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domingo, 12 de junho de 2022

MARCEL DE CORTE: A CRISE DO BOM SENSO


Marcel de Corte
*Tradução de Gederson Falcometa


Neste nosso estranho mundo, dizer que branco é branco, e que preto é preto, é um ato que desperta a desaprovação, senão a ira, de nossos contemporâneos, e que coloca o autor a margem da sociedade; representa uma audácia às vezes paga com um tiro na nuca e quase sempre com um silêncio hostil da opinião pública e dos intelectuais que a governam. Qualquer um que apresente uma afirmação tão categórica é considerado pobre de espírito, se não um antediluviano, um desajustado para seu tempo. Impossível obter a atenção dos homens do nosso tempo, se você não virar as costas para o verdadeiro, o belo, o bom.

A prova? Olhamos o panorama das folhas mortas que caem todos os dias em abundância daquelas árvores de aço chamadas "tipografias": o erro, o horror, a falta de vergonha são os mestres; o inexistente, o impossível, o incongruente, o aparente, o ilusório são desabafados ali. Luz verde à impostura, à dissimulação, à insolência, à maquiagem, à mentira, à falsidade, à hipérbole, ao romanesco. E deixemos de lado os inúmeros crimes contra o bom gosto e os bons costumes.

Os chamados moderados, espíritos abertos, dirão que estou fazendo uma caricatura, um "pamphlet": o nosso tempo - dirão - não é melhor nem pior do que os que o precederam. Ora, este apelo a "medida" requer duas respostas. Primeiro: devemos antes de tudo nos perguntar se essa moderação é, na realidade, fruto de uma tolerância tão desproporcional à falta de limites, que se perdeu a consciência de si, seja por fraqueza mais do que por cumplicidade. Segundo: gostaria de saber como se explica a desordem de nosso tempo sem recorrer à hipótese de uma doença epidêmica que atingiu o homem de hoje nas profundezas de sua substância humana.

Deixando de lado essas objeções, deve-se dizer que nossa época se caracteriza por uma perda universal e maciça do bom senso, e que se engenha para remediá-la, sem fazer nada além de torná-la mais grave. Isso deve ser dito, para compreender a amplitude, nunca vista antes na história, do vazio que se abre diante de nossos olhos na natureza do homem e nas atividades que são regidas por ela.

O destino do homem está em jogo hoje em todo o mundo. Para ser assim ameaçado, o elemento que constitui a essência do animal racional deve também ser atingido: e esse elemento essencial é o bom senso. Todos os seres, na natureza, têm um sentido no qual encontram sua realização, assim como as coisas inertes têm propriedades físicas e químicas que as caracterizam. Os seres vivos revelam uma tendência que os move em direção à sua espécie: o grão de trigo não se transforma em carvalho, o ovo de galinha não gera crocodilo. Se os seres naturais não tivessem um sentido, a espécie humana já teria desaparecido há muito tempo. Apesar de todos os ceticismos, o mundo material, vegetal e animal não é um caos: o homem pode reconhecer nele significados, direções e, de certa forma, motivos musicais que se desdobram neste ou naquele sentido, sempre ou quase sempre idênticos a si mesmo.

O homem também tem um sentido; além disso, único em toda a natureza, é também dotado de bom senso, vale dizer uma faculdade cognitiva que o torna capaz de orientar seu ser para uma ordem propriamente humana, em si mesmo e nos diversos campos de sua atividade. Só o homem tem o privilégio de saber para onde vai, para onde pode e deve ir.

Não é por acaso que se diz ter bom senso, gozar da plenitude das faculdades intelectuais. É justamente isso, o bom senso: a percepção saudável, direta e segura na direção que se deve ter para serem homens e não sair dessa perspectiva. Se é verdade que nossa inteligência é a faculdade da realidade, o bom senso coincide com a intuição da autêntica realidade humana, que cada um de nós é chamado a aperfeiçoar em si e com seus atos. Por isso, como bem diz Bossuet, o bom senso é "o mestre da vida dos homens". Todos os momentos da nossa existência são sustentados e articulados pela sua força, pela sua vitalidade, porque é a pedra angular, o alicerce, a raiz da construção humana que levamos adiante, cada um por si. Sem ele, tudo se reduz a um cenário frágil e efêmero. O bom senso é a ordem imanente, oculta, difícil de apreender, clarificador, e não clarificável,  que carregamos dentro de nós e que sustenta a organização de nossa vida com sua presença poderosa.

Sendo assim, o senso comum é o próprio sentido de agir permeado de inteligência. E como não é possível orientar-se bem sem um bom ponto de partida, o bom senso pressupõe apreender de maneira vital e concreta um certo germe humano que se desenvolve graças a nós, conosco e em nós, rumo à sua flor e seu fruto. Não se trata de um esquema prefixado, ainda que possa ser reduzido a uma representação abstrata; não é um projeto a priori, semelhante ao de um arquiteto, mas uma espécie de saúde, não apenas do corpo ou do espírito, mas de todo o nosso ser humano, que nos foi dada na origem, mesmo que possamos alterá-la ou mesmo destruí-la: basta pensar nos momentos de aberração em nossa vida. Essa saúde é, portanto, precária e ameaçada, mas isso não significa que não constitua uma realidade suficientemente sólida para ser desenvolvida, com uma terapia específica, rumo ao seu pleno equilíbrio.

Estamos diante de um complexo de noções que se referem umas às outras, como sempre acontece quando tentamos apreender uma realidade simples e profunda.

Vamos tentar obter uma ideia geral e orgânica disso, perguntando-nos o que pode significar a solução segundo o bom senso de um problema particularmente árduo, cuja saída não podemos ver de relance.

Não é verdade que, uma vez adotada, colocada em ato e levada até o fim, esta solução nos parece cada vez mais razoável e natural? Até nos perguntamos por que isso não nos ocorreu antes. Estava ali, a solução, na ponta dos dedos: bastou abrir os olhos para ser inundado por suas evidências. Os truques lógicos a que inicialmente recorremos, os caminhos tortuosos que havíamos traçado mentalmente, as voltas e reviravoltas que havíamos pensado, parecem-nos irrisórios, absolutamente inadequados para determinar a certeza estável de que é assim mesmo: antes eram todos os elementos estranhos que nos impediam de encontrar aquela solução que, uma vez alcançada, nos dá tanta satisfação. Agora ficamos irritados se por acaso nos oferecem outro caminho, que sabemos ser impossível. O bem-estar que sentimos ao fazer nossa a solução do bom senso é a do equilíbrio recuperado. Vacilávamos e dispersávamos, e aqui estamos agora para ir direto, pés firmes em terreno seguro, na única direção possível. Não esquecemos nenhum dado, introduzimos todos, atribuímos o devido valor a eles, e aqui eles se articulam, se dispõem em uma hierarquia, e traçam, com sua própria organização, a solução esperada.

Como pode ser visto nesta breve descrição, o bom senso nunca se manifesta claramente aos nossos olhos, como um objeto externo que podemos pegar na mão. Não está fora de nós, mas dentro de nós, inseparável de nosso próprio ser. Ela se manifesta apenas na luz que projeta sobre os dados aos quais se aplica. É verdadeiramente um poder latente de iluminação, que fica no fundo de nossa constituição psíquica, e se revela com sua luminosidade e com seu poder de apreender o essencial, ou melhor ainda, de iluminar a inteligência em sua busca da realidade. Não é exagero defini-la como a inteligência da inteligência, ou a força que dirige a própria inteligência no início e em suas primeiras tentativas incertas e depois gradualmente mais seguras. É a ponta de lança da inteligência, aquela que inconscientemente tira vigor e dinamismo da realidade e os distribui à inteligência em busca de seu objeto, imbuindo-a de força e senso de realidade.

Uma semelhante "sensibilidade" à presença da realidade pressupõe evidentemente que o bom senso, em seu sentido mais profundo, participa de toda a amplitude do ser, e seja, para usar uma fórmula de Aristóteles, de certa forma todas as coisas. Suas antenas voltadas para a realidade são também artérias que a unem ao universo. Ora, essa característica do bom senso exigiria todo um desenvolvimento do discurso, que só podemos resumir dizendo que o bom senso assemelha-se a um instinto inato, capaz de distinguir o real do irreal, o ser da aparência, enquanto está em correspondência constitutiva com sua presença. Todo o seu ser está no ser com o ser na mesma relação de um amigo. Nisto difere da inteligência, que pode voltar-se para o irreal e confundir o ser com a ilusão.

Todos nós conhecemos homens de bom senso, relativamente pouco "inteligentes", isto é, pouco hábeis no manejo de idéias, mas dotados de uma capacidade de julgamento sólida e segura, incapazes de justificar a si mesmos a sua própria validade, que se expressam laconicamente porque vão direto ao propósito, ou seja, à simplicidade da realidade. Os camponeses são muitas vezes exemplos disso. "Gosto de conversar com eles", dizia Montesquieu, "porque não são sábios o bastante para serem imbecis". Ao contrário, podemos ver que muitas vezes as pessoas inteligentes carecem de bom senso: um exemplo claro são as ruminações de muitos intelectuais em termos de conduta das coisas humanas, individuais, familiares, nacionais ou internacionais. As palavras duras de Bernanos são muito verdadeiras: "Para mim, o intelectual moderno é o último dos imbecis, até que prove o contrário". Tenhamos em mente tanto essa separação entre bom senso e inteligência que nos servirá então para nosso diagnóstico, quanto o fato de que existem duas formas de inteligência: uma alimentada pelo bom senso, a outra desprovida dele.

Essa correspondência vital do bom senso com a realidade imediata é precisamente a característica que o relaciona a uma força da natureza viva, que triunfa sobre os obstáculos e persiste em direção à meta. O bom senso cai no centro dos seres e das coisas, como um corpo pesado em direção ao centro da terra; vai para a luz como a árvore, para o que é, como o instinto animal para a sua realização. Ele deixa de lado tudo o que está fora de seu caminho: o particular, o acessório, o supérfluo, o complicado, o artificial não entram em seu campo de ação. E isso obviamente pressupõe que o bom senso possua uma espécie de visão global de seu objeto, que saiba que o real é bem definido, encerrado em limites essenciais, e que além desses limites há apenas ilusão. É por isso que não se desvia do seu caminho. Pressupõe também que o bom senso saiba que os componentes da realidade estão organicamente distribuídos, e que a multiplicidade de seus aspectos está hierarquicamente ordenada em uma unidade central que a comanda. Segue-se que o bom senso dá lugar à segurança, a uma crença sã e ingênua e, por fim, a uma certeza inabalável: não há nele uma "lógica indubitável", mas um existencial indubitável: ele é o que é, ou o que ele deve ser, o que convence a dizer sim.

Enfim, tudo isso pressupõe que o bom senso seja correlativo, no homem que o segue, a uma certa coerência inferior, a uma harmonia e equilíbrio orgânicos que fazem do sujeito que conhece um "ser todo em uma só peça", em que a firmeza do juízo se liga à elasticidade, e se caracteriza pela capacidade de se adaptamento aos dados da experiência. É claro, de fato, que um homem internamente dilacerado, desequilibrado, internamente desordenado, cujas faculdades se sobrepõem confusamente, não pode descobrir uma ordem essencial nas coisas e nos seres em que se baseia sua investigação. O semelhante só pode ser conhecido pelo semelhante. Portanto, o bom senso unifica e hierarquiza o homem: para qualificá-lo plenamente, é preciso mais uma vez recorrer ao conceito de saúde, não apenas física nem apenas psicológica, mas global, no sentido humano, que abrange o corpo e a alma. À solução simples, natural, sem artifícios nem mal-entendidos, prescrita pelo senso comum, deve corresponder no homem de senso comum uma simplicidade, uma naturalidade, uma retidão que não deixa sombra à luz projetada sobre o problema a ser resolvido. Se o objeto é um, um é por sua vez o sujeito.

O último ponto é de suma importância. O bom senso é no homem a característica que o coloca no cenário da existência como ser humano, com a unidade que acompanha o ser, e as notas essenciais da natureza humana, reunidas e coordenadas por essa unidade. É claro que se trata aqui de uma unidade existencial concreta, regida por um princípio interno que com ela constitui um todo, e que definimos, segundo o costume, com o nome abstrato de natureza. O bom senso não é uma entidade inserida no homem como um núcleo, nem está ligado a uma natureza infra-humana ou super-humana: é o homem, e nada mais que o homem. Ninguém sonharia em dizer a um anjo ou a um macaco que eles têm bom senso. E é essa característica que dificulta a compreensão: a conduta instintiva do animal, as intuições deslumbrantes do anjo são relativamente acessíveis à análise e à representação. O bom senso, por outro lado, oferece resistência: sua simplicidade não é colocada em um único nível, biológico ou espiritual, mas no ponto em que vida e espírito, sentido e intelecto se cruzam e se entrelaçam; a um nível em que, para colocar em termos platônicos, a díade sustenta a mônada, e esta assume em si a primeira. E então, demonstra categoricamente, não como um postulado, mas como um fato, que o homem é um espírito rebaixado à carne, e que o próprio bom senso tem uma estrutura encarnada. Verdade fundamental, não pressuposta, mas implícita, ou melhor ainda, vivida e identificada, sem que se possa distingui-la, em todos os movimentos; mais ou menos como a saúde está difundida em todos os órgãos e em todas as atividades do homem que a possui, a ponto de se confundirem.

Essa condição do homem para o bom senso é tão essencial que ele preferirá, na ausência de qualquer outra solução, os dados nus e simples dos sentidos e a sua sistematização empírica às divagações de um ideal desencarnado: por mais superficiais e frágeis que sejam, os primeiros, pelo menos, fazem parte do ser, e desse pode lhe fazer a prova.

Para o senso comum, um cão vale mais que um leão morto, porque um leão morto não é nada mais que um leão ideal, porque este já não existe mais. Entre ser e não ser, ele fez sua escolha de uma vez por todas. É verdade que o bom senso acaba muitas vezes por não ir além do terra-a-terra: mas esta deformação, esta estreiteza, esta recusa de voar, de que é feito, e muitas vezes com razão, uma culpa, devem ser atribuídas mais do que outras aos prejuízos que sofre no indivíduo ou na sociedade. Como qualquer atividade humana, o bom senso pode ser pobre, mas também pode ser grande, perfeito, penetrante. Santa Teresa de Ávila deu o mais belo exemplo disso, quando impunha firmemente às suas noviças: "Que fique claro que tudo o que nos atrai a ponto de nos privar do uso da razão deve ser suspeito".

Considerado em si mesmo, e não em um nível inferior, o bom senso não separa de forma alguma o inteligível do sensível, mas busca uma solução que não separe esses componentes do conhecimento humano. Pode-se imaginar um homem de bom senso que confia apenas em suas sensações e renuncia deliberadamente, como pode, a descobrir seu significado e o valor inteligível das verdades que escondem? O bom senso inclui as sensações, mas, justamente por ser "bom", prolonga sua direção, decodifica seu sentido, identifica, permite jogar com as palavras, o sentido do sentido. É claro que isso implica a estreita complementaridade de corpo e alma, nem por outro lado contrasta com o que dissemos sobre o bom senso como "inteligência da inteligência". A inteligência humana não é verdadeiramente ela mesma, se não na medida em que é articulada à sensação, e uma metafísica sem física é apenas um jogo intelectual. Daí algumas consequências importantes, que só podem ser destacadas negativamente, uma vez que estamos diante de um dom primordial de conhecimento, além do qual não podemos voltar atrás.

Se é verdade que o bom senso implica a encarnação do espírito, isso significa que ele é, por isso mesmo, individualizado. É o homem de carne e osso, aquele que leva um certo nome, que tem bom senso e, ao contrário do famoso enunciado de Descartes, não é verdade que todos sejam igualmente dotados dele. Dir-se-á que isso acontece com todas as faculdades do homem: os sentidos mais ou menos apurados, a imaginação mais ou menos viva, a mente mais ou menos evoluída.

É verdade, mas o bom senso situa-se precisamente no ponto de intersecção da alma e do corpo, e não se desdobra eficazmente senão no seu dinamismo sinérgico: pode-se de facto experimentar uma sensação sem pensar, pode-se pensar sem experimentar uma sensação, mas ninguém pode estar de acordo com o bom senso se a experiência sensível e a atenção da inteligência não se compenetram. Poderá acontecer que a inteligência colida com dados mais ou menos obscuros, aos quais deve renunciar para destacar a substância inteligível, mas, neste caso, o bom senso não desistirá completamente: com sua intuição, recorrerá a situações análogas anteriores, que já havia resolvido; confiará nos ensinamentos da vida, descobrirá o caminho que une a raiz aos frutos, julgará de acordo com as tradições testadas e comprovadas. E aqui está novamente a relação íntima do bom senso com o corpo do homem e seus corpos maiores, que são a família, a pátria, a Igreja, a mãe comum dos fiéis e com todos aqueles organismos concretamente encarnados na matéria. Quem diz tradição diz substrato que transmite "hypokeimenon" material, continuidade psíquica, presença visível que deixa um rastro na história. Que esse apelo ao passado traz riscos, tudo bem; que ele desconfia de novidades repentinas, inegável. Mas é culpa do bom senso ou de suas formas viciadas?

Seja como for, o bom senso aparece como intimamente conexo com o ser-si-mesmo. Uma definição ambígua, que carece de esclarecimento, mas que responde bem à expressão popular "o homem que já não está em si mesmo", que "tornou-se outro" e, na linguagem científica, que está "alienado". Assim que se examina essa privação do bom senso, a fim de esclarecer o próprio bom senso, percebe-se que o ser si-mesmo não é característico do bruto, da pura matéria humana, mas do indivíduo como natureza humana encarnada e individualizada. Não é tanto a matéria ou o corpo que são tocados pela alteração, pela alienação da personalidade, mas a forma, no sentido aristotélico do termo, a determinação razoável de um determinado ser humano individual. A expressão "doença mental" diz tudo a esse respeito. O ser si mesmo significa, portanto, ser homem sendo aquele certo homem, e, portanto, o maior sinal da perda do bom senso está em querer ser outro que não uma natureza humana encarnada.

Os gregos reconheceram muito bem esse significado do bom senso. A máxima "conhece-te a ti mesmo", esculpida em mármore no templo de Delfos, lembrava-os de se reconhecerem como homens, seres limitados por uma natureza própria. O ousado que ultrapassou esses limites cometeu um crime imediatamente sancionado pelo castigo da loucura infligido a ele pelos deuses de natureza superior. A hybris é a antagonista da medida, cuja relação com a determinação da forma corporificada e, consequentemente, com o bom senso, não precisa ser enfatizada. Contentemo-nos em afirmar que o homem de bom senso tem a preocupação constante de chamar à medida tudo o que quebra a regra de ouro: os acontecimentos, aliás, mostram-no muito bem: esta é, sem dúvida, a lição que a Grécia deixou à humanidade como uma conquista eterna, pelo menos para quem sabe recebê-la. O bom senso atribui ao homem limites precisos, porque o homem é um ser corporificado, circunscrito por seu corpo e pelo respeito a esse componente de sua natureza: é justamente essa medida que permite ao homem atingir os limites de sua capacidade de ser, sem se perder nos incontáveis e esquálidos pântanos da ilusão e do nada. Não se sustenta a objeção romântica de que a medida constitua uma prisão: a medida imanente ao bom senso não é de forma alguma um constrangimento que ele exerce sobre si mesmo, mas, ao contrário, um limite de perfeição e maturidade, além do qual o ritmo de vida fica exasperado, apenas para morrer. O homem de bom senso está alicerçado numa base sólida que lhe permite, na mesma medida em que realiza e desenvolve o seu ser, abraçar outros seres e elevar-se ao conhecimento de Deus.

E aqui encontramos a relação do ser humano, limitado, com o ser universal. Sem ser si mesmo, é impossível apreender o ser dos outros. O limite de que somos acusados de ser prisioneiros não é o contrário do ilimitado, no sentido de distribuição analógica do ser, mas da ausência de limites, do indefinido, do informe. E é preciso dizer também que o finito é, para o homem, a condição para o conhecimento do infinito. Sem essa medida, da qual ele é o guardião e que até se confunde com ele, o bom senso não encontraria outra saída para as questões que o perseguem, a não ser o mais miserável dos desertos. Ele murcharia em si mesmo, deixando o campo livre para a inteligência errante, que, desvinculada de sua relação vital com o próprio ser, e desprovida do limite da natureza corporificada, sairia do homem e se perderia em um mundo irreal e desumano.

Neste ponto, podemos analisar a crise do bom senso. O bom senso se corrompe e se esvai quando o próprio ser já não lhe oferece uma base sólida, de modo que os componentes da natureza corporificada se separam uns dos outros, desmembrando o fundamento do próprio ser. Assim desprovida de seu fundamento, vê seu ímpeto desmoronar e suas forças enfraquecerem, enquanto a medida que comunica ao conhecimento e à ação gira desproporcionalmente. Temos muitos desses exemplos hoje.

Antes de ver qualquer um deles, façamos uma pausa para esclarecer a noção da doença da natureza humana encarnada, e partimos do dogma do pecado original. Não temos competência para dizer mais, exceto que nos parece impossível que o primeiro falo tenha corrompido inteiramente a natureza humana: se assim fosse, a humanidade já teria terminado sua marcha há muito tempo. Em vez disso, por mais profundas que sejam as crises da humanidade, permanece o fato de que ela sempre conseguiu trazer seu bem primeiro e fundamental acima dos males que a esmagam: a existência. Significa que tem recursos que um mal radical não pôde destruir. Tomada literalmente, a teoria protestante nega o tempo e os ciclos de nascimento e renascimento, decadência e aperfeiçoamento que a história também mostra evidente; atomiza a humanidade em indivíduos isolados uns dos outros, sem uma natureza humana comum, projetada em uma espécie de atemporalidade angelical. Jean Guitton demonstrou exatamente como a noção de duração vivente, com suas virtualidades e seus desdobramentos, está ausente do protestantismo. No limite, a doutrina protestante é a coisa mais "abiológica" que existe.

O mesmo vale para a teoria de Rousseau. Se o homem é bom e apenas a sociedade o torna mau, é porque o homem por sua natureza transcende a continuidade biológica da família e dos corpos sociais que ela produz. O homem é apenas consciência pura e o mal lhe vem exclusivamente de fora, por acaso, pois a vida de seu próprio corpo e dos outros suga seu espírito: "Consciência, consciência, voz imortal e celestial!".

Estas duas concepções de homem, aparentemente antitéticas, acabam por conduzir ambas a um dualismo, que, ao romper a unidade, e portanto os limites, da natureza humana, leva ambos os sistemas à concepção de um progresso indefinido do homem. É curioso notar como, ao se firmar, o protestantismo leva ao mesmo ponto em que a teoria de Rousseau termina quando se torna uma fé: a visão de uma humanidade divinizada, no quadro de uma evolução da matéria ao espírito. Isso acontece porque surge a necessidade de reabsorver o dualismo insustentável original, preservando a negação fundamental do aspecto biológico do homem. A culminação dessa apoteose está no pensamento de Teilhard de Chardin. Por outro lado, observa-se que essas teorias do progresso indefinido se fundamentam paradoxalmente na atemporalidade do devir: o tempo se reduz a um instante infinitamente dilatado, visto que o termo já está incluído no ponto de partida.

Mas esqueçamos esses problemas e nos contentemos em observar como a constatação da precariedade da natureza humana encarnada é mais consistente com a experiência: vejamos seus efeitos. É um lugar-comum que convém sublinhar, precisamente numa altura em que já não é nada comum: é difícil fazer bem o trabalho de um homem. A complementaridade hierárquica dos componentes da natureza humana poderia ter sido normal: ao contrário, não é, mas há um elemento de saúde e equilíbrio que traça o caminho: o bom senso. Isso não é tudo, mas também não é nada. É muito claro, porém, que o senso comum é descontínuo, e a experiência mais grosseira de nossa vida nos prova isso. Os eclipses do indivíduo podem depender de vários fatores: educação, influência, prestígio, contágio, magnetismo pessoal e assim por diante, mas esses fenômenos sociais geralmente são de curta duração. Para que continuem, é preciso que a rejeição do bom senso derive de uma concepção de homem que justifique essa rejeição, e que seja capaz de se difundir socialmente, de forma estável, graças aos órgãos publicitários.

É a própria fraqueza da natureza humana, estabelecida experimentalmente, mas não explicada racionalmente, que leva a essa substituição: se não é possível explicar racionalmente essa fragilidade, significa que a razão não está suficientemente desenvolvida no homem; deve, portanto, ser estimulada, é necessário que o homem torne-se um ser inteiramente razoável. Significa que a animalidade resiste nele à necessária abertura. E então é necessário reduzi-lo, senão eliminá-lo, tornando o homem o mais adequado possível aos cânones racionais. É inútil, portanto, condenável, recorrer a uma explicação sobrenatural do fenômeno: a religião cristã, com seu dogma da queda, mantém o homem em um nível inferior e não lhe oferece outra saída senão o mito para se erguer. Seu principal interesse é conceber o ser humano como um animal racional, abandonado às luzes descontínuas e casuais de seu suposto bom senso, iluminado de cima por uma luz enganosa que imita a verdadeira luz da razão. Esse movimento, que visa substituir o homem antigo e "finito" por um "homem novo", capaz de triunfar sobre a condição humana, tem sido chamado de racionalismo.

O racionalismo é a concepção dominante hoje, aquela que engaja o pensar e agir do homem contemporâneo. Ela surge do dualismo da natureza humana, que o bom senso só às vezes consegue superar, ou melhor, da tendência da natureza humana encarnada a se dividir em elementos antagônicos: de um lado a carne, de outro o espírito, enquanto o vínculo que os une torna-se cada vez mais fraco, e qualquer complementaridade entre os dois elementos desaparece. O racionalismo desencarna o espírito e tira a espiritualidade da carne. Entre o alto e o baixo do homem, entre o cume e a raiz, nada resta senão o vazio: o bom senso que os articula tende a desaparecer, sob a influência de uma inteligência liberta de suas relações com o saber sensível, para dar lugar a modelos lógicos construídos artificialmente pela atividade autônoma do espírito.

Ninguém como Michelet compreendeu o significado desta desencarnação. No prefácio de sua "História da Revolução Francesa", com seu gênio de vidente e profeta, ele enucleou a essência do espírito racionalista moderno: a hostilidade maniqueísta em relação à carne, essa realidade sombria e poderosa que oprime o homem, coloca-o em comunicação imediata com o universo e forma a base do conhecimento de Deus, tanto do ponto de vista natural como sobrenatural. "Grande século XVIII", escreve Michelet, "que fundou a liberdade na emancipação do espírito até então preso à carne, vinculado pelo princípio material da dupla encarnação teológica e política, sacerdotal e real; século do espírito que aboliu os deuses de carne no Estado e na religião, de modo que não havia mais ídolos, e nenhum deus restou senão Deus”.

Nenhuma outra análise aprofunda tanto o racionalismo moderno como esta prodigiosa intuição do poeta-historiador. É muito mais do que a proclamação dos direitos humanos, ou pura política; trata-se da autonomia radical da razão humana em relação à carne que a aprisiona, e do bom senso que une uma à outra. O racionalismo é uma revolta contra o bom senso, na medida em que este indica aos elementos da natureza humana encarnada sua finalidade interna recíproca, e na medida em que dirige o conhecimento e a ação do homem para um fim externo adequado às suas possibilidades. É justamente a partir dessa época, identificada por Michelet, que o bom senso, atacado por todos os lados, entra em estado de crise permanente, graças aos dois grandes déspotas da propaganda social, políticos e intelectuais. Pense em toda a obra daquele gênio camponês de bom senso que foi Péguy. Observamos apenas que o político e o intelectual sentem uma secreta hostilidade contra o bom senso, quanto mais se exaltam do poder que possuem; uma tendência que aumenta devido ao amplia-se de sua zona de influência, e quanto mais a ampliação do ambiente social em que realizam suas destruições não permite o controle direto de seu movimento. Já predispostos à desencarnação pelo trabalho que desempenham e que de alguma forma os eleva, como os anjos, acima dos mortais comuns, lançam-se a corpo morto - é apropriado dizer - quando seu domínio é vasto o suficiente para não mais permitir a verificação sensível de suas ações. Por outro lado, as disputas entre políticos e intelectuais são tanto mais irremediavelmente vãs quanto sua desencarnação natural os leva a afirmar pontos de vista subjetivos - claro que cuidadosamente disfarçados - sobre realidades objetivas profundas, que poderiam reconciliá-los. Assim, esses conflitos tornam-se puras e simples "ideomaquias", desprovidas de conteúdo, cujo ponto de inserção na realidade é estranhamente baixo e superficial: uma pirâmide de nuvens colocada de cabeça para baixo sobre um dardo curto, ainda capaz de ferir e matar. "Prendia seus epigramas contundentes na ponta de uma adaga", diz Chateaubriand sobre o convencional (e poeta) Pons de Verdun.

Não nos é permitido, nos limites deste estudo, listar todas as aberrações do bom senso, e remetemos o leitor as nossas obras anteriores. No entanto, se tentarmos reunir em um diagnóstico coerente as observações que cada um pode fazer por si mesmo neste ou naquele setor, não nos será difícil constatar que nas faculdades, tanto inferiores como superiores, do homem de hoje, o abstrato tende a caçar cada vez mais o concreto. As abstrações tirânicas que governam o conhecimento e o comportamento não são de modo algum inteligíveis desvinculadas do sensível, mas criações da razão pura, elaboradas pelo pensamento desencarnado, que tentam explicar do exterior um dado que a experiência sensível mal toca, e que se reduz ao seu puro esqueleto quantitativo, que também é altamente abstrativo. É um fenômeno que se manifesta com violência nas ciências naturais, e nas ciências humanas, na conduta política e social, preocupada do ponto de vista das massas e das estatísticas, no comportamento individual, reduzido a medidas unidas por uma etiqueta.

Mesmo as artes não são exceção, nas quais o peso do sensível é fundamental: a abstração e o rebus tomaram conta. Abstrações vazias de sentido também na filosofia: sistemas que pretendem retornar às "coisas em si", ou à "existência", dialética hegeliana ou marxista, neopositivismo etc... Todas as coisas que faltam a espessura humana, e se caracterizam por uma espécie de introversão incestuosa do espírito em relação a si mesmo. A presença dos seres e das coisas não passa de um pretexto, em torno do qual prolifera um delírio verbal pesado e sutil. Um cerebralismo artificial e bizantino substituiu a amizade que a filosofia deve ter pela natureza, se não quer acabar no amorfo, e lhe impõe uma forma arbitrária que satisfaz o pensamento, mas que o homem que pensa rejeita com energia.

A explicação dessa inversão de valores, dessa cisão entre presença e representação, requer algumas palavras. A inteligência humana, de fato, deriva todas as suas ideias das coisas, mas pode, por sua natureza, abstrair do mundo externo, considerar em si apenas as ideias que são formadas e deformá-las como quiser.

Podemos tocar essa desencarnação da inteligência a partir de seu vínculo com o corpo e, por meio dele, com o universo a cada momento: o exemplo mais claro dessa "Umwertung" é a transformação da pátria material em pátria ideológica, típica de muitos espíritos contemporâneos. No modo de pensar de hoje, encontra-se infinitas vezes o corte do cordão umbilical que liga a ideia ao mundo sensível: quantos homens afirmam sem medo, como verdade sacrossanta, ideias que ruminaram sem nunca ter tido o menor contato com as coisas e com seres, ou que simplesmente pescaram no jornal? A faculdade de construir um mundo racional imaginário desenvolveu-se de uma forma sem precedentes. Pode-se perguntar, com Gabriel Marcel, qual é a reserva de ouro dessa formidável inflação conceitual.

Seria fácil demonstrar que a inteligência desencarnada do homem contemporâneo funciona em todos os campos como uma gigantesca máquina de engarrafamento, que aplica ao mundo as formas que construiu a priori; formas que têm a ver com a realidade apenas mais ao nível dos instintos, emoções viscerais, impulsos afetivos, esse formigamento de forças impuras, ora violentas ora evanescentes, em cujo mecanismo a vida se degrada quando não está mais impregnada de espírito. A existência humana se apresenta, nesses níveis inferiores, como um conjunto de reflexos condicionados, sobre os quais se sobrepõe o engarrafamento automático de abstrações e, desse ponto de vista, o homem se assemelha cada vez mais a um agregado de fenômenos quantitativos, análogos àqueles que as ciências positivas estão descobrindo na matéria inerte. É claro que o bom senso não tem mais lugar em tal sistema: como diz Aristóteles, não pode existir o bem nas matemáticas, nem finalidade nos mecanismos, nem complementaridade orgânica nas engrenagens justapostas. Que valor ainda pode ter, em perspectiva do gênero, os fins do homem que é plenamente tal, o Verdadeiro, o Belo, o Bom? O que dá certo será verdade, o que estiver na moda será belo, o que for "emocionante" será bom, no sentido de que determina a liberação de um potencial acumulado.

A influência das ciências positivas na crise do bom senso parece inegável. Com isso não queremos chegar a uma condenação ridícula das ciências e técnicas resultantes. As ciências fazem sentido, mas por si só não contribuem em nada para o bom senso. O progresso científico, a que assistimos há vários séculos, e que hoje atingiu um ponto crítico, não é em si um progresso humano, porque não resolve nenhum problema humano ou, mais precisamente, porque não diz respeito ao homem em nenhum modo como ser em relação com o ser universal. De fato, ser é para o homem ser com, inclui uma familiaridade, um acordo, uma participação com os outros seres e com as coisas, enquanto as ciências positivas colocam entre parênteses essa relação de comunhão e conaturalidade. Para estes, a realidade é estritamente objetiva, constituída de um puro "antes do (ob) pensamento": seu ideal é sempre o mensurável, o inventariável, que pressupõe a exterioridade ontológica do conhecente e do conhecido. Em si mesmas, as ciências positivas são frias: estimulam o intelecto, não o homem em si. São insensíveis: e isso significa não apenas que lhes falta um sentimento, mas também aquele mínimo de participação no objeto que a sensação qualitativa acarreta. Em um ambiente social saturado do ideal científico, o bom senso sofre de anemia, e não pode ser de outra forma; se existe, é esporádico, individual. Portanto, eles não podem traçar uma direção para o homem: permanecem fora a finalidade, a solução exaustiva, mesmo que seja apenas um presságio, o bom senso. Eles contribuem muito para a inteligência e determinam aproximações que equivalem a certezas; mas não alimentam a alma. O provérbio diz: "A ciência sem consciência, ou seja, sem o senso de limites, arruína a alma".

Gostemos ou não, uma ciência que vem investir em qualquer grupo de fenômenos implica um poder. Ora, a física filosófica e qualitativa dos antigos era desprovida de poder sobre a natureza, enquanto a ciência matemática e quantitativa dos modernos exerce um poder teoricamente ilimitado sobre a natureza e, na prática, revela-se repleta de perigos para o homem como tal. Da palavra aos fatos: sem dramatizar, o mínimo que se pode dizer da física nuclear é que ela exige infinitamente mais do homem do que contribui para seu conhecimento da matéria. Seria preciso um soberano bom senso para manter o domínio sobre esse poder. O fato é que exercitar o poder absoluto não predispõe ao bom senso. E o que dizer das técnicas econômicas e psicológicas? Estamos diante de um círculo vicioso: quanto mais o homem domina a natureza, mais corre o risco de perder o bom senso que deveria, ao contrário, aumentar.

A loucura não é mais contida por sua própria violência, segundo a intuição dos Gregos, mas é exercida sem encontrar outro limite além dos conhecimentos e técnicas do sentido oposto, que equilibram seus perigos e seus inconvenientes. Esforços estão sendo feitos para fazer uma bomba atômica "limpa"; as crises econômicas são combatidas com estratagemas complicados; se opõe a “lavagem dos cérebros” um outro "engarrafamento dos crânios"; o vazio do espírito puro ou da matéria pura é preenchido com fatos históricos destilados e transformados em abstrações. O bom senso se evaporou, e se busca, então, o equilíbrio em uma síntese de antagonismos, um não menos pré-fabricado que o outro. A ideia de que há um equilíbrio natural que precisamos recuperar sob pena de morte, física ou mental, desapareceu e desapareceu porque o espírito desencarnou. O homem concreto, em carne e osso, com seu bom senso, não desempenha mais nenhum papel, não desperta mais atenção ou estima. Basta ver com que desenvoltura ele é tratado, ou se deixa tratar, por aqueles que professam um respeito nominal por sua "pessoa" também diluída em abstrações.

Que o homem contemporâneo tende cada vez mais a ser considerado, e a se considerar, uma matéria maleável forjado por diferentes marcas abstratas, conforme épocas, lugares e circunstâncias, isso nos parece evidente. Acontece como se o homem, dividido por um profundo cisma interior, tentasse recriar uma unidade racionalizando os seus níveis de ser, até o momento em que sua tentativa encontra a presença obscura e irracional da matéria, as estruturas obscuras e larvais da existência, não mais impregnados de alma pela encarnação. Não importa que esses projetos racionais sejam científicos, ou inspirados por uma ciência vulgarizada, ou nascidos da adaptação do racionalismo ao contexto social e político, ou seja, ideológico: o fato é que eles atendem aos impulsos cegos que atormentam as periferias do ser humano, eles os capturam e os transferem para comportamentos lógicos superiores, da mesma forma que as ciências positivas se apossam dos aspectos quantificáveis da matéria e os elevam à dignidade de mecanismos racionais. Assim, à medida que os aspectos quantificáveis da matéria se adaptam a modelos pré-construídos, a cuja forma abstrata comunicam a existência material, essas forças turvas se introduzem em projetos intelectuais e lhes conferem uma existência humana. Medo de morrer e sofrer, sexualidade, agressão, inveja, sentimentos de gregarismo, e assim por diante, são incorporados a sistemas preconcebidos; eutanásia, união livre, casamento de prova, divórcio, teoria da luta de classes, igualitarismo, coletivismo, aos quais, por vezes, prestam uma consistência.

Nasce um novo tipo de homem que elimina o homem de bom senso do palco da história. Se si observa com um pouco de cuidado o curso de seus pensamentos e ações, ficará impressionado com seu caráter autocêntrico. Enquanto o bom senso é heterocêntrico, ou seja, supõe um reto andar para um fim que não depende de nossa inteligência ou de nossa liberdade, mas é de certa forma constitutivo da própria natureza, o "homem novo" centra todo o seu comportamento em si mesmo. Não poderia ser diferente: para se tornar diferente do que se é por natureza, é preciso necessariamente tomar a si mesmo como ponto de referência e comparar tudo a si mesmo. O homem de bom senso não se toma como fim: ele sabe que a coesão interna lhe é necessária, e que a concordância dos componentes de sua natureza é um requisito para julgar corretamente e agir corretamente, mas não modifica a estrutura de modo algum de suas faculdades, nem os seus limites nem a sua complementaridade ao menos embrionária: não se constrói, nem o poderia; aperfeiçoa seu ser em função das tendências naturais que escapam à sua influência. Sua reflexividade repousa sobre a sólida evidência que ele carrega dentro de si, que está proibido de modificar, e que o direciona para o mundo externo, não para se perder nele, mas para iluminá-lo e alcançar os diversos fins a que se destina.

Se até mesmo perguntar-se se essa atitude pode ser definida como reflexividade; de fato, não se trata de forma alguma de um retorno do pensamento sobre si mesmo para apreender ou analisar-se, mas de uma adesão a si mesmo e às luzes da natureza humana encarnada. Ao contrário, o desencarnado moderno, que quer ser diferente do que é, só pode tirar de seu espírito o material de sua autoconstrução e considerar-se continuamente em sua escolha e em sua sistematização, bem como, em na medida em que "a sua existência precede a sua essência", todos os seus atos pressupõem uma reflexividade radical, anterior à fabricação do ser. Só o espírito pode recolher-se em si mesmo, isolar-se do resto, olhar-se como Narciso e dar a forma livremente construída em si a ser considerada como puro existente. Nesse sentido, o ponto em que convergem todas as correntes racionalistas contemporâneas, admitidamente ou não, é o existencialismo de Sartre: testemunho de que o "homo rationalis" de nossos dias tende a si mesmo e à absoluta autonomia da razão em relação ao corpo, grupos sociais e o mundo externo. O esquema desse existencialismo nada mais é do que a razão pura, ou a pura reflexividade, que precede a existência, que, por sua vez, precede a essência. Motivo inspirador: racionalismo integral. É suficiente de resto constatar como, para querer ser diferente do que se é segundo a natureza encarnada, ocorre necessariamente  um plano preliminar, que só pode ser formado na reflexividade própria do espírito, por meio de seres de razão, tendo sua sede apenas no espírito, e que este elabora à sua maneira.

A essa retirada egocêntrica do espírito sobre si mesmo e sobre suas elaborações, acrescenta-se então a consideração adicional do eu que se trata de construir, e ao qual devemos dar, por assim dizer, uma nova "natureza", um ser artificial.

Não nos enganemos: o mundo de hoje está cheio de homens e mulheres que querem parecer diferentes de como são, e cujo comportamento, intelectual e moral, obedece precisamente ao esquema existencialista. A estrela de cinema que se faz personagem, a pequena datilógrafa ou a vendedora que a imita cegamente; o indivíduo que se identifica com a imagem que fez de si mesmo, com seu cargo, sua profissão, seus desejos, suas paixões individuais e políticas, as pressões coletivas que sofre, as ideologias que faz suas, enfim, a parte de seu ser que ele elevou a tudo, excluindo sua natureza global, corporificada: estamos diante de uma imensa série de exemplos. A máquina de engarrafamento do racionalismo vulgar, feita para a produção em massa, está funcionando a todo vapor.

Portanto, não devemos hesitar em dizer que este mundo em que todos querem ser diferentes do que são, é um mundo de pessoas alienadas, presas da loucura e nos antípodas do mundo do bom senso.

Como então podemos voltar a esse bom senso, já que as zonas saudáveis estão diminuindo cada vez mais? É um problema fundamental e urgente: mas não há solução que possa ser indicada por um profeta, assim como não há solução racional, pois a razão desencarnada tende a coincidir com a loucura. Retornar ao bom senso significa retornar à vida ordinária, em que a saúde humana não é percebida mais do que se percebe o ar que se respira. Mas nada é mais difícil: talvez até seja impossível, uma vez que se envereda pelo caminho da extravagância. Nem mesmo os eventos mais terríveis foram capazes de tornar a humanidade mais sábia: basta pensar no século XX, tão cheio de guerras atrozes. Pelo contrário, parecem ser capazes de precipitar o curso das coisas. É o que se chama "o moto da história".

Tudo o que resta é se desesperar? Não: seria o pior dos disparates, um disparate absoluto como sempre é o desespero. Há apenas uma via de saída, aquela que a experiência indica claramente: o bom senso supremo, cujo termo é Deus, não apenas o criador da natureza, mas também seu salvador. Para realizar os gestos mais normais da vida, para pensar e agir de acordo com a natureza, é preciso nada menos do que a graça do céu. Em última análise, é próprio a pequena Santa Teresa do Menino Jesus que mostra ao homem do nosso tempo o caminho a seguir até o fim para sair da crise do bom senso.

* Traduzido da versão italiana Fenomenologia dell'autodistruttore - L’homme contre lui-meme, Nouvelles Editions latines, 1, rue palatine, Paris, 1962

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