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domingo, 10 de abril de 2016

P. MATTEO LIBERATORE, S.J: CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO

Martírio de São Lourenço

 

A Igreja e o Estado (2ª ed.) Napoles 1872, cap. I, pag. 7-21.

Rev. Pe. Matteo Liberatore S.J.
Tradução:  Gederson Falcometa
Revisão: Renato S. de Mello

CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO

CAPÍTULO I.

ARTIGO I.

Conceito liberal

I

Tríplice forma de tal conceito

A palavra de ordem, como se costuma dizer, do liberalismo hodierno é a emancipação do Estado da Igreja. Isto se entende de duas maneiras: segundo a que é promovida pelo liberalismo absoluto ou pelo liberalismo moderado; do qual se aproxima, de boa ou má fé, muitos, mesmo entre aqueles que são católicos, se não de mente ao menos de coração, e assumem a denominação de católicos liberais. O primeiro dos dois liberalismos quer a supracitada emancipação pela via da supremacia do Estado; o segundo pela via de plena independência da Igreja; os católicos liberais sustentam a recíproca separação não como verdade especulativa, mas como método prático.

 O liberalismo absoluto concebe o Estado como o mais alto poder, o qual eleva o gênero humano no seu progresso social. Para ele o Estado é dotado de onipotência; não só não há poder superior a ele, como também não há sequer um poder igual ou que não lhe esteja sujeito. É o poder supremo e universal, que nada pode resistir e todos devem obedecer; é o direito por excelência, fonte de todos os outros direitos e regulador supremo de todas as relações entre os homens. Em face dele não se dá qualquer direito individual ou doméstico que seja inviolável e muito menos um direito sagrado, do qual outra sociedade possa se vangloriar. Todos os direitos são inclusos no direito público, e daqueles é promulgador e juiz unicamente o Estado. Os outros direitos inferiores derivam dele em virtude da lei que ele sanciona, de modo que as suas leis são a regra última do operar humano. E porque a sociedade não é estacionária, mas progressiva, segue-se que nenhuma lei, nenhum direito e nenhuma instituição é imutável, mas todas dependem da vontade social, obediente ao progresso, cuja vontade se manifesta pela opinião pública, pela qual a humanidade progride, e vem edificar-se em leis pelos representantes do povo nos Parlamentos.

Esta teoria, se bem considerada, constitui o espírito que aviva, em alguns lugares mais em outros menos, as modernas constituições da Europa, forjadas sobre os famosos princípios de 1789. De acordo com tal teoria, a Igreja não só perde toda preeminência diante do Estado, mas desaparece completamente como sociedade perfeita e independente. No máximo permanece na qualidade de simples Colégio, como qualquer outra pequena associação civil, submetida ao Estado, e decorrente dele a sua existência moral. E como o Estado concede a Igreja, pelo seu mero beneplácito, o gozo da vida pública, assim ele mesmo determina e mede os direitos, reservando-se para si a união. É uma condição da Igreja, em alguns aspectos, inferior àquela, na qual se encontrava sobre os Imperadores pagãos, em tempo de trégua das sangrentas perseguições.

Tamanha exorbitância não atinge os liberais, que atendem pelo nome de moderados. Eles propugnam não a supremacia, mas a autonomia e a plena independência do Estado; seja que queiram isto como transação, seja, mais verdadeiramente, como que transição. Para eles, a Igreja e o Estado formam duas sociedades completamente livres e separadas entre elas, dentro da própria associação; o que esses exprimem com a fórmula: Igreja livre no Estado livre.

O fim do Estado, em seu modo de julgar, não é de nenhuma maneira ordenado ao fim da Igreja; e portanto o poder de um não é de nenhum modo subordinado ao poder do outro. Tal subordinação importaria em confusão. O Estado é de todo sui iuris e senhor de seus atos, sem nenhum respeito aos interesses da religião de seus súditos. Ele faz as suas leis, sem importar-se com o outro, e exige a sua observância, independentemente das oposições às leis canônicas. Só o interesse político e a prosperidade temporal dos povos o guia nas suas determinações. No máximo, por razão de concórdia, poderá sobre alguns pontos fazer com a Igreja livres pactos e livres convenções, tratando com ela de igual para igual; e estes mesmos pactos e convenções cessam com a mudança dos tempos ou das circunstâncias sociais, das quais o Estado é juiz. A Igreja não tem direitos públicos propriamente ditos; nem a si mesma se estende a ordem material. Como sociedade espiritual, é restrita ao cuidado da consciência interna; quanto ao externo ela só pode gozar do direito individual, da liberdade comum. Além disso, é tarefa do Estado expandir o máximo que puder, em beneficio de todos, os confins desta liberdade, concedendo-a plenamente naquilo que respeita ao culto, consciência, imprensa, ensinamento, associação, em suma todo o pensar e o operar do homem, desde que não seja perturbada a ordem pública.

Deste sistema de liberalismo se aproximam também, como dizemos, não poucos entre os próprios católicos, de coração franco, mas de mente danificada. Esses evitam discutir as razões abstratas, mas voltando-se para os fatos concretos, consideram mais prudente e útil para a Igreja a sua total separação do Estado. Eles recordam os encargos que sofreram, pela servidão em que, há princípios de tempos passados, lutavam para mantê-los, sobre pretexto de proteção. Eles sugerem que seja renunciado o infausto matrimônio; e diminuindo suas forças morais, não requerem e nem esperam alguma ajuda do poder civil, nem pretendem exercitar alguma influência em qualquer parte do ordenamento político. Quanto à liberdade, mencionada acima, dizem que a Igreja pode e deve aceita-la, sem preocupar-se muito com o fato. Na medida em que eles não podem se beneficiar; nada sendo tão conforme a natureza do homem, como o gozar de plena liberdade política e religiosa, abalando todos os jugos de servidão e restrição. No entanto, esta é a tendência universal da sociedade moderna; e contrastar-lhe seria um louco conselho, que não pode ter outro efeito se não aquele de alienar sempre mais as almas da religião com dano irreparável não só da sociedade civil, mas também da Igreja. Assim, estes valorosos apologistas, os quais com uma simplicidade que enamora, reputam-se os verdadeiros videntes, os verdadeiros conhecedores do mundo, os prudentes por excelência, os verdadeiros zeladores dos interesses católicos; e se lançam ferozmente contra qualquer um que os contradiga sem, não obstante, omitir o louvor forçado à caridade e à moderação.

II

Absurdidade do conceito, no sentido do liberalismo absoluto.

Como qualquer um vê por si mesmo, o liberalismo absoluto não reconhece a divindade da Igreja; caso contrário não poderia desconhecer nela aqueles direitos que o divino Fundador da mesma teve o prazer de atribuir. Ele nega a ordem sobrenatural, nega Cristo; fechando-se na cancela do puro racionalismo. Do que segue que eles [os defensores do liberalismo absoluto] se declaram réprobos por si mesmos em virtude da sua mesma descrença; e pertence àquele mundo, já reprovado pelo Redentor, e excluídos da sua oração ao divino Pai [1]. Ele então, sem mais discussão, é não somente anticatólico, mas anticristão; nenhum fiel pode professá-lo ou consenti-lo. A questão a respeito está encerrada: Qui non credit, iam iudicatus est [2].

Não obstante, para que se entenda a sua torpeza ainda somente na ordem da pura razão, façamos observar que ele nega também a espiritualidade e a imortalidade da alma humana. E avaliza o verdadeiro; como poderia ele conceber de outro modo o Estado como associação suprema, sem restringir o destino do homem só ao redor da vida orgânica e material? A sociedade é especificada pelo fim; e a que é suprema, considera o fim supremo. Por isso, assumindo-se que o destino do homem não se cumpre aqui, mas além-túmulo, um destino imortal o espera. É claro – estando ainda só a luz da razão – que a associação suprema não pode ser se não a associação religiosa, ou seja, aquela que vê o homem e promove o seu supremo e imperecível bem. Para estabelecer o contrário, convém pensar o homem como surgido da pura matéria e na matéria destinado a resolver-se. Então somente poderá o Estado julgar que o fim pelo qual vela, a prosperidade temporal, seja o máximo bem do homem; e nada sai dos termos deste círculo. Aqui não somente os racionalistas, mas também os materialistas aplaudem o sistema do liberalismo absoluto.

Só que, neste sistema, o erro radical no qual se encontra o fluxo de todos os outros é propriamente a negação de Deus. Por isso os ateus e os panteístas são seus máximos promotores. Excluso Deus ou (o que vem de volta para si mesmo) não o distinguindo do mundo, se entende muito bem que o mais alto poder do universo não é outro senão o homem, e propriamente o homem alargado no estado social, ou melhor dizendo, o homem aperfeiçoado em multidão e ordenado a comunidade civil. Sim, o homem no juízo do ateísmo é a última perfeição, ao qual se eleva a matéria incriada. Ele será por consequência inteiramente senhor de si mesmo e ditará a si e aos seus dependentes as normas do presente, que ele gostará de apelar para bem ou mal, para o justo ou o injusto. Ao contrário, reconhecido Deus, Este, como criador, será Senhor absoluto e legislador do universo. O homem, portanto, a sociedade e o poder não podem ser pensados de modo diferente da forma feita por Deus, os quais, por conseqüência, Dele recebem como fim a norma do reto operar. Não, portanto, o Estado, a opinião pública, os placet de progresso, mas os imutáveis princípios da moralidade e da justiça, ditados por Deus e esculpidos na alma da sua criatura, são a regra suprema da ação humana dentro da esfera privada e da esfera pública. O Estado deve ser considerado uma soberania subordinada; a exercer o ofício de ministro de uma soberania superior; de ter de reger os povos, segundo a vontade do Senhor, a quem ele mesmo é sujeito.

«Ouve, ó Rei, e entende; aprendam, ó juízes da terra. Prestai doce escuta, ó vós que freiam as multidões, e se satisfarão de haver sujeitado as nações. Na medida em que o poder lhe foi dado pelo Senhor, e a força pelo Altíssimo, o qual interrogará as vossas obras e examinará as vossas intenções. Sendo vós ministros do seu reino, não tendo julgado com retidão, e não tendo observado as leis da justiça, nem procedido segundo a vontade de Deus. Com horror e em breve notarão que o juízo severíssimo será feito dos que são soberanos. “Na medida em que com o fraco será usada misericórdia, os poderosos sofrerão fortíssimas tormentas [3].» Aqui temos a ideia de poder que nos propõe as divinas escrituras. Estas que reinam suprema e são fonte primeira do direito! Estas divinas palavras nos mostram que o governante não é mais que um oficial, aplicador de uma lei que ele recebe, e da qual se desviar, não a obediência dos súditos, mas, ao contrário, a ele se dará tremenda punição do seu Senhor. E como Deus, livre ordenador, não é obrigado a manifestar a sua vontade só pela via natural das luzes da razão, mas pode manifestá-la – e lhe manifestou de fato – também pela via sobrenatural da revelação positiva, o Estado é obrigado a conformar-se também com ela no regimento dos povos e buscá-la somente aí, onde Deus a colocou. Ora Deus a colocou na sua Igreja. O Estado então da Igreja recebe a sua suprema norma moral; e por consequência deve aceitar essa Igreja e reconhecê-la, não como ele gosta de considerá-la, mas como Deus a constituiu, respeitando nela por inteiro aquele direito e aquela prerrogativa, que o seu divino Fundador quis a ela atribuir. Tudo isto é evidentíssimo e segundo o rigor de estreitíssima lógica para aqueles que reconhecem Deus; o que o liberalismo absoluto não pode nega-lo, sem fundar-se na negação de Deus. Mas isto somente constituiu a sua plena condenação, aos olhos não só dos católicos, mas de quantos não tenham ainda perdido de todo o bem do intelecto.

III

Absurdidade do conceito, no sentido do liberalismo moderado.

O liberalismo moderado não pretende, pelo menos em palavras, a supremacia do Estado, mas a sua plena independência da Igreja. Não nega a ordem sobrenatural, mas a ignora e a exclui do ordenamento politico da sociedade. Não obstante, embora menos horrível, todavia não é menos absurdo do que o liberalismo absoluto. Na medida em que aquele se funda no ateísmo, esse se funda no dualismo; esse nega a unidade de Deus, embora não lhe negue a existência. Isto foi sabiamente notado pelo Papa Bonifácio VIII na sua célebre bula Unam Sanctam Ecclesiam, onde ele censura os fautores da absoluta autonomia do Estado o supor que sejam dois os supremos Princípios do mundo. O porquê tal raça de liberais poderia apropriadamente designar-se com o nome de novos Maniqueus.

Certamente se um é o criador da Igreja e outro o criador do Estado, o homem recebe de um Princípio o ordenamento da vida civil e de outro a vida religiosa; nada de mais natural que os dois fins sejam díspares entre si, e consequentemente díspares os dois poderes que a esses dirigem. Somente – como também neste caso, seria o mesmo sujeito submetido a uma e a outra direção – para evitar o contraste dos dois impulsos opostos, que tornasse impossível o movimento, poderia introduzir-se um acordo livremente feito entre os dois motores, por meio de mutuas concessões; quase do mesmo modo que no Maniqueísmo alguns opinaram ter sucedido uma espécie de tratado entre o Princípio bom e o Princípio mau, para que os efeitos de um não destruíssem inteiramente os efeitos do outro. Por outro lado, se um é o Princípio de todo o criado, como ensina a razão e a fé, Unus est altissimus Creator omnipotens [4], a posição liberalesca, como que moderada, não pode subsistir. Se um é Deus, um é o ordenamento do universo, um o fim supremo da criação. Este fim não pode ser outro que o mais sublime, em relação ao ordenador, o mais benéfico, em relação ao ordenado; o que não pode ser outro senão a glorificação de Deus e a beatitude eterna da criatura racional. Este é exatamente o fim que guia a Igreja. A Igreja então não somente é sociedade perfeita (não podendo não ser perfeita aquela sociedade que guia ao perfeitíssimo dos bens), mas ainda é entre todas suprema, porque o seu fim é supremo. A dito fim convém que sejam subordinados todos os outros fins inferiores. Se é verdade que os bens secundários, em relação ao sumo, possuem razão de meios, e que os meios são subordinados ao fim, disto se segue com irrepugnável evidência que todas outras sociedades, quaisquer que sejam, devem se submeter a Igreja e dela receber norma e direção. Como, portanto, querem magnificar o Estado, por quanto se lhe exagere a excelência, ele não pode se esquivar da subordinação a Igreja; embora não se queira transformar esse Estado em Igreja e elevar a Pontífice o governante político. Pois, para fazer isto, precisar-se-ia aceitar a heresia anglicana ou o cisma russo, e mostrar que no Evangelho não existe Pedro, mas Tibério, a quem foi dirigida aquelas palavras de Cristo: Apascenta as minhas ovelhas; constituo-te o fundamento da minha Igreja.

Nem vale recorrer a diversidade das ordens: temporal e espiritual. Desta diversidade não pode importar outra por parte do Estado, que uma independência relativa; mas de nenhum modo uma independência absoluta. Esta pode ser feita somente nas coisas que de per si e diretamente se referem só ao bem estar da vida presente (como a finança, o exército, o comércio, a paz entre os cidadãos, as relações com outros povos) em que o Estado opera de modo próprio e com o poder supremo. Mas de nenhuma maneira a supracitada diversidade pode fazer com que nas coisas diretamente e de per si ligadas a piedade, justiça e costumes, o Estado não deva conformar-se as normas ditadas pela Igreja; e que também naquelas outras coisas que há poucos dissemos de sua mera pertinência, não tenha a obrigação negativa de fazer qualquer coisa naquilo que cause danos a moralidade dos súditos e ao obséquio devido a Deus. Onde acontecer o contrário, é claro que a Igreja tem o direito de corrigir e anular o que de injusto e imoral fosse colocado também na ordem temporal: o que é absolutamente necessário, para que as duas ordens harmonizem entre elas o mover em um e idêntico corpo moral, a uma e idêntica sociedade, submetida a ambos.

Esta dependência, se diz, causaria confusão; é isto o espantalho, do qual se armam os adversários. Mas para mostrar o quanto isso é pueril, não é arte de longo discurso. Confunde-se talvez a sociedade doméstica com a civil, porque, embora autônoma e independente no próprio campo, ela se faz, todavia subordinada aquela ? No entanto os dois fins são muito próximos entre eles, para ser ambos contidos na ordem natural. A confusão entre dois termos diversos não pode ter lugar, sem o desnaturamento de um e a conversão da natureza do outro. Como somente para confundir a alma com o corpo, precisa tornar ou material a primeira, ou espiritual a segunda. O que aparece a seguir é mais confusão entre Estado e Igreja, se a Igreja se subordinasse ao Estado; não podendo isto verificar-se, sem tirar da Igreja o ser sobrenatural, e rebaixar o seu fim somente aos interesses da vida presente. Mas de nenhum modo resulta em confusão a subordinação do Estado a Igreja. A razão é porque tal subordinação não desnatura o ser de nenhum dos dois termos, mas apenas se ligam juntos em virtude de devida relação. Aplica-se também aqui a semelhança da alma e do corpo. Confunde-se talvez o corpo com a alma, porque se subordina a alma? Então o que iria acontecer, quando por tal subordinação o corpo se transformasse em uma função da alma. E assim o Estado se confundiria com a Igreja, quando a sociedade civil renunciando a todo bem terreno se convertesse em um convento de frades, e ao poder politico não se deixasse outro oficio, que executar as ordens do próprio Bispo. Mas isto é aquilo que nós propugnamos? De fato, é está uma hipótese entre as possíveis de se tornar realidade? Deixando de lado que contra essa perversão de ideias e de usurpação de direitos é garantia de santidade e da própria condição da Igreja que se opõe a própria natureza do homem como um obstáculo intransponível. Por mais que se inculque de fazer servir a vida presente o alcançar a vida futura, não acontecerá jamais que a sociedade humana, não peque nisto por excesso, se constitua geralmente na devida proporção; tanta é a tendência da nossa natureza corrompida em direção aos bens sensíveis daqui. Imagine se é de se temer que todos se transformem em cenobitas! O poder político então é de índole tão invasiva, que é milagre que se chegue a contê-lo de usurpar a outros; é tão distante que ele se deixe espoliar do próprio. De qualquer modo, o perigo do abuso não é nunca um bom argumento para excluir o uso, maximamente quando tal uso é imposto pela natureza, e sem o qual o sujeito não pode nem sequer cumprir os atos que lhe pertencem.

E precisamente assim acontece no nosso caso. O Estado separado da Igreja não pode, como seria seu dever, providenciar o próprio fim da comunidade civil. Ele é constringido a conceder aquelas liberdades que expusemos acima, e repugna grandemente a ideia de sociedade humana e de governante humano. O Estado por si só não é juiz no que diz respeito a religião. Portanto, separado da Igreja, a única constituída por Cristo arauto infalível da verdade, não pode fazer outra coisa que conceder a liberdade de culto. O Estado nem sequer é bom juiz da moral. Então, não assistido pela Igreja, deve conceder a liberdade de consciência e a faculdade de seguir qualquer doutrina, desde que à primeira vista não digam o contrário do que dita a cada pessoa os primeiros princípios da razão. E a que se apoiará o Estado, para restringir ulteriormente tal liberdade? Talvez as luzes da ciência e ao discurso natural? Mas de um ou de outros expositores e mestres, mais que os governantes, teriam razão de serem os filósofos. Interroguemos então os filósofos? Mas, além dos próprios filósofos dissentirem muito frequentemente entre si, quem lhes daria o direito de impor seus pensamentos à inteligência de todos os outros? Que a Deus compete comandar as mentes das suas criaturas, isto ninguém poderá negar. Que Deus exercite tal direito, mediante um magistério visível, por Ele próprio constituído e ao qual prometeu a sua assistência, que poderia não cair nunca em erro: isto também não tem nada que não seja razoável e conformíssimo a necessidade do gênero humano. Mas que o mesmo direito venha doado a um simples homem, apenas porque é ou se acredita ser mais douto que os outros; isto não se admitirá de nenhum modo, e muito menos por aqueles que com ou sem razão estão persuadidos de poder competir com ele. Admitida a separação do Estado da Igreja, qualquer cidadão deve ser livre para fazer e dizer tudo que lhe agrada, até ao limite em que não se oponha as primeiras verdades do intelecto, e as primeiras prescrições da sindérese.

Mas há mais, então a idéia da sociedade humana e de governante humano? Qualquer um que não teve a mente danificada pelos delírios do racionalismo moderno responderá não; na medida em que o estado social é uma ajuda dada ao homem individuo para conseguir a sua destinação sobre a terra, e o elemento principal e essencial de tal destinação é sem dúvida a moralidade dos costumes: Virtuosa vita est congregationis humanae finis, disse Santo Tomás [5]. E que atribui pela razão que o mesmo juízo deveria chegar até a finalidade da multidão e à finalidade de cada homem, não sendo outra a multidão, que o individuo engrandecido pela união com os outros. Idem iudicium oportet esse de fine totius multitudinis et unius [6]. Se então o fim do homem individual é a virtude, não outro que a virtude deve ser o fim precípuo da multidão associada. Ou como prover a tal fim o governante que, exceto os primeiros princípios da verdade e da honestidade natural, em todo o resto deixa livre o freio a toda bizarrice de doutrina e a toda desordem de ação? Muito mais então cresce um tal inconveniente, aceitando em sua integridade o sistema liberalesco, que estabelece que a ordem moral está excluída do cuidado do governante; e que a ele não pertence se não o cuidado da ordem material. O governante em tal sistema deveria esquecer de ser homem e de ter que reger uma comunidade de homens; já que não é possível segregar no homem a ordem material de seu referimento a ordem moral, uma vez que é impossível segregar nele, o corpo da alma racional, enquanto permanecer homem.

O mesmo se diga da ideia de sociedade. Essa importa a junção de esforços para a obtenção do fim comum. Ou como a ação externa acontece sobre o império do livre arbítrio, assim a vontade livre é movida para o bem que lhe propõe o intelecto. Onde a união entre os homens não é humana, se, sobre aquela dos corpos não se tenha também aquela dos espíritos, e a unidade da ação não se acompanhe também a unidade da vontade e do sentir. Mas, de qualquer modo, é possível assim a unidade, onde o mesmo sistema tende ao desagregamento dos pensamentos e dos amores, concedendo misericórdia a qualquer um de professar e inculcar toda doutrina, e seguir e promover toda tendência? E bem a experiência o demonstra com a evidência dos fatos: qualquer um pode ver como nos Estados, constituídos segundo a teoria liberal, as discórdias, as dissensões, os partidos, os ódios, dividem assim uma mesma nação, um mesmo povo, e que deles bem pode-se dizer que:

………………….. a um o outro se rói

Daquele que um muro e um poço tranca [7]

Basta olhar um Parlamento, onde se pode encontrar a nata do liberalismo, para ver a concórdia que aquela teoria é capaz de produzir. E onde nos Parlamentos a manifestação de desacordo em sua maior parte se limita só a violência das palavras; nas multidões, educada no liberalismo, transcorrem atos muito mais deploráveis, que frequentemente convém refrear com sangrentas repressões. É esta a paz, para a qual principalmente é instituída a convivência civil?

Dir-se-á que nos Governos não liberais se percebia a divisão das almas. Certamente, mas neles ao menos aquela divisão não explodia externamente para capturar outros com o seu contágio, e de qualquer maneira não ocorre compelido pelo próprio sistema governante, mas apenas pela fragilidade da natureza humana. Nos governos liberais é licenciado a difundir-se sem contenção, e nasce do mesmo sistema, que, como vimos, é a inevitável sequela da separação da Igreja.

IV

Absurdidade do conceito, no sentido dos católicos liberais.

O vício radical dos católicos liberais é a incoerência. Isto aparece em si mesmo aqui pelo dito fim; desde que o liberalismo, entendido também em sentido moderado, se manifesta heterodoxo, é certamente solene contradição o querer aderir-lhe, e ao mesmo tempo fazer profissão de fé ortodoxa. Os católicos liberais rejeitam o maniqueísmo na especulação, mas o aprovam na prática; o removem da causa, mas o induzem no efeito. Será bom clarear a coisa um pouco mais extensamente.

Aparece pela primeira vez a incoerência deles no querer prescindir dos princípios, que eles, quase diremos, por sofrimento chamam abstratos. Mas estes princípios são verdadeiros, sim ou não? Não podem negar que sejam verdadeiros sem renunciar a serem católicos, já que eles reduzem as verdades de fé, as quais são que a ordem natural deve estar sujeita a ordem sobrenatural, a natureza a graça, a vida presente à vida futura. E como estas verdades não são tais só para o homem individuo, mas para o homem em qualquer estado em que se encontre; cada um vê as consequências que resulta para aquilo que diz respeito a ordem social. Os liberais católicos (pelo menos a maioria), concedendo tal resultado considerado por si só, apenas recusam a aplicação. Mas bom Deus! E não são essas verdades práticas que são ordenadas a dirigir o operar? E uma verdade ordenada a dirigir o operar, pode, sem incoerência, admitir-se, e não querer que incline-se de fato a dirigi-lo?

As circunstâncias, replicam, o proíbe. Isto é outro discurso. Se tal consideração é esta que vos move, mantenham-se dentro dos limites da mesma. Distinguir, como foi dito com feliz formula, a tese da hipótese. Dizer de modo favorável que a coligação do Estado com a Igreja, e então a harmonia entre os dois poderes, é de per si necessária e imposta ao ordenamento divino, mas por desgraça o mundo atual não quer saber disso. Louvai então a primeira, e deplorai a cegueira e a malícia da segunda. Mas vós não fazeis assim. Vós mesmos aconselhais a Igreja que por si mesma rompa toda ligação com o Estado; que não pretenda sobre ele nenhuma ingerência; que se retire no puro círculo da ordem espiritual; sustentando pela razão que isto resulta mais útil a Igreja.

Em que nós percebemos nova contradição. Como pode resultar mais útil o fazer o oposto daquilo que importa ao ordenamento divino? Ou é preciso negar que o acordo do Estado com a Igreja seja consentido por Deus (caso em que seriamos o chefe da negação dos princípios); ou é preciso sustentar que somente a atuação de tal ordenamento resulta mais útil tanto para o Estado quanto também para a Igreja; e o não poder obter em dadas conjunturas é um mal que precisa lamentar-se, mas nunca louvar e muito menos aconselhar.

Mas quanta pressão e quantos agravos não sofreu a Igreja pelos Príncipes protetores! Lembram-se as lutas com o Imperador de Bizâncio, com Césares da Alemanha, com os Reis da França, da Espanha, etc. Muito bem; é isto o lugar comum, a qual assiduamente se recorre. Mas isso, o que prova? Prova apenas que o homem com a sua perversidade e malicia se esforça para corromper a obra de Deus: mas, não é porque o homem se atenta a corrompê-la, convém desconhecê-la ou abandoná-la. Em primeiro lugar o argumento objetado peca por incompleta enumeração; já que olha só para o lado mal e fecha os olhos para o lado bom; refere só aos males, que se misturavam ao bem, e omite os muitos bens, que também se mantinham e superabundavam ao mal. Se a proteção dos Príncipes degenerava por vezes em opressão, o mais frequentemente obtinha guarnição e ajuda da Igreja. Em segundo lugar o argumento peca por defeito de comparação, na medida em que informará as imposições, que aqueles Príncipes fizeram sofrer a Igreja, com aqueles que fazem agora sofrer os liberais, não sabemos para qual lado penderá a balança. Deixando de lado a Itália – onde o sistema liberal não é moderado, mas absoluto – não existe talvez qualquer outro país, onde o liberalismo, implantado por uma maioria católica, parecia ser aparado de todos aqueles temperamentos e de todas aquelas cautelas, que deveria assegurar os alegados benefícios; e apesar de tudo a Igreja está relatando graves feridas, que não sabemos, onde irão parar em um tempo mais ou menos distante. Enfim o argumento peca por falsa inferência. Desde a introdução do abuso do homem a um sistema de per si necessário e prescrito por Deus, segue apenas que com cada projeto deve-se trabalhar para peneirar o precioso do vil, e não para rejeitá-los ambos, voltando-se ao outro sistema por si réu e contrário ao entendimento divino.

Isto, dizem enfim, mesmo que fosse desejável, não é mais possível: o século o repugna; e obstinar-se a defendê-lo não teria outro efeito, que o de irritar de forma mais grave as almas rivais, e, principalmente inimizar a Igreja. Mais prudente será fazer, como estão acostumados a dizer, da necessidade uma virtude; e aceitando um estado de coisas, que não está em nosso poder remover, projetá-lo para impedir que não se precipite a ruína total. Aqui os adversários de Aquiles. Entretanto isto dizendo, os católicos liberais incorrem, a nosso ver, na máxima incoerência, porque saem totalmente fora do estado da questão. Aqui não se trata de, entre a contumácia do mundo, dever-se usar de paciência e procurar extrair a melhor combinação possível; mas trata-se de convenção de aprovar tal condição social, e promove-la assim com nossos esforços. Também, nos três primeiros séculos de perseguição, a Igreja foi forçada a acomodar-se como podia; mas, por isso, era para se exaltar aquele estado de coisas e contribuir para perpetuá-lo? Sabemos bem que o mundo é enfermo e corre furiosamente para a própria ruína. Mas por isto justamente convém curá-lo e com persuasão e obras induzi-lo ao bom senso. Submeter nesta ocasião o querer e o sentir às loucas intenções, é enganar-se. Que se diria de um médico que, para não irritar o doente, deixasse piorar suas feridas? Não o condenarias como um sem piedade e cruel? E se o referido médico sustentasse também que tal padrão, embora mortal, segundo as regras da arte, é não obstante salutar na prática, dada a vontade do paciente; não o reputariam digno de ser trancado em um manicômio?

[CONTINUA]

NOTAS:

1] Non pro mundo rogo. Ioan. XVII, 9.
[2] Ioan. III, 18.
[3] Audite ergo, reges, et intelligite; discite, iudices finium terrae. Praebete aures, vos, qui continetis multitudines et placetis vobis in turbis nationum. Quoniam data est a Domino potestas vobis, et virtus ab Altissimo; qui interrogabit opera vestra, et cogitationes scrutabitur. Quoniam cum essetis ministri regni illius, non recte iudicastis, nec custodistis legem iustitiae, neque secundum voluntatem Dei ambulastis. Horrende et cito apparebit vobis, quoniam iudicium durissimum his, qui praesunt, fiet. Exiguo enim conceditur misericordia; potentes autent potenter tormenta patientur. Sap. c. VI.
[4] Eccl. I. 8.
[5] De Regimine Principum, XIV.
[6] Ivi, luogo citato.
[7] Dante, Purgatorio, VI.  

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