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domingo, 8 de março de 2020

DON ELIA: DO ATEÍSMO EGOLÁTRICO AS BEM-AVENTURANÇAS

Sermão da Montanha, Carl Heinrich Bloch, 1877


D. Elia
Tradução: Gederson Falcometa

Não é totalmente exagerado afirmar que, sem uma graça de todo especial, nós hoje não teríamos a fé. Não falo apenas do fato que a maioria da população italiana, um tempo atrás  praticante, professe agora uma forma de ateísmo teórico ou pratico, mas também do fato que muitos, embora convictos de serem católicos, vivem de fato sem Deus. Até mesmo frequentam regularmente uma paróquia e desenvolvem também tarefas, mas nem o seu empenho nem, em geral, a sua vida moral se apoia mais sobre um fundamento objetivo: o conhecimento da verdade revelada e a observância da lei divina, que é possível pelo concurso da natureza e da graça. Uma espantosa ignorância do catecismo, unida a uma mal encoberta intolerância para com qualquer princípio regulador da conduta, faz de maneira que a vida cristã seja concebida como um percurso subjetivo abandonado ao arbítrio individual, onde a divindade não permanece senão como uma vaga ideia sentimental que não tem mais algum papel efetivo, se não aquele de confirmar um eu imaturo, inseguro e caprichoso. Em muitos casos não se sabe mais quem é Deus nem que coisa signifique crer Nele, com tudo aquilo que isto comporta.


Se trata evidentemente, de uma situação parcial e contingente, que nada pode, consequentemente, sobre a essência da Igreja, a qual permanece imutavelmente santa e perfeita apesar dos defeitos dos seus membros. Quem não reconhece isso traduz um modo de ver puramente humano e corre o risco de também perder a fé propriamente tentando defendê-la. Quem ao invés disso é familiar aos sinais da presença e a ação de Deus, embora sofrendo profundamente o dever de constatar numerosas distorções, alegra em colher as manifestações - não totalmente raras - de uma fé simples e genuína ainda bem difusa. A Igreja é maior que as nossas ideias e muito mais ampla que o nosso olhar; não poderia de resto ser diferente, visto que é obra de um Homem-Deus. Quem se arroga o direito de circunscrevê-la a própria congregação de “eleitos” tende implicitamente a substituir-se a Jesus Cristo, alem de colocar-se fora da comunhão eclesial. Não precisamos de um doutorado em teologia para sentir o terrível fedor de enxofre que emana de tal negação pratica da fé.

Não se pode certamente descuidar o fato que o ateísmo pratico atualmente imperante - em uma forma ou em outra - seja resultado de decênios de falta de formação doutrinal e moral, além de uma fuga da hierarquia. A omissão de atos devidos, em matéria grave, é pecado mortal: por exemplo, abster-se de avaliar presumidos fenômenos místicos com a finalidade de tomar uma posição a respeito, proibindo as atividade pelo menos suspeitas e sancionando a inobservância dos decretos. A autoridade eclesiástica, fortalecida por uma experiência secular, sempre preventivamente obstaculizou e redarguiu pretensos videntes ou estigmatizados, dado que, na maior parte dos casos, se trata de engano humano ou até mesmo diabólico. Em tal modo que o eventual reconhecimento sucessivo, coroamento de uma rigorosa investigação canônica, confiada a uma comissão de experts, não poderia ser tachada de credulidade ou de descuido. Hoje esta seriedade se tornou mercê rara, não só na prática, mas também na proposta teológica. Quase nunca os bispos se pronunciam com autoridade sobre a natureza de um fenômeno, mas se limitam como de costume (coisa que não constitui completamente uma prova de sua origem sobrenatural) a autorizar um culto já desenvolvido sem alguma legitimidade (coisa que não depõe de fato a seu favor).  

Tal modo de proceder, em última análise, responde a um principio de característica tipicamente marxista: a prática prevalece sobre a teoria. Ora, se por teoria se entende uma visão filosófica que reivindica o primado sobre a realidade, é óbvio que ela dever ser refutada e rejeitada; se ao invés disso a “teoria” é a verdade revelada, é natural que seja a vida a dever se conformar a essa, não certamente o contrário. Opostamente, a dinâmica revolucionária consiste até mesmo em colocar em movimento os processos que, modificando a prática de modo ilegítimo, empurram inexoravelmente a uma revisão da doutrina. Portanto, é a “realidade” que precisa se adaptar, pois esta ultima não é aquilo que Deus quis que ela fosse, mas sim o resultado de uma operação ideológica que lhe alterou profundamente as estruturas internas (pensamento, valores, princípios e normas). Isto foi sistematicamente e metodicamente realizado, nos últimos decênios, seja na sociedade seja na Igreja, com efeitos de uma gravidade inimaginável seja para os indivíduos que para as coletividades: desequilíbrio e anarquia dilagam a todos os níveis, com a consistente contribuição de pretensas revelações que subvertem a ordem hierárquica.

Enquanto a autoridade civil é exercida principalmente de modo vexatório (e não de acordo com a sua razão de ser, ou seja, em benefício dos cidadãos), aquela eclesiástica abdicou substancialmente das suas verdadeiras funções, renunciando a governar e limitando-se a acompanhar. Este vazio institucional, na Igreja, responde evidentemente a uma vontade não declarada: essa consente de fato de operar sub-repticiamente, por detrás de uma aparência mais “democrática”, de modo a alterar princípios e estruturas com pretexto de ir de encontro àquelas mudanças de condições socioculturais que na realidade - como já vimos - que foram produzidas pelos mesmos agentes. Um efeito colateral desta estratégia é o fato que muitos fiéis, não sabendo mais a que coisa se apegar, se refugiam nos fenômenos pseudo-místicos ou em grupos tendencialmente sectários, uns e outros escolhidos e “canonizados” baseados em juízos privados de cada um (que, não coincidindo com aquele dos outros, é inevitavelmente causa de divisões sem fim). Embora com o atenuante da situação abnorme em que vivemos, isto é, de qualquer modo um inconfundível sintoma de modernismo - mesmo para um tradicionalista...  

Devemos admitir que a comum enfermidade nos contagiou muito mais profundamente do quanto pensamos, a prescindir da “cor” das fileiras em que militamos. Quem milita apenas para o Senhor, ao invés, buscando a união com Ele em uma vida de intensa oração e de caridade efetiva, está preservado não só do perigo de aprisionar-se a falsas revelações ou em formações cismáticas, mas também do risco de construir uma religião toda sua que, reduzindo Deus a um puro nome, conduza inexoravelmente a um ateísmo egolátrico. Aqui cada coisa é tratada em função de um eu hipertrófico que pretende ter o controle sobre tudo, mas termina com a criação de um mundo imaginário que ele pretende dominar. Muitas vezes a ânsia, a depressão e a angústia nascem dessa pretensão irracional de controlar os outros, a realidade, o futuro, no medo constante de não o conseguir. As sedizentes “profecias” são uma resposta apenas aparentemente válida a esta necessidade tão difusa em um ambiente (social ou eclesial) em que parece não existir mais nada de estável e seguro, visto que até mesmo os elementos e os princípios basilares são constantemente colocadas em discussão.

O recurso àquela solução fictícia, porém, é uma armadilha que não só tira o tempo da oração e dos deveres de estado, mas - coisa muito mais grave - pode também expor a infestações malignas e corromper a fé, até a desnaturá-la em uma substituição onde no lugar de Deus se  coloca o homem (o vidente ou o eu pessoal). Quem considera menos a hierarquia, motivado pelas suas inadimplências ou expressões heterodoxas, cedo ou tarde se descobre considerando menos ao próprio Deus, relegado na esfera das palavras funcionais a uma certa tese. A via de saída da manipulação global perpetrada pelo mundo moderno não é o submeter-se a uma manipulação particular, mas um radicamento sempre mais firme e vivido na verdade que conhecemos graças a fé. A solução ao isolamento que experimentamos na sociedade e na Igreja não é a reclusão em um gueto exclusivo, mas o desenvolvimento de uma comunhão espiritual fundada sobre a oração e sobre o estudo de textos seguros em pequenos grupos. A liberação da escravidão mental e operativa que o sistema submeteu as pessoas não consiste em escolher o tipo de sujeitamento, mas em fazer constantemente escolhas livres, por mais que custosas que sejam.

Pegai o Evangelho em mãos e meditai-o a cada dia, não para tirar cada um as suas próprias conclusões teológicas ou as suas próprias normas morais, mas para familiarizar-se de modo sempre mais íntimo com aquele Deus vivente que ouvimos falar e vemos agir na humanidade assumida. Pare diante do sacrário toda a vez que puder, de tal modo a deixar-se irradiar pela graça Daquele que o habita, muitas vezes negligenciado e não honrado como seria justo. Amai-o em cada pequeno gesto bom ou ao menos lícito; reparai com suas penitências e mortificações os ultrajes que recebe cotidianamente pelos seus próprios ministros; levai-o a ser amado com a vossa conduta sempre pronta a humildade, a bondade e a doçura. Sejai feliz de ser Seu e contagieis o próximo com essa alegria calma e serena, possível mesmo em meio as piores provas e amarguras. Cremos ou não nas bem-aventuranças? Devemos conhecê-lo de memória e ruminar-lhe muitas vezes, principalmente nos momentos mais dificeís. Aquelas palavras que contém todo o poder do Verbo divino feito carne: não é talvez um privilégio extraordinário poder ter a sua posse?

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