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domingo, 2 de maio de 2021

ROBERTO MARCHESINI: PORQUE UM CÓDIGO CAVALHEIRESCO.

 



Extraído do livro
Código cavalheiresco
para o
homem do terceiro milênio

 

Roberto Marchesini
Tradução: Gederson Falcometa

 

Viver de acordo com o que você gosta não é a única maneira de viver, apesar daquilo que sustenta o mainstream.

Como Goethe escreveu: “Viver de acordo com o próprio gosto é próprio do plebeu; a alma nobre aspira a uma ordem e a uma lei ”. A alma nobre deseja uma lei, não a rejeita; considera a vida como disciplina, não como prazer. Noblesse oblige - nobreza obriga, a nobreza obriga, não desvincula dos deveres.

A nobreza”, explica Ortega y Gasset, “é sinônimo de uma vida corajosa, sempre empenhada em se superar, em se transcender, em alcançar o que ela propõe como ser e exigência. [...] São os escolhidos, os nobres, os únicos ativos e não reativos, para quem viver é tensão perpétua, disciplina incessante. Disciplina = askesis. São os ascetas”.

Este conceito sempre escapou da alma vulgar.

No século XVI se assiste o nascimento da chamada "nobreza da toga", em oposição à tradicional "nobreza de espada". Lojistas e comerciantes enriquecidos compraram títulos e terras, pensando que esses eram os elementos característicos da nobreza. Pensaram que ser nobre consistia em "viver da renda" sobre os ombros dos outros, sem trabalhar. Esquecendo que a nobreza de espada, além de ter conquistado título e terras com risco de vida, em combate, usufruía daquele tratamento porque lhe tocava sacrificar-se em caso de perigo. Os camponeses mantinham os nobres, sim, mas para ter em troca proteção e da salvação da vida; os nobres eram sim mantidos, mas porque era seu dever arriscar a vida para defender aqueles que se confiavam a eles. A nobreza era um dever pesado, não um benefício agradável. A nobreza da toga, demonstrando assim a sua vulgaridade, aspirava apenas aos aspectos agradáveis ​​da nobreza, ignorando por completo a sua contraparte perigosa.

O mesmo fenômeno se repetiu no século passado quando, como cantava Paolo Pietrangeli, "o operário também" queria "o filho doutor". O diploma, símbolo de pertencimento à elite cultural (e econômica) do país, era simplesmente a forma de ter o filho “arrumado”: um bom trabalho, que não exigisse mãos sujas de terra ou graxa, dinheiro, possibilidades. Nenhum dos operários de Pietrangeli que queriam o filho doutor queria que o filho sacrificasse sua vida para melhorar o seu país, para o bem dos outros; seu objetivo era uma vida fácil, cheia de prazeres, sem gravames ou deveres. Em vez disso, pertencer à elite da sociedade implica deveres para com a própria sociedade. O "direito de estudar" para todos cancelou o "dever de estudar" para a elite.

Mas esse conceito continua a escapar à alma vulgar. Nem mesmo leva em consideração a ideia de que a vida é tarefa, dever, sacrifício, pelo contrário: olha cada uma dessas três palavras com desconfiança. No entanto, essa ideia, que hoje parece pelo menos tola, é na verdade a base educacional que construiu o Ocidente como o conhecemos.

É a ideia de que todo homem tem um projeto a realizar, e que esta realização consiste exatamente na finalidade de sua vida. É o pensamento teleológico (do grego télos, propósito), nascido na Grécia junto com a filosofia ocidental, que prevê que tudo tem um fim, uma finalidade intrínseca; e que a realização dessa finalidade coincide com o cumprimento, com a plenitude do ser daquela coisa.

O mais conhecido divulgador do pensamento teleológico atual é o filósofo alemão Robert Spaemann (1927 - 2018), um dos maiores de nosso tempo, ainda que pouco conhecido. Isso porque o pensamento em que estamos imersos é um pensamento ateleológico, a-finalístico, para o qual as coisas e o homem em particular não têm nenhum projeto, nenhum propósito e nenhuma realização possível. Não há amanhã, nem horizonte, nem fim: a vida é um presente eterno sem sentido.

O problema é que uma vida sem um fim, sem um propósito autotranscendente (isto é, fora de si) sem um significado é, para o psiquiatra Viktor Frankl; uma vida cinzenta, vazia e impossível de viver. Segundo Frankl , de fato, o princípio guia da existência das pessoas não é o princípio do prazer (como sustentava Freud), e nem a vontade de poder (como afirmou Adler), mas a vontade de significado, a busca de um propósito, um sentido na própria vida.

Assim, imerso em um "vazio existencial", continua Frankl, o homem tenta sufocar sua angústia na busca do prazer. “Quem quer ser feliz”, escreveu Lorenzo, o Magnífico, “saiba que do amanhã não há certeza”: quem não tem um horizonte dedica-se ao gozo ou se afundará na angústia.

Daí a obsessão do selvagem contemporâneo pelo gozo, que parece ser a única razão de viver e a única estrela polar de uma existência imersa na neblina: privado de uma finalidade, de uma causa a qual votar a própria vida, ele a acalma sua angústia com o prazer.

Esta parece ser a única finalidade da vida do homem contemporâneo: buscar todos os tipos de prazer, devotar-lhe todo o tempo, energia e dinheiro à sua disposição. A liberação sexual se transformou em escravidão sexual, tão onipresente e difundido é o apelo ao prazer sexual em nossa sociedade. O imperativo, para os adultos, e sobretudo os jovens, é "divertir-se" (o que às vezes é sinônimo de "ficar chapado"). Mas o que significa "divertir-se"? Essa palavra deriva do latim divertere, ou seja, distanciar, desviar, levar longe. Do que o homem contemporâneo quer se distanciar? Do que quer fugir? Qual coisa o quer levar para longe de nossa sociedade? Talvez, o sofrimento e angústia de uma vida mortal sem propósito?

O homem nobre, já dissemos, não vive para o prazer, mas para o dever. O que, deve-se enfatizar, é algo diferente de shouldism (Ndt.: sentido do dever levado ao extremo).

O shouldism consiste na aceitação passiva do "dever pelo dever" kantiano. Kant, como todos os luteranos, estava convencido de que todo homem estava irremediavelmente corrompido pelo pecado original e, portanto, desejava o mal; e que a única maneira de fazê-lo fazer o bem era forçando-o a isso. Esta é a base teológica da moralidade zelosa prussiana, do ordnung germânico, do doverismo.

O dever é outra coisa. Dever é a adesão livre e voluntária à própria tarefa, ao próprio destino, a própria vocação. Visto que o homem não é irremediavelmente corrupto, mas apenas inclinado ao mal pelo pecado original ("Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero ", Rm 7,19), se é livre, não pratica o mal, mas o bem. Quem pratica o mal, de fato, não é livre - como acreditam os luteranos - mas escravo "Quem comete pecado é escravo do pecado” Jo 8,34. Portanto, apenas o homem que aceita livremente seu destino até o fim é real e completamente livre.

Neste ponto, alguém ficará confuso: o hedonista selvagem descrito na Introdução, não faz aquilo que quer? A resposta é “não". fazer o que se gosta não coincide com fazer o que se quer, tanto é verdade que - como vimos - a busca espasmódica pelo prazer é consequência da impossibilidade de viver uma vida sem propósito, sem um significado, mais do que uma livre escolha. Como escreveu Santo Tomás, "... qualquer prazer traz um alívio capaz de mitigar qualquer tristeza, qualquer que seja sua origem" Summa theologiae, II-II, q. 38, a. 1).

Fazer o que se gosta e fazer o que se quer não são, em realidade, a mesma coisa; Tanto é verdade que estamos empenhados em atividades extenuantes que exigem sacrifício - como esporte, estudo, trabalho - sem que ninguém nos obrigue de forma alguma.

Quem vive de modo hedonístico não vive realmente como quer (ainda que não perceba); se contenta com uma vida anestesiada.

Eis como o escritor Cormac McCarth descreve esse mecanismo em seu livro Sunset limited:

Preto - ... O maior medo do bêbado não é o de morrer por culpa do álcool, coisa que lhe acontecerá. Mas sim o de álcool acabar antes que isto aconteça. [...] Se você der um copo cheio para um bêbado e, entretanto, lhe disser que não é aquilo que ele realmente quer, o que você acha que ele responde?

Branco - Penso que posso imaginar, o que ele me responde.

Preto - Claro. No entanto, você está certo.

Branco – Dizendo-lhe que não é o que ele realmente quer.

Preto - Exatamente. Porque o que ele realmente quer, ele não pode ter. Ou ele está convencido de que não pode ter. Então, ele se empanturra com o que realmente não quer.

Branco - E o que o bêbado quer de verdade?

Preto - Vamos, você também sabe disso.

Branco - Não, não sei.

Preto - Sim, ao contrário.

Branco – Não.

Nero – Hum.

Branco – Hum, o que?

Preto – Você é um caso difícil, professor.

Branco – Olha que nem mesmo você é um passeio.

Preto – E assim não sabe a coisa que o bêbado quer de verdade?

Branco – Não que não sei.

Preto – Quer aquilo que todos querem.

Branco – E o que é?

Preto – Ser amado por Deus.

Precisamos realmente nos contentar com uma dose diária de anestésico ou podemos ter mais? Podemos nos realizar plenamente, colocar nossos talentos em bom uso sem enterrá-los, ter orgulho de nós mesmos, em vez de passar a vida com vergonha? Sim, é possível. Mas precisamos - como Goethe escreveu - de uma ordem, de uma lei.

É por isso que pensei em oferecer um código aos homens do terceiro milênio. A criança mimada, o selvagem com um smartphone, o hedonista rirá disso.

Quem, hoje, usa palavras como "honra", "coragem", "lealdade"? Essas são palavras que agora só são ditas nos velhos filmes em preto e branco da comédia italiana; vêm da boca de personagens de quem fomos ensinados a rir, a ter pena.

O mesmo tratamento, hoje, é reservado para quem quer viver de acordo com uma ordem, uma lei. Mas não importa. Há muito mais em jogo do que a aprovação do primeiro que passa.

 

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