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sexta-feira, 9 de abril de 2021

GIOVANNI SERVODIO: O EQUÍVOCO DA LIBERDADE RELIGIOSA

 



De Giovanni Servodio

UNAVOX

[Tradução: Gederson Falcometa]

 

Buscaremos manter uma certa moderação ao tratar deste tema que, após a emergência sanitária, se tornou objeto de múltiplas controvérsias, de declarações e retratações públicas e, sobretudo, gerou mal entendidos e consequentes equívocos.

Falamos da celebração das Santas Missas nos lugares de culto católicos, que o Governo proibiu de fato exercitando um direito que não tem e então aplicou uma arbitrariedade, com o agravante da manifesta inconsciência acerca das premissas e das consequências da sua decisão.

Primeiramente clareamos um ponto importante: a proibição de fato das celebrações das Missas diz respeito só as Missas com a participação dos fiéis, porque o sacerdote, que é o único sujeito que pode efetuar a celebração, é livre para fazê-lo: coisa que não poderia ser de outro modo, como demonstra a experiência de séculos e em particular a experiência dos sacerdotes em cativeiro. Segue-se que a continuidade do culto católico não foi afetada pela decisão do governo e não poderia ser em qualquer caso; embora seja claro para todos que os próprios governantes não tinham e não têm a menor consciência disso.

Por outro lado, por sua própria natureza, a celebração da Santa Missa escapa à interferência de qualquer imposição externa, exceto em casos extremos que ocorreram dentro dos regimes políticos comunistas e / ou maçônicos. O único impedimento irremediável é determinado quando o celebrante não pode ter a "matéria" disponível para a validade do sacramento. 

Então, a Missa em discussão da dita proibição diz respeito a participação dos fiéis e não a celebração em si. E sobre este aspecto que surge o primeiro equívoco.

Segundo a nova concepção que se instaurou na Igreja moderna a partir do Concílio Vaticano II, a celebração da Santa Missa se daria apenas com a participação dos fiéis, de modo que, na ausência dos fiéis, a própria celebração da Missa desapareceria. Tal concepção, embora infundada em vários sentidos, gerou na consciência dos fiéis, leigos e clérigos, o convencimento que a celebração da Santa Missa seria de competência dos homens, ao ponto de que quanto mais homens – e mulheres – presentes, mais Missa se teria.

O fato, bem real, que o único celebrante efetivo é Nosso Senhor, que se serve do ministro consagrado, e só dele, para renovar o Seu Sacrifício sobre a Cruz apto a realizar a redenção dos fiéis bem dispostos em tal sentido, este fato acabou por ser relegado entre as meras teorias de especialistas do sagrado. Hoje grande parte dos fiéis estão convencidos que sem eles não se celebra a Missa.

Essa constatação faz nascer um primeiro problema quanto ao comportamento dos Bispos, especialmente os italianos, realizado com o aval, embora contraditório, de Papa Bergoglio. Se não houvesse Missa senão na presença dos fiéis, os Bispos deveriam se insurgir indignados e reagir fortemente ante as decisões arbitrárias do Governo, isso desde o primeiro momento. Mas isto não se verificou, com o agravante que alguns desses, em conjunto com tantos liturgistas e teólogos, de repente redescobriram a verdadeira concepção da Santa Missa, que eles próprios negligenciaram e muitas vezes distorceram durante sessenta anos.

É claro que tal comportamento tem apenas uma consequência: a perda de credibilidade dos bispos e de seu ensinamento; e isto não só para os fiéis, mas também para os não crentes, incluindo os membros do atual governo e ainda mais os membros da comissão técnico-científica indevidamente chamados a pronunciar-se sobre o assunto. Esta consequência induzirá as autoridades civis a não darem grande importância às opiniões dos bispos, senão em termos meros "diplomáticos".

 

Diante desta situação, mais confusa do que nunca, muitos fiéis reagiram de forma mais ou menos decisiva, dependendo das circunstâncias. Alguns até recorreram ao instrumento legal, reconhecendo nas decisões do Governo toda uma série de violações do Código e dos tratados entre o Estado e a Igreja; e pediram ao Judiciário que investigasse, sob a ilusão de que os juízes são realmente imparciais e acima de tudo competentes.

Ora, um dos argumentos avançados pelos ditos fiéis foi o da violação da liberdade religiosa e, neste caso, a violação da liberdade de culto.

Esse argumento, que entre outras coisas apelava para a Constituição, como se ela tivesse luz a oferecer sobre o culto a ser prestado a Deus e sobre o próprio Deus, esse argumento gera outro grande mal-entendido.

Se é verdade que em termos laicos a liberdade de professar a própria religião encontra conforto na concepção moderna estabelecida na Igreja com o Vaticano II, segundo a qual todos devem ser livres para professar a religião que quiser e, portanto, também nenhuma religião; É igualmente verdade que em termos religiosos, e não apenas católicos, professar uma religião significa estar convencido de que é a única que vale a pena professar, porque a única verdadeira. E isso é ainda mais verdadeiro tanto para aqueles que abraçam esta ou aquela religião do zero, quanto para aqueles que não professam nenhuma, que em última análise nada fazem além de professar um "credo", que será o dos descrentes, mas é sempre um credo.
Não é difícil perceber que, neste emaranhado de palavras e pensamentos, uma coisa é evidente: falar de liberdade religiosa equivale a falar de uma contradição manifesta. Não se pode professar "uma" religião, que para cada um é "a" religião, exceto em termos absolutos: de modo que a profissão da própria religião, a única verdadeira, exclui a profissão de qualquer outra religião, que é falsa por definição. E isso porque o homem não vive em esplêndido isolamento, mas em comunhão com os outros homens, com os quais compartilha usos, hábitos, costumes e crenças. Do contrário, não teríamos uma comunidade de homens, mas um caótico estar uns próximos dos outros, com os quais não se há nada em comum.

Este conceito simples pode ser apreendido em sua concretude se olharmos para a coexistência em uma família; impensável sem a comunhão de intenções, comportamentos, sentimentos e propósitos.


A possível objeção de que a vida que hoje se passa na sociedade moderna seria possível precisamente na presença de uma pluralidade de concepções, inclusive religiosas, pode ser facilmente refutada com a simples observação de que não se trata de uma questão de vida em comunidade, mas de uma espécie de caos de direitos, de instâncias e comportamentos que encontram sua relativa compensação no exercício de uma autoridade pública que por um lado alimenta as forças centrífugas de indivíduos e grupos e por outro impõe uma normativa comportamental uniformizadora, obrigante e mais rica de proibições do que de concessões. Tudo isso só pode ser definido de uma maneira: tirania. O que, partindo da concepção da liberdade, e da liberdade religiosa em particular, leva ao seu exato oposto.

A prova prática de que se trata disto, a temos quando se pensa que a sociedade moderna não é dirigida nem mesmo por Governos que são manifestos, mas por uma espécie de governo mundial não manifesto, mas onipresente e altamente condicionante: se pense no mito da liberdade que é passado adiante quando alguém declara em palavras ou com os fatos que entende ser livre para pensar e agir como quiser: em nome da liberdade universal, ele é condenado e forçado a se conformar aos ditames do governo mundial invisível, que usa dos Governos visíveis dos vários Estados.

E mesmo muitas das guerras que este governo mundial desencadeou foram travadas em nome da liberdade: para afirmar a liberdade universal - já foi dito - é necessário sacrificar a liberdade individual ou de grupo.

E assim o jogo acabou: todos nós somos livres para pensar e fazer o que nos é dito que deve ser pensado e feito.

O que foi dito até agora ajuda a compreender o verdadeiro significado do pedido que levou tantos católicos a apelar à liberdade religiosa para defender a celebração da Missa na presença dos fiéis. Instância legítima - diz o Governo - mas desde que seja praticada de acordo com as regras que ditamos: primeiro a saúde pública.

E é curioso como no nascimento da nova organização social que prevalece no mundo hoje, existia justamente um “comitê de saúde pública” autodefinido. Era 1793 e esta comissão, em nome da liberdade, suprimiu as Missas públicas e de várias formas conseguiu a eliminação de um número incalculável de pessoas, sobre as quais ainda hoje se discute um número que varia entre centenas de milhares, até um milhão. . E desde então, ao longo de mais de dois séculos, o fenômeno se repetiu, ainda em nome da liberdade, com a eliminação de milhões de pessoas realizada pelos diversos totalitarismos com diferentes rótulos, completamente comparáveis ​​aos atuais "comitês técnico-científicos" .

 

Os católicos, com um mínimo de coerência, hoje devem pedir o exercício do dever de adorar a Deus, não em nome da liberdade, mas em nome de Deus e das suas leis, sem as quais não se pode nem falar da humanidade, mas apenas da animalidade e bestialidade.

Se há um fator relevante que emergiu da propagação desta epidemia, que não é bem conhecido de onde, como e por que veio, esse fator é que os católicos devem antes de tudo apelar a Deus, retornar em todos os aspectos a Ele, e em nome de Deus para exigir que tudo seja feito em Seu nome; e exortar a todos à conversão e à prática da penitência que consiste no abandono do estilo de vida atual.

Devem finalmente pedir, depois de sessenta anos de uma Igreja comprometida com o mundo, um retorno à verdadeira Igreja que prega e pratica a rejeição do mundo e a rejeição das obras e sugestões do diabo.

Devem pedir a submissão do poder temporal à autoridade espiritual.

Eles devem pedir a remoção da Igreja de Cristo de todos os falsos clérigos que juraram servir ao Adversário, que se enfurece com a cobertura de todos os tipos de rotulagem.

 

E se isso lhes parece um empreendimento humanamente impossível, os católicos devem se confiar à onipotência de Deus, orando a ele e implorando-lhe que providencie o mais rápido possível, de acordo com seus planos divinos, a sua libertação e a libertação do mundo.

Então as palavras divinas de Nosso Senhor Jesus Cristo serão traduzidas em prática:

 

“Se permanecerdes fiéis à minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos; conhecerá a verdade e a verdade o libertará ”(Jo. VIII, 31-32).

*

Outros textos sobre a liberdade religiosa:

DON CURZIO NITOGLIA: A LIBERDADE RELIGIOSA E A TRADIÇÃO APOSTÓLICA

P. CURZIO NITOGLIA: A CONSTITUIÇÃO CRISTÃ DOS ESTADOS E A LIBERDADE RELIGIOSA

DISPUTATIONES THEOLOGICAE: O ESQUEMA PREPARATÓRIO SOBRE A LIBERDADE RELIGIOSA

P. MATTEO LIBERATORE, S.J.: CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO

DA LIBERDADE DE RELIGIÃO E DE CULTO - P. MATTEO LIBERATORE S.J.


P. BONFIGLIO MURA: DA LIBERDADE DE PENSAMENTO, DE PALAVRA E DE IMPRENSANA SOCIEDADE MODERNA





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