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terça-feira, 10 de março de 2020

GUSTAVE THIBON: A AUTORIDADE E O AUTORITARISMO


Jesus entre os escribas e os fariseus. Tela de Achille Mazzotti, 1844.


Gustave Thibon
29 de março de 1974
Tradução: Gederson Falcometa




Se dizemos de um homem que ele « tem autoridade », este juízo é um elogio. Mas se dizemos: ele « é autoritário » exprimimos uma crítica.

Onde está a diferença entre autoridade e autoritarismo?

A autoridade de um homem se mede pela sua capacidade de mandar, isto é, pela confiança que inspira ao seu próximo e que o inclina a obedecer sem discutir. No célebre drama « Rei Lear », Shakespeare nos mostra o velho rei deposto que vaga pela floresta. Um cavalheiro passando por lá, o encontra e lhe diz: «Não lhe conheço, mas sinto alguma coisa em você que me induz a lhe obedecer. – E que coisa seria essa? Pergunta o rei. – A autoridade».

Autoridade vem da palavra latina augere, que significa: aumentar, fazer crescer. Nisto se encontra o sentido e o escopo da autoridade. Sentimos, diante daquele que a possuí, que obedecendo as suas ordens não seremos enganados, nem assediados ou frustrados, mas que nos realizaremos, que a nossa personalidade se desenvolverá através da disciplina imposta. Em outros temos, sentimos que o chefe não manda em seu próprio nome, mas obedece a uma lei superior que é a do bem comum da qual ele é o representante e o intermediário. Assim, o bom pai de família exercita a autoridade no interesse dos filhos, o bom patrão naquele de todos os membros da empresa e o homem politíco digno deste nome em nome da nação inteira. Neste sentido, o chefe é o servidor de todos. O homem autoritário, pelo contrário, é aquele que manda sem ter em conta as exigências do bem comum e pelo único prazer de exercitar o próprio poder.

As suas ordens são arbitrárias, caprichosas e, nesta medida, vexatórias para aqueles que as recebem. Contrariamente a etimologia da palavra, a obediência a similares ordens degrada o executor em lugar de eleva-lo. Isto gera, dependendo do caráter do subordinado, o servilismo ou o rebeldismo.

É importante notar que este autoritarismo é quase sempre típico daqueles que tem a paixão pelo poder sem terem recebido o dom natural da autoridade. Não possuindo as qualidades interiores do verdadeiro chefe, eles buscam preencher esta lacuna multiplicando e exagerando as manifestações exteriores da autoridade. O verdadeiro chefe é respeitado porque a sua autoridade se impõe por sua própria virtude e ele é amado porque sabemos que a exercita para o bem de todos. O chefe autoritário, ao contrário, é temido porque as suas ordens, inspiradas pelo egoísmo e pela vaidade e não pela clara visão do escopo a conseguir, são incoerentes e imprevisíveis, e, portanto, quase impossíveis de cumprir, fato que desencoraja a obediência e cedo ou tarde leva ao desprezo da autoridade.

O melhor exemplo de uma tal contradição interna nos é fornecido por aquela estranha fungibilidade de disciplina rigorosa e de negligência na execução que muitas vezes encontramos na organização militar. – « Não nos apressemos » me dizia um velho sargento, em espera de uma contraordem toda vez que recebia a ordem de um superior. A sã autoridade se exercita a maneira de um diálogo entre duas liberdades unidas em vista de um fim comum: aquela do homem que manda e aquela do homem que obedece. Mas o autoritatrsmo, no deturpar esta relação humana, não pode criar nada além de tiranos que traem o poder de que abusam e dos escravos que são trapaceados pelo poder que sofrem.

Artigo original: L’autorité et l’autoritarisme,  «Itinéraires», n. 184, junho de 1974

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