida e negada ou pelo menos dilacerada. “Portanto, se pode bem dizer que Sócrates criou a tradição moral e intelectual da qual a Europa sempre viveu, desde então” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 137).
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A doutrina ou filosofia moral socrática pode ser compendiada em duas frases:
  • 1º) conhecer a si mesmo;
  • 2º) ter cuidado de si mesmo.
Ora, conhece a si mesmo não significa conhecer o próprio corpo, mas examinar-se interiormente e conhecer a própria alma com as suas operações intelectivas. Assim, ter cuidado de si significa cuidar e cultivar a própria alma e as suas operações o seu agir. Esta é a tarefa suprema da filosofia socrática e Sócrates se sentia encarregado pela Divindade de desenvolver esta missão a favor da educação do ânimo humano. E é por isto que Platão apresenta Sócrates como o médico espiritual da alma (Alcebíades Maior).
Xenofonte confirma a interpretação platônica de Sócrates quando escreve que para Sócrates “a alma é aquilo que no homem participa mais intimamente do Divino e é a parte que domina sobre o corpo” (Memoráveis, IV, 3, 14).
A ética socrática
Uma vez que os sofistas não haviam estudado a natureza do homem e não haviam podido individuar a sua verdadeira essência não conseguiram resolver o problema moral da educação do homem endereçando-o a colher o seu verdadeiro fim. Antes disso, havendo confundido o fim com os meios chegaram a deseducar e até mesmo a arruinar o homem.
A superioridade de Sócrates sobre os sofistas, segundo Platão, consiste propriamente no fato de que primeiramente o homem se distingue de todas as outras coisas pela sua alma. A verdadeira virtude humana para Sócrates consiste em assegurar que alma possa se tornar sábia, realizando o eu espiritual, inteligente e chegando, assim, a felicidade.
Intelectualismo ético
A virtude para Sócrates é sobretudo ciência e conhecimento. O vício, então, é sobretudo a ignorância, ou seja, a falta de ciência. Todavia, Sócrates não contrapõem, como fará Platão, alma e corpo. Então, não despreza, nem deprecia excessivamente, os valores naturais e físicos (força, harmônia, saúde, beleza, vigor…) se são subordinados aqueles da alma (conhecimento e liberdade). “Sócrates pode dar ainda um correto apreçamento aos valores tradicionais do corpo, na medida em que ele não entende o corpo como antítese da alma” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 151). A conclusão errônea tirada por Sócrates é que se a virtude coincide com o conhecimento ninguém peca voluntariamente ou por má vontade, mas só por ignorância. Isto é confirmado por Platão (Protágoras), Xenofonte (Memoráveis) e Aristóteles (Ética a Nicômaco). Nisto se vê quanto seja importante não separar o intelecto da vontade para não chegar a conclusão socrática do pecado como pura ignorância. Tocará a Platão aprofundar o pape da vontade no agir humano. Certamente permanece a grandeza de Sócrates no haver feito coincidir a natureza e a virtude do homem com a alma e sobretudo com o conhecimento, mas não podemos parar ai. Quando, Sócrates afirma que se um conhece o bem o quer necessariamente e invariavelmente, afirma que o conhecimento do bem é condição necessária e suficiente para ser virtuoso. De fato, se é verdadeiro que “nada é querido se antes não é conhecido” é também verdadeiro que a boa vontade torna bom o homem e má vontade o torna malvado. O defeito da ética socrática – que será corrigida pouco a pouco por Platão, Aristóteles e sobretudo Santo Tomás de Aquino – é um intelectualismo excessivo.
“Toda a ética grega, se comparada a ética cristã, resulta, no seu complexo, em vários modos intelectualista. E não só Sócrates, mas nem mesmo os filósofos sucessivos souberam prestar conta daquela dramática experiência humana que é o pecado. Esses tenderam, mais ou menos, a reduzir o pecado ou mal moral a um erro da razão” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 158).
O autodomínio e a liberdade interior
Todavia, não se deve esquecer que Sócrates introduziu na ética o conceito de senhorio de si ou autodomínio moral, que é “o bem mais excelente dos homens” (Xenofonte, Memoráveis). O senhorio de si consiste essencialmente no domínio sobre a própria animalidade, sobre paixões, sobre impulsos, nos momentos de dor e fadiga. Então, a alma se torna senhora do corpo, a razão senhora dos instintos. Ao invés disso, se o corpo predominar o homem se torna similar a um animal selvagem.
Antes de Sócrates a liberdade havia um significado jurídico e político. Com Sócrates essa passa a significar o domínio da racionalidade sobre a animalidade através do controle pela psiché. Dessa lhe segue a autarquia moral, ou seja, o ser autônomo que é propriamente o homem virtuoso e livre interiormente.
Segundo Sócrates a autarquia comporta três consequências:

  • 1º) ser independente dos impulsos físicos, dando o primado a alma;
  • 2º) só a alma é suficiente para nos fazer alcançar a felicidade;
  • 3º) quem se abandona as coisas sensíveis se torna dependem e perde a sua liberdade, autonomia, tranquilidade e felicidade.
Naturalmente em Sócrates a liberdade é sobretudo intelectual e racional e não é obra da vontade, não é a liberdade do querer sobre o prazer, mas é a capacidade do intelecto de impor ao corpo os próprios princípios.
O prazer segundo Sócrates
A arte de medir as coisas é fundamental para obter o verdadeiro prazer. Na verdade não é o prazer em si que pode nos tornar felizes, mas uma sábia medida dele. O prazer não é nem um bem e nem um mal em si mesmo, mas sendo um meio ordenado ao fim se si consegue a submete-lo a disciplina da razão então se torna alguma coisa de positivo, do contrário não. O mesmo vale para o útil. Segundo Sócrates é útil aquilo que ajuda a alma. O útil para o corpo lhe interessa só em função da utilidade para a alma.
A felicidade
O fim do homem é a felicidade e a filosofia moral socrática entende ensinar ao homem que coisa fazer para chegar a ela. A moral kantiniana do dever pelo dever é uma novidade da modernidade completamente desconhecida ao mundo clássico grego/romano. A felicidade é dada pelos bens da alma, ou seja, pelo aperfeiçoamento da alma mediante a virtude e especialmente a sabedoria intelectual. A felicidade não é dada nem pelos bens exteriores nem sequer por aqueles do corpo. Quando o homem chega a aperfeiçoar a sua alma mediante a virtude, ou seja, o conhecimento, então é plenamente si mesmo, é plenamente homem dotado de alma racional. Como se vê o conceito de felicidade com Sócrates é plenamente interiorizado.
Ao contrário também a infelicidade não vem de fora, mas de dentro do homem. Não são os outros a nos causar dano, mas nós mesmos podemos nos fazer os mais graves males. Platão faz dizer a Sócrates que “quem é bom tem na sua bondade a maior defesa do mal e ninguém o pode arranhar” (Apologia de Sócrates). Ânito que condenou a morte Sócrates não tocou Sócrates, mas prejudicou a si. Sócrates bebe tranquilamente a cicuta que Ânito lhe havia ordenado tomar sabendo que isto não prejudicaria a ele, mas a Ânito. Todavia, é preciso ter sempre bem em mente que a virtude para Sócrates é aquela intelectual e não aquela moral ou da vontade.
Além do mais, a virtude ou a sapiência humana não tem necessidade nem mesmo de nada acima de si. O conceito do além não é presente em Sócrates, que não afrontou teoricamente o problema da imortalidade da alma e então de uma sua recompensa eterna. “Ao nível da razão Sócrates não podia demonstrar a imortalidade da alma porque lhe faltava as categorias metafísicas requeridas para essa finalidade” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 170).
A morte mata o corpo, não danifica a virtude ou a sabedoria do homem. Essa destrói a vida, mas não o haver vivido sabiamente. Jan Patocka comenta:”porque a vida não é trocada pelo medo da morte, ela se torna uma demora unificada próxima ao fim, que é a felicidade e então ao homem sábio não pode acontecer nada de mal” (Socrate, Milano, Bompiani, 2003, p. 455). Quem acredita naquilo em que crê Sócrates tem a felicidade entre as mãos. Nada pode tornar nos infelizes. Os heróis do mundo grego são humanamente perdedores: Aquiles, Heitor, Antígona e Sócrates.
Sócrates e a política
Sócrates sente uma forte antipatia pela política militante. Todavia, ensinou alguma coisa sobre a política como ciência de viver em sociedade. O seu ensinamento diz respeito a polis grega e especialmente ateniense. Toda a sua doutrina política é dirigida ao serviço de Atenas.
Ele trabalhou toda a sua vida a fim de que os seus discípulos pudessem ocupar-se da coisa pública em Atenas do melhor modo.
Platão (Górgias) escreveu que a Divindade quer que Sócrates não fosse um político militante, nem um politicante, mas que ensinasse a filosofia política aos outros e lhe tornassem capazes de fazer boa política para o bem de Atenas.
O verdadeiro homem político para Sócrates é o homem moralmente bom, ou seja, sábio na alma e especialmente no intelecto, capaz de cuidar das almas dos outros cidadãos.
Sócrates criticou a democracia porque confiava na escolha da maioria a distribuição das funções e deveres, enquanto deveriam ser dispensados em base as competências dos indivíduos.
A Teologia socrática
Sócrates foi condenado a morte como réu de não crer nos Deuses em que acreditava as cidades de Atenas e porque havia introduzido outras novas Divindades (Xenofonte, Memoráveis). Então, não foi acusado de ateísmo, mas de “heresia nos confrontos da religião do Estado” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 179).
O pesado antropomorfismo (físico e moral) do qual era carregada a religião popular da sua cidade reputada aos deuses lhe repugnava fortemente.  Na verdade, Sócrates negava que os Deuses podiam ter paixões, sentimentos e costumes não só humanos mas também negativos. Já com Sócrates se nota a grande diferença entre religião pagã popular e a concepção filosófica sobre a Divindade que se aperfeiçoara cada vez mais com Platão e Aristóteles.
Reagindo contra o politeísmo exasperado da religiosidade popular, Sócrates se moveu para uma concepção filosófica/teológica da religião e da Divindade ainda que não tenha chegado ao monoteísmo. Na antiguidade não se chegou por Deus totalmente sobre o mundo, entre Divindade e cosmos não existe uma dualidade e uma transcendência, não havendo ainda Sócrates o conceito de pessoa o seu Divino não é um Deus pessoal e nem transcendente. Todavia, aplicou a Divindade a sua categoria de ética de virtude intelectual e falou de Deus como de uma Inteligência ordenadora, finalizadora e como “Providência’.
Xenofonte nos seus Memoráveis narra haver escutado um diálogo entre Sócrates e Aristóteles a respeito da Divindade, que se aproxima à uma demonstração da existência de Deus, e o resume assim:
  • 1º) o mundo não é efeito do acaso, mas é constituído para chegar a um fim e então requer uma inteligência que lhe tenha produzido;
  • 2º) o homem é uma espécie de micro-cosmo em que os órgãos são finalizados em tal modo para poder serem explicados só mediante uma inteligência ordenadora;
  • 3º) como a nossa alma e a nossa inteligência não se vêem, mas se vêem os homens inteligentes e os artífices próximos as suas obras e ninguém poderia dizer que fazem tudo ao acaso e sem reflexão, a inteligência e alma; assim é para a Divindade que não se vê, mas se vê as suas obras e não se pode dizer que são frutos do acaso, da irreflexão e da materialidade;
  • 4º) além do mais o homem é o único ser que seja provido de alma e de intelecto pela Divindade se lhe cuida mais que de todas as outras coisas e lhe tem uma espécie de “providência”. Sócrates neste ponto pôe um nexo ou uma analogia entre inteligência divina e humana.
Todavia, o argumentar de Sócrates sobre a Divindade é desprovido de qualquer elemento metafísico, é narrativo, intuitivo e serão Platão e sobretudo Aristóteles a dar fundamento metafísico as instituições do bom senso socrático.
Além disso, a ética socrática é totalmente separada da teologia ou da vontade divina, mas é toda centrada sobre a alma e sobre a inteligência humana que coincide com a essência do homem. A Divindade não intervém com prêmios ou castigos nem neste mundo nem no outro. A felicidade socrática é interna ao homem, ou seja, sua alma se ela é sábia. O sábio leva em si a sua felicidade e a sua recompensa, o estulto o seu castigo e a sua infelicidade.
Então, os valores morais ou melhor intelectuais não são impostos por Deus, mas uma vez que são valores supremos em si então a Divindade lhes reconhece e lhes aprova. Por isso a Divindade toma conta do homem sábio tendo em com esse a inteligência (“similia cum similibus”) e não trata de todos os homens. Como se vê é o exato oposto do pensamento medieval segundo o qual considerando que Deus ama uma pessoa a torna boa, enquanto para Sócrates uma vez que uma pessoa é sábia então Deus se lhe ocupa enquanto se assemelha a Ele quanto a sua sabedoria. A transcendência não se encontra em Sócrates, a sua filosofia é centrada sobre o homem e sobre seus valores. A sua filosofia não é antropocêntrica no sentido moderno como anti-transcendência, mas não é nem mesmo aberta ao transcendente: o transcendente é ausente por falta das categorias metafísicas ausentes em Sócrates, porém não é negado ou contradito.
O método dialógico socrático
Enquanto os sofistas tendiam a dar exibição de cultura, a conquistar o ouvinte também por lucro, Sócrates havia na mira o cuidado da alma e sobretudo do intelecto dos seus discípulos. Os sofistas segundo Sócrates estragam as almas dos homens porque não lhes cuidam, mas lhes tornam escravas das suas arengas. Na verdade, a alma do homem não cuida arengando as massas mesmo porque assim fazendo se descuida do individuo que escuta e se lhe funde na massa anônima e amorfa. A política moderna com o fenômeno das paradas de massa colocou no auge a prática dos sofistas e se distanciou de Sócrates e da tradição da metafísica clássica greco/romana e medieval, descuidou da educação do indivíduo para dissolver a individualidade na sociedade e no totalitarismo.
Sócrates cuidava das almas individualmente (em sentido sério) com eles e não monologando. O dia- “logos” para Sócrates consiste no uso do intelecto que procedendo por perguntas e respostas envolve mestre e discípulo em uma busca, em um aprofundamento da verdade, que é ensinada e demonstrada, fornecendo uma resposta as objeções sérias, resposta que faz avançar não apenas o discípulo, mas também o mestre que deve aprofundar o tema em questão para refutar as objeções e responder a cada “por que?”. Os temas tratados por Sócrates são de natureza ética, não metafísica. Ele mira a exortação a virtude, sobretudo a sabedoria intelectual. Nisto a filosofia romana será muito próxima a Sócrates que não a Platão ou Aristóteles, mas não será intelectualista como aquela socrática, bem que sobretudo prática.
Este ensinamento custou a Sócrates a condenação a morte. De fato, ele interrogava os cidadãos de Atenas e os ajudava a cuidarem das suas almas, ou seja, do seu intelecto e não serem escravos dos erros destilados pelos sofistas e pelos chefes da cidade. Para muitos Sócrates era um incômodo, uma espécie de “grilo falante” que colocava a alma nua e lhe corrigia as suas incongruências. Por isso como Pinóquio esmagou o grilo falante assim os chefes de Atenas condenaram a morte Sócrates.
A ironia socrática
Na sua busca pela verdade Sócrates se serve da ironia, que etimologicamente significa “dissimulação”. Na verdade ele, levava o interlocutor a exprimir-se livremente e totalmente sem hesitação e eventualmente lhes objetava contra seus prejuízos e erros, esconde a própria sabedoria, finge não saber quase nada e depois o leva a descoberta da verdade. No primeiro momento de irônia Sócrates levava aquele com o qual debatia a reconhecer a própria presunção e então a própria ignorância. Ele o constringia a definir exatamente o tema sobre o qual se falava e depois estudando bem a definição dada lhe ilustrava as deficiências até fazer confessar ao interlocutor a própria ignorância. Mediante este método questionador Sócrates livrou muitos da ignorância e lhes levou para abusca da verdade, mas fez também muitos inimigos, que fazendo parte da classe dirigente de Atenas o fizeram ser condenado a morte. De fato, os medíocres não apreciaram as refutações socráticas e considerando que “a soberba lhes impedia de admitir não conhecer realmente, acusavam Sócrates de confundir as idéias e de ser um semeador de dúvidas” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 208). Na realidade, Sócrates destruía as falsas certezas dos sofistas, fonte para eles de ganho, e depois conduzia a aquisição de certezas reais, fonte de liberdade interior. Sócrates ensinava mediante um método “maiêutico” porque ajudava as almas a “dar a luz” a verdade como uma “parteira”.
Sócrates não ensina verdades entregando-as de fora belas e prontas aos seus discípulos, mas mediante o debate, a refutação, a ironia e a maiêutica leva as almas dos discípulos a descoberta da verdade. O discípulo é assim ocasião também para o mestre de aprender a aprofundar a sua ciência. Para Sócrates o verdadeiro sapiente, ao contrário do sofista, sabe não saber tudo de todas as coisas e assim é também um verdadeiro mestre que acende no discípulo a chama da busca da verdade e do melhoramento moral.
Sócrates e a lógica
Sócrates descobriu o conceito ou a idéia intelectual bem distinto do conhecimento dos sentidos, além disso colocou o debate e o raciocínio na base de sua busca filosófica, mas se pode considerar com isto o fundador da lógica européia?
Os historiadores da filosofia o negam asserindo que o método dialógico ou raciocinativo socrático tem um fim ético e a lógica, que também é inegavelmente presente no seu método de busca, é colocada em segundo lugar. Na verdade, Sócrates não havia ainda a sua disposição os conceitos de “universal”, “essência”, “idéia”, “dedução”, que tomaram corpo apenas com o Platão da maturidade e foram postos em plena luz com Aristóteles. Sócrates não descobriu a natureza da idéia e da definição, mas abriu a porta a via que haveria conduzido a isto. É verdadeiro que buscava o que “coisa é” nos entes, mas não significa que houvesse encontrado a natureza ontológica da essência. Havia uma mentalidade rigorosa e inclinada a lógica, mas não elaborou a ciência lógica a nível teorético, se bem que a viveu em certo modo na sua busca pela verdade e no seu ensinamento, “na sua dialética se encontram os germens que levaram a futuras descobertas lógicas, mas não ainda conscientemente formuladas” (G. Reale, Storia della filosofia greca e romana, cit., p. 239).
Os limites da filosofia socrática
Sócrates não tratou de maneira teórica ou metafísica o problema da alma, não lhe deu a definição, não falou das suas faculdades, todavia falou daquilo que ela é em nós homens e de como nos torna sábios ou estultos. Será Platão a dar categorias metafísicas as descobertas morais, éticas e de bom senso de Sócrates.
A sabedoria socrática tem como objeto o intelecto e a alma, essa nos ajuda a melhorar nós mesmos ainda que sua mensagem era dirigida apenas aos atenienses, nem mesmo a todos os gregos e muito menos a toda humanidade.
Conclusão: atualidade de Sócrates
Sócrates, embora nos limites acima indicados, ensina também ao homem hodierno que aquilo que conta mais é a alma humana e a solução ética dos seus problemas. Então, a filosofia moral socrática – que pode ser compendiada em duas frases: 1º) conhecer a si mesmo; 2º) ter cuidado de si mesmo – ajuda o homem contemporâneo a examinar-se interiormente e a cuidar da própria alma e do seu agir.
Sócrates é portanto, ainda hoje o médico espiritual da alma do homem. A alma, segundo ele, é aquilo que no homem participa mais intimamente do Divino e é essa que domina sobre o corpo. Por isso Sócrates ajuda o homem de hoje no trabalho para que a alma possa se tornar sábia, realizando o eu espiritual e inteligente. Sócrates introduziu na ética o conceito (completamente extraviado pelo homem contemporâneo) de senhorio de si, que é “o bem mais excelentes dos homens”.
Isso leva
  • 1º) a ser independentes dos impulsos físicos, dando o primado a alma;
  • 2º) a chegar a felicidade espiritual;
  • 3º) a fazer nos entender que quem se abandona as coisas sensíveis se torna dependente delas e perde a sua liberdade, autonomia, tranquilidade e felicidade.
Por isso a infelicidade não vem de fora, mas de dentro do homem. Não são os outros a nos causar dano, mas nós mesmos podemos nos fazer os mais graves males.
Padre Curzio Nitoglia
26/10/2015
http://doncurzionitoglia.net/2015/10/28/socrate/
https://doncurzionitoglia.wordpress.com/2015/10/28/socrate/

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