Pesquisar este blog

terça-feira, 3 de março de 2020

DON CURZIO NITOGLIA: VERDADEIRO E FALSO CRISTIANISMO

L'Angelus, Jean-François Millet, 1857-1859

Don Curzio Nitoglia
Tradução: Gederson Falcometa

A VERDADEIRA VIDA não consiste única e exclusivamente em se alimentar e beber, em divertir-se e provar emoções e prazeres. Tudo isto sozinho não tem saída, não tem fim nem ideal: leva a morte sem esperança de ressurreição. É uma vida puramente animal a qual falta o essencial daquilo que nos torna homens: o “racional”, ou seja, conhecer a Verdade e amar o Bem com uma perspectiva sobrenatural e eterna. O homem, na verdade, é um “animal racional” (Aristóteles). O cristão além de homem tem em si a ordem sobrenatural, Deus, presente na sua alma, através da Graça santificante, mas de maneira limitada e finita.


O CRISTIANISMO INTEGRAL é uma coisa séria, não conhece meias medidas, os compromissos, os acomodamentos e as misturas dos princípios. Dos princípios absolutamente certos (Fé e Moral) tira conclusões lógicas, que levam a uma vida feita de Conhecimento da Verdade (Fé) e amor do Bem (Caridade). Mas não se pode conhecer o Verdadeiro sem combater o falso e o erro; não se pode amar o Bem sem odiar ou separar-se do mal. “Militia est vita hominis super terram” (Jó). É preciso ser absolutamente integro e intransigente nos princípios, mesmo se “elásticos”, misericordiosos e compreensivos por uma fragilidade e limitação nas questões de meios e de práticas.

“A GRAÇA NÃO DESTRÓI A NATUREZA, a pressupõe e a aperfeiçoa” (Santo Tomás de Aquino). Portanto, devemos antes ser verdadeiros homens e em seguida bons cristãos. Na verdade, A vida natural é a união da alma com o corpo, a vida sobrenatural ou cristã é a união da alma com Deus. A morte é a separação da alma do corpo, a danação é a separação da alma de Deus por causa do pecado.

Ser VERDADEIRO E INTEGRALMENTE CRISTÃO significa caminhar para uma meta que é Deus, sem desviar para a direita ou para a esquerda, por quanto a humana limitação possa permiti-lo. Uma das recomendações principais que devemos nos fazer sempre é aquela de não mentir jamais a nós mesmos e a Deus que vê cada coisa mesmo os pensamentos mais recônditos. É preciso aderir a Verdade mesmo se não nos dá prazer e se nos repugna.

O verdadeiro CRISTIANISMO é o contrário do MODERNISMO (“a cloaca para qual confluem todas as heresias”, São Pio X) para o qual não existe uma Verdade absoluta, objetiva, estabelecida, mas tudo é produzido pelas exigências ou pelo capricho humano. Deus é o produto do homem! Que absurdidade, depravação e degeneração! O modernismo é uma religião arruinada, infernal, degenerada e invertida. Pelo contrário, o verdadeiro cristianismo integral tem um único Fim, objetivo, o qual para se compreender é preciso estar disposto a tudo, mesmo a renegar ou dizer não a nós mesmos, aos nossos caprichos, interesses, gostos e prazeres, em resumo o eu corrompido pelo pecado original que ao invés é idolatrado pelo modernismo subjetivista. Eis a contraposição irreconciliável entre cristianismo e modernismo, entre Cristo e Satanás, entre luz e trevas, entre “eu” falso e ferido e Deus.
Esta é a nossa Fé, mas “a Fé sem as obras é morta” (S. Tiago II, 20). Então, é necessário tirar-lhes as conclusões e aplicar-lhe na vida prática e cotidiana. Saber e querer devem caminhar juntos, o solo conhecimento “incha”, a sola vontade é cega. Nós somos feitos para “conhecer, amar e servir Deus e mediante isto salvar a nossa alma” (Catecismo de São Pio X). 

O bom uso das criaturas é indispensável para a verdadeira e boa vida cristã. As criaturas (compreendendo nós) são meios e instrumentos aptos a nos fazer compreender o Fim Ultimo que é um só: Deus. Então, não devemos servir lhes mas fazer uso delas (no sentido bom e não utilitarista do termo). Isto é,  se lhes emprega “tanto quanto nos ajudam a colher o Fim, nem mais nem menos” (S. Inácio de Loiola). Também nós somos criaturas e meios para os outros. Não devemos nos trocar pelo Fim. Isto é narcisismo desordenado não cristianismo. A ordem é o meio ordenado ao Fim.

A desordem é quando o homem se coloca no lugar de Deus. Todos os maus derivam desta desordem, que é a subversão da ordem divina. O Modernismo é essencialmente esta revolução antropocêntrica. Não é um pecado de fraqueza ou fragilidade, mas do espírito e de firme propósito, cientificamente estudado e firmemente desejado. Deus não é o primeiro ou o Fim nem no intelecto, nem na vontade e nem sequer na sensibilidade do homem, mas o Homem é o “Fim” para si mesmo (Gaudium et spes, 24) e Deus uma produção sua!

Et ab occultis meis munda me”, de fato, cada um de nós ainda que não seja modernista, pode por fraqueza, colocar Deus em segundo plano, mesmo não explicitamente ou não plenamente consciente, mas praticamente no bem que faz ou acredita fazer.   Estas são as imperfeições que não vemos plenamente ou não queremos ver, procurando ocultá-las aos nossos olhos. Mas não podemos escondê-las aos “olhos” de Deus. Fazemos o bem para “glorificar” o nosso amor próprio mais que para dar glória só a Deus. É falta de pureza de intenção. É preciso ter atenção, porque “o homem olha a ação, mas Deus a intenção” (Imitação de Cristo) e no dia do Juízo nos encontraremos de mãos vazias diante de Deus, tendo feito o bem para nós mesmos e para a nossa “glória” através de uma secreta e imperceptível complacência nas nossas capacidades e ações. Devemos fazer caso só ao olhar de Deus e ao seu Juízo. Se nos deixamos influenciar pelos olhos e pelos juízos do homem significa que Deus não tem praticamente e realmente o primeiro lugar em nós. Devemos apenas pensar naquilo que acontece em nós de bem, para agradecer a Deus ou de mal para nos corrigirmos e não naquilo que acontece em torno de nós: seria respeito humano. Quando nos colocamos no primeiro lugar, na prática se não com palavras, vivemos na mentira. “Todos os males da nossa vida derivam do excessivo temor de desagradar aos outros ou do desejo desordenado de ser apreciados por eles” (Imitação de Cristo). Devemos pedir a Deus a luz e a força para endireitar esta falha, que subsiste na profundeza da nossa alma. Somente quando Deus for o primeiro na nossa vida, não só em palavras, mas também nos fatos, então seremos verdadeiramente cristãos.

Orgulho e Humildade. A verdadeira humildade de coração e não só de palavras consiste na verdade. A nossa vida é criada e nos é dada por Deus para Deus. A falsidade é pensar que a nossa vida é dirigida por nós e para nós.

Docilidade e Fortaleza são as duas virtudes de que precisa o verdadeiro cristão para suportar, aceitar e agir. Docilidade na aceitação e virilidade na ação. Sem docilidade a fortaleza se transmutaria em crueldade e sem fortaleza a docilidade em covardia. Devemos unir estas duas virtudes, como o intelecto e a vontade. Para dar um exemplo: temos amigos, mas também inimigos. É fácil viver com os amigos (ainda se apenas um é verdadeiro amigo que não trai jamais: Jesus Cristo). “O inimigo de hoje talvez será o amigo de amanhã e o amigo de hoje poderá ser o inimigo de amanhã” (Imitação de Cristo). Humanamente falando é difícil viver com os inimigos. Então, é preciso saber transformar em tesouro, sobrenaturalmente, das alegrias de uns e das penas dos outros para exercitar a virtude da paciência e de fortaleza. Penas e jóias são meios que devem nos ajudar a chegar ao Fim que é Deus. Tudo deve servir para o nosso desenvolvimento: louvores e afrontas. Se vivemos apenas para o nosso prazer não colocamos Deus no primeiro lugar. Ao invés, se Deus é realmente o Fim ultimo da nossa vida, então, as alegrias dos amigos e as penas dos inimigos nos ajudaram como instrumentos para nos unir a Deus. Peçamos a ele a graça de “saber suportar quem nos é adverso e de evitar quem nos adula e lisonjeia” (Imitação de Cristo).   

Aceitar e Fazer. Esta é a vida cristã. Aceitar tudo aquilo que Deus permite, mesmo aquilo que nos repugna, para fazer a Vontade de Deus, mesmo se é crucificante. Cruz deriva do latim cruciari, ou seja, ser atormentado. Quem recusa de ser atormentado recusa a Cruz e Jesus, e então se fecha o Paraíso. A verdadeira união com Deus é a união moral ou da Vontade, é a uniformidade a Vontade de Deus. Estou realmente em comunhão, ou em união de vida comum com Deus, se aceito a Sua Vontade em tudo aquilo que me acontece e faço o meu dever ainda que me pese e não me agrade.

Encontramo-nos mais uma vez diante da oposição per diametrum entre Cristianismo e Modernismo. O primeiro aceita das mãos de Deus tudo, alegrias e dores; “Deus deu, Deus tirou, seja bendito o Nome do Senhor!” (Jó). O segundo nos diz que “Deus” é um produto das necessidades do subconsciente humano, para tornar o homem feliz e satisfeito por si na experiência ou no sentimentalismo religioso. Deus é uma excrecência do egoísmo humano para saciar-se maiormente a si, é qualquer coisa que o homem se dá para ser ainda mais realizado como Homem. 

Aparência e Realidade. Forma e substância. Tudo aquilo que o egoísmo chama adversidade ou felicidade é a aparência, a superfície, sob a qual se esconde a substância: a Vontade de Deus, como Jesus está realmente presente sob as aparências ou espécies da hóstia de pão. Ora, se queremos fazer a Vontade de Deus devemos aceitar das suas mãos tudo: as alegrias e as dores. A Vontade de Deus está em toda parte e nós devemos ser felizes em toda ocasião, mesmo nas aparências da adversidade, vendo a substância da divina Vontade, que somente pode nos dar a verdadeira paz da alma. Certamente esta paz, impermutável do coração, que nada altera no fundo da alma, mesmo se a sensibilidade lhe ressente, não é fruto dos nossos esforços, mas da Graça de Deus. Peçamos lhe a Deus: é o dom mais precioso que podemos obter: calmos e compostos na alegria, calmos e serenos na dor.

a Verdadeira Paz Social.Não existem profissões baixas, existem apenas homens baixos”. Qualquer profissão, qualquer condição social é querida por Deus. Como no corpo humano existem os pés, as pernas, o coração e a cabeça, assim é no corpo social. E como os pés não podem fazer nada sem a cabeça, assim a cabeça não pode desprezar os pés porque são “baixos” (Apólogo de Menênio Agripa).

a Meditação não serve para obrigar a Deus a fazer a nossa vontade, mas para obtermos a força para fazer a Sua vontade. Rezar, sobretudo mentalmente, significa nos aproximarmos de Deus, entrar em comunhão de pensamento e de vontade com Ele. Se todos os nossos pensamentos e as nossas reflexões se tornam oração, então, encontraremos a verdadeira união com Deus e a verdadeira paz da alma.

Conclusão
Tudo isto parece exagerado e impossível. Do ponto de vista puramente natural o é, mas: “tudo posso Naquele que me fortalece” (São Paulo). Todavia o egoísmo, a própria comodidade, o capricho são quase onipresentes nas nossas obras e na nossa natureza ferida pelo pecado original. É preciso sempre retornar aos princípios do cristianismo, decididos a segui-los até nas suas ultimas consequências, sem acomodar lhes aos nossos caprichos. Os princípios não conhecem acomodamentos: 2+2=4, sempre 4 não quase 4 ou 4 e alguma coisa. Ao invés, quando se trata de método, de como empregar os meios podemos ser elásticos e concretos. Firmeza nos princípios porque se acredita, doçura nos meios porque se ama. Se nos deixarmos dominar por caprichos no campo dos princípios seremos “canas agitadas pelo vento”. Os caprichos por definição mudam continuamente e sem um porque. Se faltam os princípios ou se são diluídos em água,serão menos os verdadeiros cristãos, para dar lugar aos meio-cristãos. O cristão deve esforçar-se para ser um alter Christus.
Ora,
1º) Cristo é Deus e como Deus não muda, assim o cristão deve procurar não mudar continuamente os princípios do seu agir.
2º) Cristo é verdadeiro homem, então não devemos destruir a natureza humana em nós, mas educá-la e elevá-la sobrenaturalmente.
3º) Em Cristo a natureza humana e a divina são unidas na Pessoa do Verbo, mas não são misturadas, confundidas, são mantidas na sua integridade da Pessoa divina. Assim o cristão deve procurar subordinar e unir a natureza a Graça, recorrendo ao Verbo divino.
4º)Cristo não tem pessoa humana, existe uma só Pessoa divina que faz subsistir em Si a natureza divina e a humana. Assim o cristão deveria procurar perder a sua falsa personalidade humana ferida pelo pecado original, para fazer viver em si a Pessoa de Cristo. “Vivo, iam non plus ego, sed Christus vivit in me; Mihi vivere Christus est et mori lucrum” (San Paolo). Somente os santos, que fizeram viver perfeitamente Cristo em si e perderam a sua velha personalidade ferida de e desordenada, são homens normais, cristãos perfeitos e integrais, porque aniquilaram a independência do falso “eu” diante do Eu de Cristo.
Portanto,
1º) devemos trabalhar pelo aperfeiçoamento do elemento divino em nós, mediante a Graça santificante;
2º) do humano mediante a educação e a submissão da sensibilidade ao intelecto e a vontade;
3º) devemos em seguida unir a nossa pessoa humana a divina, afastando todo obstáculo entre Ele e nós;
4º) e enfim perder ou uniformizar totalmente a nossa vontade ou personalidade a Vontade divina, nos fazendo guiar por Ele.

São Paulo nos convida “Somos fortes no Senhor, confiemos em seu poder. Nos revistamos da armadura de Deus para resistir aos assaltos do diabo. Porque a luta que devemos sustentar não é contra os seres feitos de carne e sangue, mas contra os príncipes das trevas, contra os espíritos malignos. Aos rins o cinto da verdade; ao peito a couraça da justiça; aos pés a calçadura do Evangelho; no braço o escudo da fé; na cabeça o elmo da esperança; nas mãos a espada do espírito” (Efes., VI, 10-17).

Não podemos permanecer indiferentes contra os assaltos ao que para nós é mais precioso: a nossa Fé, a nossa Religião, o nosso Deus e a Sua Igreja. Se conseguirmos ser fiéis a severidade dos princípios e da disciplina projetada, nada poderá nos aterrorizar e a vitória final será nossa e sobretudo de Deus conosco. Se temos ideias verdadeiras e não aguadas na cabeça, amor sobrenatural no coração e na vontade, sangue regenerado pelo Sacrifício de Cristo nas veias, poderemos fazer alguma coisa de pequeno no mundo presente. Na verdade, há um poder, que não é nosso, mas do qual podemos participar neste mundo, que triunfa sobre tudo e está é a nossa Fé (I Jo.,V, 4).

d. CURZIO NITOGLIA

14 de maio de 2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens mais visitadas

D. DAVIDE PAGLIARANI: A HERMENÊUTICA DA HERMENÊUTICA - SEGUNDA PARTE: CONSEQUÊNCIAS ÚLTIMAS DA HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE

Don Davide Pagliarani Revista Tradizione Cattolica FSSPX Itália Março de 2010 Tradução: Gederson Falcometa A hermenêutica da continuidade en...