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segunda-feira, 2 de março de 2020

CARDEAL SIRI: RELATIVISMO DOUTRINAL ABSOLUTO



Capítulo do livro:
Getsemani
Reflexões sobre o Movimento
Teológico Contemporâneo
Cardeal Giuseppe Siri
Tradução: Gederson Falcometa


Todas as palavras de Cristo, a sua mensagem, a sua advertência dirigida aos Apóstolos: “seja vosso falar Sim, Sim; Não não”, todas as palavras dos Apóstolos a propósito do seu testemunho e da verdade a transmitir [1], cada palavra das S. Escrituras que diz respeito a verdade a conhecer e a transmitir, tudo isto deve ser reinterpretado segundo as “novas teorias” da linguagem. Assim a teologia deve mudar pontos de referência e entrar deliberada e conscientemente na era do relativismo transcendente. 
 
A Igreja não pode jamais formular proposições certas para definir a fé, porque “essa deverá levar em consideração a problemática inerente a todas as proposições em geral”, e não se poderá jamais conceber e exprimir com certeza alguma verdade. Segundo esta nova filosofia da linguagem [2], “as proposições de fé não são nunca palavra de Deus imediata”, por isso tal palavra mediata é “perceptível e transmissível enquanto proposição humana. Como tais, as proposições de fé entram na problemática geral das proposições humanas”. De fato “as proposições não correspondem a realidade”; “as proposições são mal-entendidas”; “as proposições são apenas relativamente traduzíveis”; “as proposições estão em movimento”; “as proposições são ideologizáveis - mesmo a proposição ‘Deus existe’ é ideologizável”. Eis como Hans Kung expõe em cinco pontos o seu credo sobre a impossibilidade de nunca poder ter um credo certo [3].  

Tais predicados não podem ser ocultados com outros textos dos mesmos autores, textos talvez volumosos, mas sempre na mesma direção e na maioria das vezes evasivos. Estes predicados manifestam, de fato, um relativismo absoluto, instalando na Igreja um relativismo absoluto; transmitem uma doutrina da linguagem tal que ninguém possa jamais sentir na verdade, nem adquirida por força da especulação e de pesquisa, nem revelada por Deus.

O relativismo está longe de corresponder ao desejo natural de objetividade e a uma percepção objetiva das relações continuas entre os seres e as coisas. É um predicado tão alieno da verdade quanto o é o monolitismo conceitual, privado de matizes e referências eternas; de fato, o monolitismo conceitual quer impor cada vez conceitos desprovidos de qualquer relação real de caridade com o Princípio da Verdade e com os outros seres; quer impor conceitos áridos, sem conteúdo de vida, privados de matizes e estranhos a toda esperança vivida, impor-lhe como verdade objetiva e como princípio universal de conhecimento da verdade.

O cristianismo, a saber a mensagem da pessoa e do ensinamento de Cristo, tem conduzido precisamente, no seio da relatividade da filosofia e da experiência natural dos homens, critérios e pontos de referência que resolvem em harmonia de paz, no entendimento, na memória e no coração, o movimento e a oscilação perenes entre sujeito e objeto, entre objetividade e subjetividade.

Em tal modo se manifesta o luminoso mistério da Revelação, quando é recebida não só como conceito no intelecto, mas como amor na vontade. 

Notas:

[1] Mateus 5, 37.
Marcos 13, 31: O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passaram.
Tito 1, 1: Para chamar a fé os eleitos de Deus e para fazer conhecer a verdade.

[2] Kung, a propósito da nova filosofia da linguagem, se refere a M. Heidegger, H.G. Gadamer, H. Lipps, B. Liebrucks, K. Jaspers, M. Merleau-Ponty, L. Wittgenstein, G. Frege, Ch.W. Morris, H. Lefbvre, N. Chomsky (HANS KONG, L'infallibilit, ed. Mondadori, Milano 1977, p. 114).

[3] HANS KUNG, L'infallibilit, pp. 114-118.

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