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segunda-feira, 9 de março de 2020

STEFANO FONTANA: OS BISPOS E O DEUS QUE SUSTENTA, MAS NÃO PODE FAZER MILAGRES



Stefano Fontana
Tradução: Gederson Falcometa

Nos comunicados de muitos bispos por ocasião da suspensão das Missas por causa do Coronavírus se lê o convite a rezar para que Deus sustente os doentes (com vida), as pessoas atingidas e prejudicadas e os agentes sanitários de modo que a contaminação seja vencida. Só em poucos casos se pode notar um convite a rezar para que o Céu vença o contágio e para que Nossa Senhora interceda a fim de que Deus ponha um fim a praga.

A vencer o contágio poderá ser apenas a ciência e que Deus ajude aos cientistas: este é o sentido de muitas intervenções episcopais. Parece que não reconhecem a Deus a possibilidade de operar fora da ordem criada, mas apenas respeitando as leis desta ordem: então a doença não cessará senão quando as suas causas naturais fizerem o seu percurso ou quando tal percurso for interronpido pela intervenção humana. É como se uma pessoa doente rezasse, e fizesse rezar aos seus familiares e amigos, não para Deus estirpar a sua doença, mas só para sustentar os médicos e os enfermeiros que estão cuidando de sua recuperação no hospital, reservando só a eles a possibilidade de vencer a doença. Com esta mentalidade não existiria nenhum santuário dedicado a Nossa Senhora da Saúde. Por trás da decisão muito drástica de alguns bispos de aplicar de modo rigorosíssimo as normas restritivas da autoridade civil se pode talvez notar um efeito deste modo de ver.


Sobre este ponto em questão a teologia católica tradicional pensava de modo diferente da teologia prevalente hoje. Santo Tomás de Aquino demonstra que Deus criou as coisas do nada e que o mundo nem sempre existiu. Ele depois explica que criar o mundo significa também conservá-lo no ser e governá-lo: “Como não pode existir coisa que não tenha sido criada por Deus, assim não pode existir coisa que não esteja submetida ao seu governo”. Isto não quer dizer que Deus faça tudo diretamente no plano executivo, de fato ele “ governa as coisas de maneira a produzir algumas dessas causas na relação de governo de outras: como um mestre que torna os seus alunos não só doutos, mas também capazes de ensinar aos outros”. Em outras palavras o operar de Deus é entendido “de modo a não prejudicar o fato que as próprias coisas tem a sua própria atividade”, embora sendo Deus a causa primeira do seu operar. 

Até este ponto Santo Tomás explica que Deus opera através do operado pelas causas segundas, no caso do Coronavírus pelos cientistas e pelos agentes sanitários. Porém, ele acrescenta também que Deus pode operar no mundo fora das causas naturais por Ele mesmo criadas e ordenadas: “Deus pode operar fora da ordem estabelecida, porque Ele não está sujeito a ordem das causas segundas, mas tal ordem está a Ele sujeita”. “As obras realizadas por Deus fora da ordem das causas por nós conhecidas são chamadas milagres”. O milagre pode superar a força da natureza de três modos segundo Santo Tomás: ao fazer aquilo que a natureza não pode absolutamente fazer; no fazer aquilo que a natureza pode fazer, mas não naquele tal sujeito; no fazer aquilo que a natureza pode fazer, mas não daquele modo, “por exemplo, alguém é curado instantaneamente pela doença sem cura e fora do percurso normal da doença”.

Portanto, se deve rezar a Deus enquanto causa primeira das causas segundas que estão operando contra a doença, mas se deve rezar a Deus também para que cure da doença intervindo fora do seu percurso natural. Este segundo ponto é hoje ignorado no caso do Coronavírus.

Não é porém uma distração. A teologia contemporânea não considera que Deus possa operar também fora das causas naturais e então - em linha de princípio - não admite uma oração para que isto aconteça. Por trás da diferença de impostação está uma diferente visão da criação, dado que a teologia de hoje não pensa que nessa Deus tenha colocado o mundo fora de si, como ao invés sustentava Santo Tomás. Para os teólogos de hoje, a ação de Deus no mundo advém sempre no mundo e através do mundo e jamais de fora dele. Para permanecer no caso que estamos examinando: não pode existir uma intervenção de Deus fora da ação pessoa do agente sanitário e, em geral, das intervenções humanas, porque Deus é entendido como o horizonte que torna possível aquelas intervenções e que se auto-comunica propriamente dentro daquelas histórias. Por que deveria suspender-lhes se propriamente ali Ele se manifesta?

Karl Rahner, por exemplo, considera que se Deus operasse em contraste com as leis naturais por Ele mesmo criadas se transformaria em uma causa natural, uma causa entre outras causas e perderia o absoluto e a transcendência. Uma intervenção de Deus, segundo ele, não advém movendo as causas segundas, nem agindo fora dessas causas, a presença de Deus se dá na existência do existente finito e, então para o nosso caso, propriamente nas iniciativas humanas de tipo sanitário e social. Deus é por definição intra-mundando e os milagres não são uma suspensão momentânea da lei natural feita por Deus.

Se nos comunicados dos Bispos sobre o Coronavírus se nota por vezes um excesso de zelo administrativo e só um modesto olhar para as intervenções do Céu, estas são as causas teológicas.

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